Como o relato de Rafa Brites ajuda a dar visibilidade ao lipedema e mudar a percepção sobre a doença

 

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Quando Rafa Brites compartilhou seu diagnóstico de lipedema nas redes sociais, ela trouxe à tona uma condição que, apesar de ser comum, ainda é amplamente ignorada. Ao expor as marcas roxas que surgem em seu corpo e descrever a dor e o peso constantes nas pernas, a apresentadora fez um desabafo que ecoa na realidade de muitas mulheres que, por anos, convivem com sintomas sem entender o que está acontecendo. Muitas são diagnosticadas erroneamente com questões relacionadas à dieta ou ao sedentarismo, sem nunca receber um diagnóstico adequado.

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"Cheguei lá e ele [o médico] falou assim: 'Olha, Rafa, várias pessoas chegam aqui no meu consultório acima de um peso que seria ideal para a saúde delas e acham que têm o lipedema. Só que você, mesmo magrinha, tem o diagnóstico de lipedema'. Acordo toda marcada, vivo com roxas que não sei de onde são e sinto muita dor. Parece que a minha perna pesa 100 quilos", desabafou a artista.

Rafa fez questão de explicar que o lipedema afeta especificamente as pernas e não o corpo inteiro, ao contrário do que muitos podem imaginar ao associar o distúrbio a um simples problema de retenção de líquidos. "Não é uma questão de retenção de líquido no corpo inteiro. É ali na perna, onde dói, onde tem os carocinhos", detalhou.

Ela também reconheceu que a mudança na rotina seria essencial para melhorar sua condição, mas ainda não havia encontrado a coragem necessária para se dedicar a esse processo. "Esse é o tal do diagnóstico do lipedema, que eu teria que fazer várias coisas que eu não estou fazendo. Mas uma hora vou tomar coragem e tentar melhorar isso", confessou.

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Reprodução Instagram

Lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Diferente da obesidade, mãos e pés costumam ser preservados, enquanto dor intensa, hematomas frequentes e a sensação constante de peso fazem parte do quadro. Estima-se que cerca de 12% das mulheres brasileiras convivam com a condição, muitas delas sem diagnóstico.

A cirurgiã vascular Nayara C. Batagini afirma que o relato de Rafa é importante para quebrar um grande tabu.

"Trata-se de uma doença inflamatória crônica, caracterizada pelo acúmulo simétrico de gordura que não responde às estratégias tradicionais de emagrecimento. A dor, a sensação constante de peso e a facilidade para formar hematomas fazem parte do quadro. Não é uma questão estética, é uma condição médica que impacta diretamente a qualidade de vida", explica a especialista.

Um ponto central do desabafo de Rafa é a dificuldade em diagnosticar a doença, mesmo quando a pessoa não apresenta grandes variações de peso. Esse detalhe, frequentemente ignorado, gera confusão, tanto entre pacientes quanto entre médicos.

"Durante muito tempo, o diagnóstico foi essencialmente clínico, baseado na história da paciente e no exame físico, o que contribuía para erros e atrasos. Muitas mulheres passaram anos sendo tratadas como obesas ou com retenção de líquido", observa Dra. Nayara.

Felizmente, houve avanços recentes no reconhecimento da doença e na definição de métodos mais precisos para seu diagnóstico. Estudos brasileiros têm auxiliado na criação de critérios mais objetivos para exames de imagem, como ultrassonografia e ressonância magnética, o que permite detectar alterações específicas na pele e no tecido subcutâneo.

"Hoje conseguimos diferenciar melhor o lipedema de outras condições, como linfedema ou obesidade comum. Isso traz mais segurança para o diagnóstico e orienta de forma mais adequada o tratamento", explica a médica.

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Outro fator importante no desenvolvimento do lipedema é a relação com mudanças hormonais, que podem intensificar os sintomas. Puberdade, gravidez e menopausa são momentos frequentemente associados à progressão da doença. Além dos impactos físicos, o sofrimento emocional também é relevante. Dra. Nayara aponta que muitas mulheres, após anos de tentativas frustradas de tratamento, chegam ao consultório desmotivadas e com a autoestima profundamente abalada.

"Muitas pacientes chegam ao consultório exaustas, com a autoestima abalada, depois de anos tentando tratamentos que não funcionam porque não tratavam a causa real do problema", destaca.

Embora o lipedema ainda não tenha cura, o tratamento pode ser eficaz para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. A abordagem terapêutica é multidisciplinar e personalizada, e inclui atividades físicas de baixo impacto, uso de meias de compressão, drenagem linfática, fisioterapia especializada e uma alimentação anti-inflamatória. Em casos selecionados, a lipoaspiração específica para lipedema pode ser indicada, sempre com avaliação criteriosa.

O reconhecimento oficial do lipedema na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) representa um avanço significativo para o diagnóstico e tratamento da condição. Para Dra. Nayara, relatos públicos como o de Rafa são cruciais para aumentar a conscientização sobre a doença.

"Quando a mulher entende que não se trata de falta de esforço ou descuido, mas de uma doença real, ela consegue buscar ajuda adequada, se libertar da culpa e retomar o controle da própria saúde", conclui a especialista.