Como um CEO: Rogério de Andrade geria segurança como empresa e 'esculachava' quem não se vestisse bem

 

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Dois seguranças mal vestidos quase causaram um constrangimento na proteção do bicheiro Rogério de Andrade. A situação virou motivo de bronca em um grupo de WhatsApp usado por policiais responsáveis pela segurança do contraventor.

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Em uma mensagem enviada em 29 de agosto de 2019, um dos coordenadores da equipe chamou a atenção dos colegas de farda. Segundo ele, dois agentes haviam ido até o apartamento do bicheiro, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, para entregar uma “encomenda” ao “zero zero (00)” — como Rogério era tratado pelos guarda-costas —, mas estavam mal vestidos.

Como o contraventor estava viajando, outra pessoa atendeu à porta e reclamou da aparência dos seguranças. O recado acabou repassado ao grupo.

“(A pessoa) fez o seguinte comentário: ‘Poxa, quase não abri. Olhei pela câmera e tinham dois mulambos (mal vestidos) na porta’”.

O episódio faz parte de centenas de mensagens trocadas entre policiais que atuavam na segurança de Rogério de Andrade, segundo denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio.

De acordo com os promotores, o bicheiro gastava R$ 207.600 por mês apenas com sua segurança pessoal, mantida por uma equipe formada majoritariamente por policiais militares. Nesta terça-feira (10/03), a 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa expediu 20 mandados de prisão contra o grupo investigado, incluindo o próprio contraventor, que atualmente está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.

O que diz a denúncia

A base da denúncia são conversas entre os policiais trocadas entre 2019 e 2021. O grupo investigado pelo Gaeco é formado por nove policiais da ativa, sete PMs da reserva, um policial penal inativo e um ex-policial penal.

Além de diálogos sobre escalas de trabalho, as conversas incluem a proteção do bicheiro e de familiares, além da segurança de pontos do jogo do bicho e de máquinas caça-níqueis.

Chama a atenção o fato de que o chefe da segurança, Ademir Rodrigues Pinheiro, frequentemente alertava os integrantes do grupo sobre a apresentação pessoal dos policiais:

“Em relação à apresentação pessoal, apesar de eu concordar com essa lógica, isso parte do 00. Ele é extremamente educado, porém já vi ele esculachar funcionário por causa da vestimenta. Esculachar não com palavras, mas com atitudes, que é pior”.

As conversas indicam que Rogério seria o responsável por gerir uma espécie de “empresa” de segurança. Uma das provas obtidas pelo Gaeco aponta gastos de mais de R$ 200 mil por mês com a segurança pessoal do contraventor, formada majoritariamente por policiais militares.

Segundo os promotores, o grupo atuava de forma estruturada e com divisão de tarefas, com o objetivo de obter vantagens financeiras por meio do domínio territorial da exploração do jogo do bicho e de outras atividades ilícitas. A organização também estaria envolvida em corrupção, lavagem de dinheiro, extorsões e crimes violentos, incluindo homicídios.

De acordo com a denúncia, a investigação é um desdobramento da Operação Calígula, que já havia levado à apresentação de outras denúncias contra integrantes da mesma estrutura criminosa. As investigações anteriores atingiram diferentes núcleos da organização, incluindo a liderança do grupo, operadores financeiros e responsáveis pela segurança armada do bicheiro.

Os promotores afirmam que a organização mantinha forte infiltração em instituições públicas, principalmente nas forças de segurança. Entre os denunciados estão policiais militares da ativa e da reserva, um policial penal e um policial civil que, segundo o Ministério Público, atuavam na proteção da organização, no repasse de informações privilegiadas e no recebimento de propina.

Quem são os policiais denunciados

Segundo o Ministério Público, integram o grupo:

Ademir Rodrigues Pinheiro

Leandro Oliveira da Silva

Julio Cesar Telles Barbosa

Edson Rebello do Nascimento Junior

Rafael Dias Vaz Alves

Sergio Luiz Pereira Ferreira

Flavio Candido de Souza

Alexandre Gonzaga de Lima

Cesar Roberto de Britto dos Santos

Wallace da Silva Montes de Souza

Gilberto Alves Pereira

Antonio de Melo Pereira

Alexsandro Marques da Silva

Washington Ferreira dos Santos

Sergio Luis de Castilho

Moacir Rosa dos Santos Junior

Ronaldo Barbosa dos Santos

Paulo Batista da Silva

Francisco Carlos Cardozo