Como um astro de ‘Harry Potter’ foi de filmes censura livre a comédia erótica BDSM
Os cinéfilos provavelmente conhecem Harry Melling pelos filmes de “Harry Potter”, nos quais ele interpretou o cruel primo de Harry, Dudley Dursley. Então, quando ele aparece na tela se submetendo aos comandos sexuais de um motoqueiro taciturno na comédia romântica erótica “Pillion”, de Harry Lighton, faz sentido que os fãs fiquem boquiabertos.
O papel de Melling em “Pillion” solidifica uma mudança em sua carreira. O ator de 36 anos, que tinha 10 quando fez o primeiro "Harry Potter", já fez papeis trágicos (um ator com voz de veludo, mas sem braços ou pernas que é explorado em “A balada de Buster Scruggs”), astutos (o príncipe Malcolm na adaptação de “Macbeth” estrelada por Denzel Washington), charmosos (um jovem Edgar Allan Poe em “O pálido olho azul”) e ousados (“Pillion”).
O que ele fala sobre essas escolhas? Não há um fio condutor.
“Eu simplesmente busco temas que me deixariam empolgado de assistir, tipo, ‘Será que consigo entender isso?’”, disse Melling em uma recente videochamada de seu apartamento no bairro de Marylebone, em Londres, para onde estava se mudando do lugar onde morava com seu parceiro há 15 anos (um jardim maior o aguardava, ele comentou entusiasmado).
O ator Harry Melling em 'Harry Potter' e em 'Pillion'
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Ele está ciente da polêmica “Agora estou apaixonado pelo Dudley”, que tomou conta da internet desde que ele apareceu como um elegante campeão de xadrez em “O Gambito da Rainha”, da Netflix, em 2020? (Seu colega de elenco em “Harry Potter”, Matthew Lewis, que interpretou o atrapalhado Neville Longbottom, atraiu atenção semelhante após sua própria transformação.)
“Eu só tento manter a cabeça baixa”, disse Melling, que não está nas redes sociais, mas é charmoso e franco na conversa — e propenso a fazer caminhadas tranquilas de três horas pela cidade. “Há algo em caminhar que eu adoro”, disse ele. “É assim que eu decoro as falas.”
Melling não é o primeiro ator de “Harry Potter” a dar um grande salto numa nova fase da carreira. Daniel Radcliffe, protagonista da saga original, ficou nu para estrelar o drama psicológico “Equus” em Londres aos 17 anos, foi indicado ao Emmy por sua atuação memorável como o parodista Weird Al Yankovic em uma cinebiografia nada convencional, e ganhou um Tony por sua atuação na aclamada remontagem da peça “Merrily we roll along”, de Stephen Sondheim, na Broadway.
“Poucos atores conseguem ter qualquer tipo de autonomia sobre suas carreiras, então, se você estiver nessa posição, aproveite e divirta-se”, disse Radcliffe, de 36 anos, em uma entrevista recente. “Faça o máximo de coisas que você gosta.”
Daniel Radcliffe e Harry Melling em 'Harry Potter'
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Caçula de três irmãos, Melling cresceu em Mill Hill, na região metropolitana de Londres, e tem muitos atores em sua família — seu avô, Patrick Troughton, foi o segundo Doutor de Doctor Who. Ele disse que sabia desde cedo que queria seguir carreira nos palcos.
“Eu adorava a possibilidade de me transformar e contar histórias”, disse Melling, que interpretou diversos papéis em produções em escolas de teatro — um de seus favoritos era o ameaçador trabalhador rural Jud Fry no musical “Oklahoma!” — antes de ingressar na Academia de Música e Arte Dramática de Londres.
Depois de conseguir o papel em “Harry Potter” aos 10 anos e participar de cinco filmes, ele retornou às suas raízes teatrais, estrelando “Rei Lear” ao lado de Glenda Jackson no West End de Londres, interpretando o papel duplo de Jason e seu fantoche de meia boca-suja, Tyrone, na comédia sombria “Hand to God”, e até mesmo escrevendo e estrelando uma peça solo, “Peddling”, que apresentou em Londres e na Broadway. (Laura Collins-Hughes, do New York Times, a considerou uma das melhores peças, chamando sua atuação de “delicadamente calibrada”.)
“Foi bom que as pessoas não me vissem mais como Dudley”, disse Melling, que emagreceu durante o período na escola de teatro entre o quinto e o sétimo filme. “Eu pude começar uma nova carreira.”
Grandes mudanças foram um tema recorrente na maioria de seus projetos pós-Harry Potter. Então, quando leu o roteiro de “Pillion”, ele se sentiu atraído pelo personagem Colin, um tímido manobrista que canta em coral e cujo mundo é virado de cabeça para baixo por Ray, um motoqueiro arrogante interpretado por Alexander Skarsgard. Eles iniciam um relacionamento sexual rigidamente definido, com Colin aprendendo a ser submisso ao domínio controlador de Ray.
Alexander Skarsgård e Harry Melling em 'Pillion' (2025)
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“O que eu adoro no roteiro é que ele parece tão familiar em muitos aspectos, mas, ao mesmo tempo, explora uma subcultura única”, disse ele sobre o filme, que se concentra em um relacionamento BDSM — bondage, dominação, sadismo e masoquismo.
Desde sua estreia no Festival de Cannes em maio, onde ganhou o prêmio de roteiro, “Pillion” — cujo título vem do termo britânico para o banco do passageiro de uma motocicleta ou, neste caso, para um submisso em uma dinâmica BDSM — tem recebido uma acolhida inesperadamente calorosa. Foi eleito o melhor filme no British Independent Film Awards de 2025, onde Melling também recebeu uma indicação para melhor atuação principal, e recebeu três indicações ao BAFTA no mês passado. (Peter Bradshaw, do Guardian, escreveu que Melling “se torna mais impressionante a cada aparição na tela”.)
Lighton, que faz sua estreia na direção de longas-metragens com este filme, já havia visto Melling no drama de época repleto de violência “O diabo de cada dia” (2020), no qual interpreta um pregador fanático ao lado de Tom Holland e Robert Pattinson. Lighton disse que ficou impressionado com a forma como se sentiu atraído por Melling em todas as cenas, mesmo interpretando um personagem secundário.
E na vida real, quando Melling não está se banhando em aranhas vivas ou tentando ressuscitar os mortos?
"Harry tem um otimismo contagiante — como Colin — que faz você torcer por ele", disse Lighton em uma recente videochamada de Londres. "Você realmente vibra com seus sucessos porque ele emana uma doçura especial."
Essa mesma impressão ficou clara quando Skarsgard conheceu Melling pela primeira vez, dois dias antes de filmarem uma cena crucial para seus personagens: os dois numa partida luta-livre, de collants, que termina com Ray levantando no ar com os pés.
"Adorei ele desde o primeiro golpe de imobilização que ele aplicou", disse Skarsgard, de 49 anos, em uma recente videochamada.
Em breve, Melling contracenará com Jodie Comer em outro projeto que se qualifica como uma guinada fora do convencional: o musical de terror indie “Stuffed”, sobre um taxidermista taciturno (Comer) cujo desejo secreto é empalhar um espécime humano. O detalhe? O humano, um homem solitário com tanto medo de ser esquecido que se oferece como voluntário, topa a tarefa.
E depois?
Skarsgard, por exemplo, está ansioso para vê-lo em mais musicais.
“Ele tem a voz de um anjo”, disse. “E eu pedi a ele que me ligasse todas as noites para cantar uma canção de ninar para que eu pudesse dormir.”
