Como reduzir o tempo de tela de crianças e adolescentes e evitar o vício em celulares e outros dispositivos
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Dúvida da semana 🤷♀️🤷
"Como lidar com vício em telas em diferentes idades? Há diferenças entre a tela do smartphone e a da TV? E como educar os pais para as redes?"
A newsletter de hoje está um pouco diferente. E especial. O pediatra Daniel Becker e o escritor e educador Ilan Brenman acabam de lançar “A infância sequestrada pelas telas: O desafio de educar na era digital” (Papirus 7 Mares). No livro, eles aprofundam uma conversa urgente sobre os impactos da hiperexposição às telas no desenvolvimento infantil.
Por aqui, esse tema nunca saiu do radar. Desde que a “Meus filhos, minhas regras?” foi lançada, no ano passado, recebemos muitas perguntas de famílias aflitas. Tendo esses dois especialistas de peso, reunimos várias dessas dúvidas e levamos aos dois. Eles toparam responder de imediato. Por isso, nesta semana, são seis perguntas respondidas e não apenas uma. Não falei que era especial?
Becker e Brenman discutem estratégias quando o uso já saiu do controle e refletem sobre um ponto que costuma incomodar adultos. Responda com sinceridade: seu discurso e sua prática são coerentes? Você pede sempre ao seu filho para que ele largue o celular, mas você não desgruda do seu aparelho?
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Perguntas das famílias e respostas dos especialistas 👩🏫👨🏫
❓ Minha filha de 6 anos, quando começa a jogar, não quer mais parar, não quer tomar banho, não quer dormir e nem ir para a escola. Sei que erramos em termos deixado chegar a esse ponto, mas como posso reverter essa situação?
💬 Daniel Becker:
Esse caso é sério e precisa ser trabalhado com urgência, com limites claros. Mas isso pode ser feito de forma gentil e gradual, para a sua filha ir “desmamando” do vício. O jogo oferece estímulo e recompensa rápidos, por isso prende mais do que outras atividades. A primeira medida é reduzir o tempo aos poucos e avisá-la de que será assim, porque é para o bem dela, sem abrir espaço para transgressão. É importante ter firmeza para que ela entenda as regras. A meta é chegar a uma hora por dia, o que é razoável para essa idade, podendo ter mais uma hora de tela com conteúdos longos, como filmes. Também é essencial substituir o tempo que era usado para o jogo por atividades criativas. Uma criança de 6 anos sabe brincar, mas é preciso deixar que enfrente o tédio e oferecer alternativas: amigos, brincadeiras, natureza, passeios e pequenas tarefas em casa (ajudar a varrer, a colocar a mesa, a regar as plantas). No início pode haver resistência, mas, com o tempo e com o incentivo dos pais, dando retorno positivo sobre essas ações, ela passa a gostar, a se sentir parte da família. Autoridade não é gritar ou punir, mas sim dialogar e colocar limites com firmeza.
💬 Ilan Brenman:
Dá para reverter a situação. Muitas famílias passam por isso, e a criança, aos 6 anos, tem uma grande flexibilidade para se adaptar a novas rotinas. A frustração, o choro e a birra fazem parte do processo, mas passam. É importante que os pais sustentem o limite sem medo da reação da criança. Se houver birra, é preciso explicar que aquilo está sendo feito para o bem dela, com clareza e firmeza. Também é fundamental tirá-la desse lugar central das telas e apresentar outras possibilidades: jogos presenciais, leitura de livros, experiências com narrativas e linguagem, que aproximam pais e filhos. É assumir o papel de adulto, sustentar esse momento e entender que essa fase passa. E que depois a criança reconhece esse cuidado.
❓ Meu filho tem 9 anos e luto para ele ter acesso a somente duas horas de tela por dia, mas percebo que isso é uma ação solitária minha, pois nenhum amigo dele tem essa restrição. Tenho medo de isolá-lo numa bolha ou deixá-lo fora de um contexto atual.
💬 Daniel Becker:
Duas horas de tela já são suficientes. Ele não precisa de mais para se sentir próximo dos amigos, saber das brincadeiras, dos memes e dos jogos. O que passa disso é excesso e, muitas vezes, reflete o prejuízo que outras crianças estão tendo, não ele. Essas duas horas não devem ser de redes sociais, que não são adequadas para uma criança de 9 anos. O ideal é que sejam usadas com jogos, vídeos longos e conteúdos mais seguros. Nada de vídeos curtos . O uso de aplicativos como WhatsApp deve ser supervisionado, assim como pesquisas no Google. É importante acompanhar o que ele acessa, com quem conversa e evitar plataformas como Discord ou Telegram, que podem ser perigosas. O uso de ferramentas de controle parental pode ajudar. Mais do que duas horas não é necessário para que ele se sinta integrado aos amigos.
