Como São Jorge se tornou padroeiro popular da cultura suburbana carioca?
Ao longo do dia de hoje, mais de 1,5 milhão de fiéis deverão passar pela Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino, na Zona Norte do Rio. A estimativa do tamanho da multidão aguardada para celebrar o dia do Santo Guerreiro é da própria paróquia, baseada em números do ano passado calculados pela PM. A programação inclui dez missas e, este ano, uma novidade: 300 drones formarão no céu a clássica imagem de São Jorge em luta contra o dragão.
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A festa deve se espalhar por outros templos e capelas dedicados ao santo, como o da Praça da República, no Centro, além de esquinas, botequins, quadras de escolas de samba e terreiros de religiões de matriz africana, colorindo a cidade de vermelho. Mas o que tornou tão popular por aqui, em especial no subúrbio, o personagem nascido há mais de 1.700 anos, na Capadócia, na região da Turquia?
— São Jorge é muito ligado à cultura de botequim, que é suburbana e tem origem lusitana. Na virada do século XIX para o XX, esse tipo de estabelecimento no Rio era comandado por portugueses, assim como as padarias. Então, era muito comum que a imagem do santo de devoção deles estivesse presente. A própria igreja de Quintino, a partir de certo momento, colabora com essa popularidade, que também tem a ver com a comunidade portuguesa forte no bairro — explica o historiador Luiz Antonio Simas.
Autor do recém-lançado livro “São Jorge: o santo do povo e o povo do santo”, da editora Planeta, Simas mostra na obra como a devoção chegou ao Brasil e se instalou no Rio. O historiador conta que a fé no guerreiro, trazida pelos colonizadores portugueses e “temperada no azeite de dendê da cultura das ruas”, fixou-se na cidade a partir da chegada da família real no início do século XIX. Em seguida, avançou rumo ao subúrbio, junto com a população empurrada para a região pelas reformas urbanísticas do começo do século XX.
Herança portuguesa
Filho e neto de portugueses, Fábio Loio da Costa, de 49 anos, respeita a tradição. Em companhia da mãe, Maria de Fátima, de 70, e da irmã Cláudia, de 51, ele comanda o Butiquim do Tuninho (apelido do pai Antônio, já falecido), em Bento Ribeiro. O comerciante representa a terceira geração da família à frente do estabelecimento montado pelo avô Joaquim da Costa, em 1964. Três imagens de São Jorge protegem o espaço, que atravessou inúmeras dificuldades em mais de seis décadas de existência.
— A gente vem resistindo graças à proteção de São Jorge — acredita Fábio Loio, que, em agradecimento, todo dia 23 de abril serve uma concorrida feijoada.
Simas aponta que a relação de São Jorge com as feijoadas tem a ver com sincretismo: o santo católico é associado a Ogum nas religiões de matriz africana, orixá que costuma ser reverenciado com o preparo da receita. Não por acaso, o prato é popular no mundo do samba, também habitado pelo Santo Guerreiro, padroeiro do Império Serrano, em Madureira, da Beija-Flor, em Nilópolis, e protetor de várias outras agremiações. A Estácio de Sá, hoje na Série Ouro, cantou na Avenida em 2016 o enredo “Salve Jorge! O guerreiro na fé” — o que, no entanto, não livrou a escola do rebaixamento um ano depois de ter voltado ao Grupo Especial.
—A relação da escola com o santo é de paixão, devoção e respeito. É nosso Santo protetor — diz Edson Marinho, presidente da Estácio, cuja quadra é guardada por uma imagem em resina e isopor, com cerca de 6m de altura, que foi uma das alegorias do desfile de 2016.
Integrado à cidade, São Jorge também é reverenciado no jogo do bicho: é visto como o protetor dos apontadores. Em 23 de abril, o dia dedicado ao santo, a fezinha nas apostas costuma ser direcionada ao cavalo, sua inseparável montaria. Na data, as apostas no animal crescem tanto que, para não quebrar a banca, são pagas pela metade em caso de premiação.
Em Quintino, onde São Jorge ganhou um altar para chamar de seu em 1945, Simas brinca dizendo que a popularidade do santo rivaliza com a de Zico, ex-craque do Flamengo e da seleção nascido no bairro. Seu livro mostra que, segundo a tradição oral, tudo por ali teria começado com um grupo de senhoras portuguesas que costumava se reunir na varanda de uma casa na Rua Clarimundo de Melo para rezar o terço. As beatas ganharam uma imagem do santo trazida de Portugal que hoje fica na igreja matriz.
Tamanha popularidade também é explicada pela cena que imortalizou o santo: o combate ao dragão, no imaginário popular, representa todo tipo de dificuldade. O padre Celso Copetti, que assumiu no ano passado a paróquia de Quintino, acredita nessa conexão direta com o Santo Guerreiro.
—A fé cresce a cada dia porque São Jorge luta contra todo tipo de maldade e sai vencedor. O dragão é visto como as dificuldades cotidianas enfrentadas pelas pessoas, que devem ser vencidas também — afirma o religioso.
‘O santo que te defende’
Simas observa que o prestígio de São Jorge, de perfil urbano — ao contrário de São João, Santo Antônio e São Pedro, cuja fé possui origem rural — , foi alimentado por outro perrengue do carioca: o medo da violência, sobretudo a partir dos anos 1990.
—Ao pesquisar a devoção a São Jorge no Rio de Janeiro, constatei uma coisa que você vê quantitativamente nas matérias de jornal. Quanto maior o pico de violência ou a sensação de insegurança, maior é a devoção. Nessas ocasiões, ele costuma ser muito evocado, por ser o santo que te defende — diz, citando ainda a tradição das casas suburbanas de manter vasos onde são plantadas espadas-de-são-jorge, como símbolo de proteção.
O dia 23 de abril é feriado na capital desde 2001 e, no estado, desde 2008. Em 2019, por força de lei, São Jorge passou a dividir o papel de protetor do estado com São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio.