💬 Ilan Brenman:
Você está fazendo algo muito positivo ao limitar o uso de telas. Quem vive em uma “bolha” são as crianças que passam o dia inteiro nessa atividade, muitas vezes sem pensar por si, apenas absorvendo o que vem do celular ou do tablet. O excesso compromete a autonomia e o pensamento crítico. Ao contrário de isolar seu filho, você está ampliando as possibilidades dele, dando espaço para que desenvolva autonomia e uma relação mais ativa com o mundo. Se ele trouxer a questão dos amigos, é importante sustentar a decisão, conversar e mostrar que isso é para o bem dele, além de evidenciar tudo o que ele pode fazer fora das telas. Também é fundamental oferecer alternativas concretas e coerência no exemplo. Se há limite para a criança, o adulto também precisa rever o próprio uso de telas. O autocontrole precisa ser compartilhado.
❓ Minha filha de 10 anos tem apresentado um amor platônico por personagens que ela conhece pela TV ou por vídeos no celular. Isso tem me preocupado, até porque ela até se espelha nesses personagens, que às vezes são estranhos.
💬 Daniel Becker:
Os personagens que ela vê compulsivamente acabam se tornando centrais em sua vida. É preciso ampliar o repertório de interesses, apresentando outras possibilidades: livros com personagens envolventes como Harry Potter e Percy Jackson, além de referências da literatura brasileira, como Detetives do Prédio Azul e a personagem Pilar. Também é importante incluir atividades fora das telas , como esportes, passeios, praia, praça e tempo com amigos. Apaixonar-se por personagens são pequenas paixões da infância que passam. O problema está no excesso de tempo de tela, o que impede que ela desenvolva outros interesses e habilidades importantes. É fundamental reduzir esse tempo e abrir espaço para experiências do mundo real.
💬 Ilan Brenman:
Crianças se identificam com personagens, e isso é muito comum. Muitas vezes, eles ajudam a elaborar questões internas que a criança ainda não consegue nomear. Como mostra Bruno Bettelheim no livro “A psicanálise dos contos de fadas”, essas identificações fazem parte do desenvolvimento e também acontecem com adultos. O mais importante é acompanhar de perto e entender como isso impacta a vida da criança. Se esse interesse começa a atrapalhar a rotina (escola, brincadeiras, convivência), é um sinal de atenção . Mas, se a vida segue normalmente e ela apenas fala bastante sobre esse personagem, está dentro do esperado. A ideia de “estranho” também precisa ser relativizada. Todos temos nossas peculiaridades, e as crianças também. Muitas vezes, os personagens ajudam justamente a nomear e expressar essas características. Esse é um dos papéis da ficção. Uma possibilidade é estimular a migração desse interesse das telas para a literatura. Os livros trazem personagens ricos e podem gerar conversas mais profundas, além de fortalecer o vínculo entre pais e filhos.
❓ Meu filho de 15 anos tem ficado tempo demais em celular e computador, perdendo curiosidade, criatividade e interesse por outras atividades. Não sei se o melhor é tirar tudo de uma vez ou gradualmente.
💬 Daniel Becker:
Aos 15 anos, é preciso ir com mais cuidado. Já é um adolescente, então a mudança precisa ser construída com negociação e respeito. É importante sinalizar que o tempo de tela está excessivo e prejudicando sua vida, e propor um acordo de redução gradual. Também é fundamental acompanhar mais de perto o que ele está consumindo. Muitas vezes, há uso intenso de redes sociais, com horas seguidas no TikTok, o que pode deteriorar a atenção e impactar diretamente o aprendizado, além de gerar dependência. Ele pode estar exposto a conteúdos inadequados, como pornografia e discursos problemáticos . Vale sentar junto, ver o que ele acessa e conversar sobre esses conteúdos, ajudando a desenvolver pensamento crítico: discutir comparações irreais, influenciadores que geram frustração e a diferença entre a vida real e o que aparece nas redes. Ao mesmo tempo, é importante apresentar alternativas fora das telas. O esporte, nessa idade, é fundamental, tanto para a saúde física, quanto mental.
💬 Ilan Brenman:
Há indícios importantes de que o excesso de telas, especialmente de redes sociais, está associado a uma queda na criatividade entre jovens de 15 anos. Avaliações como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), aplicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mostram uma redução significativa nesse aspecto nos últimos anos, em comparação com ciclos anteriores. O problema não é apenas o tempo de uso, mas o tipo de consumo dentro das telas. O adolescente está em um momento de afirmação de identidade, em que a rebeldia e o confronto com os adultos fazem parte do processo. Por isso, intervenções mais impositivas tendem a não funcionar. Tirar o celular, por exemplo, dificilmente resolve, porque ele vai encontrar outros meios de acesso. O caminho mais efetivo é investir em proximidade. Conversar, abrir espaço para troca, entender o que ele está consumindo e como isso impacta sua vida. Criar momentos juntos: sair para almoçar, ir ao cinema, estar presente. Nessa fase, a comunicação é o principal instrumento para promover mudanças.
❓ Há diferença entre ficar na tela do celular e do tablet ou assistir à TV? Os tempos recomendados são diferentes dependendo do dispositivo?
💬 Daniel Becker:
Há diferença, sim. A TV é um aparelho mais comunitário, que permite assistir junto em família, conversar sobre o conteúdo, discutir a história e as mensagens. Com filmes e desenhos mais longos, o prejuízo provavelmente será menor. O tablet, por outro lado, facilita a dispersão. A criança tem controle total e pode trocar rapidamente de conteúdo, sair de um filme para jogos ou outros estímulos, o que prejudica a atenção. Por isso, não é indicado para conteúdos curtos ou joguinhos, especialmente para crianças pequenas, pois esse uso se torna mais problemático. O ideal é priorizar a TV para assistir a filmes e conteúdos mais longos, em um ambiente compartilhado. Plataformas como YouTube precisam de controle, evitando o acesso a vídeos curtos (YouTube Shorts) e garantindo um uso mais seguro.
💬 Ilan Brenman:
A televisão tende a ser menos nociva do que o celular ou o tablet, porque tem menos interferências e menos estímulos concorrentes. Como discutia Neil Postman no livro “O desaparecimento da infância”, nos anos 1980, a TV já trazia impactos, mas o cenário atual é mais complexo. No celular e no tablet, a criança pula rapidamente de um conteúdo para outro, recebe notificações, alterna entre vídeo, jogo e mensagens, o que aumenta a dispersão. Se o tablet ou o celular forem usados com um adulto ao lado, acompanhando, a experiência pode se aproximar da TV. O problema é quando a criança fica sozinha, sem filtro ou supervisão. Nesse caso, a exposição é muito mais desorganizada e difícil de controlar. Por isso, a televisão ainda é preferível, especialmente para assistir a filmes com mais continuidade e menos interrupções. De toda forma, melhor do que qualquer tela é o tempo fora delas. Há também referências de tempo de uso que ajudam a orientar: evitar telas até os 2 anos; de 2 a 5 anos, até uma hora por dia com supervisão; de 6 a 10 anos, entre uma e duas horas; e, de 11 a 18, até cerca de 2 a 3 horas por dia. Nem sempre é possível seguir assim, mas esses parâmetros ajudam a estabelecer limites e evitar excessos.
❓ E quem educa os adultos para as redes? Como podemos fazer isso? É possível?
💬 Daniel Becker:
Quando falamos do uso excessivo de telas, eu também estou tratando dos adultos. Não dá para abandonar um filho por causa do celular. Tem uma criança ali, no mundo real, “pedindo like”, puxando a camisa, querendo mostrar um desenho, e o adulto continua na tela. Isso é muito triste. E, de fato, os adultos estão viciados, inclusive os idosos. A gente enfrenta um cenário em que há empresas trabalhando para prender a nossa atenção. Por isso, é preciso ampliar a consciência sobre esse uso. Esse é um trabalho de alertar, mas também depende de cada um. Além disso, precisamos melhorar as condições da cidade para que as pessoas possam ocupar mais os espaços: praças, atividades culturais, esportivas, ambientes que incentivem o encontro, a convivência e o brincar. Isso ajuda a reduzir a dependência das telas e a reconectar as pessoas com a vida ao ar livre.
💬 Ilan Brenman:
A questão dos adultos passa muito pelo exemplo. Lembro de uma situação: eu estava em uma festa infantil, minhas filhas ainda pequenas, e um pai veio falar comigo, elogiando meus livros e pedindo que eu escrevesse histórias sobre tolerância e paz. São temas fundamentais, mas eu conhecia bem aquela família. E aquele casal brigava o tempo inteiro, inclusive na frente dos filhos. Aquilo me marcou muito. Porque não há livro que ensine tolerância e paz se isso não estiver sendo vivido dentro de casa . A mesma lógica vale para as telas. Não adianta querer educar a criança se o adulto não muda o próprio comportamento. A virtude não é algo que se fala, é algo que se pratica. Se você quer que seu filho seja respeitoso, seja respeitoso. Se quer que ele tenha autocontrole, tenha autocontrole. A mudança precisa começar no adulto. É possível, sim, mas exige consciência e decisão. Ninguém faz isso por você. E tem um ponto importante: quando a gente reduz o tempo nas redes, a vida melhora. Alguém pode até provocar essa reflexão, mas quem precisa dar o primeiro passo somos nós.
4 REFLEXÕES DO LIVRO 'A INFÂNCIA SEQUESTRADA PELAS TELAS' (PAPIRUS 7 MARES) 📚
"No mundo do celular e das telas, por mais que a luz pareça intensa - porque sai da tela diretamente para os olhos da criança -, ela nos cega", por Ilan Brenman.
"Para um adolescente, cada chamada de notificação de grupo de WhatsApp significa: 'venha aqui, você pertence', 'você está conosco', 'você participa'... O jovem tem uma necessidade vital de pertencimento, e ser 'convidado a participar' centenas ou milhares de vezes por dia é maravilhoso", por Daniel Becker.
"As crianças precisam da privacidade para a construção da sua singularidade, do seu eu; elas precisam brincar sozinhas às vezes", por Ilan Brenman.
"Como o ódio engaja mais que a gentileza e o afeto, as piores ideologias se propagam entre crianças e adolescentes", por Daniel Becker.
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