Como o corpo perde peso? Especialista em obesidade explica que não existe uma fórmula única

Como o corpo perde peso? Especialista em obesidade explica que não existe uma fórmula única

 

Fonte: Bandeira



Durante décadas as pessoas ouvem que seus problemas de peso podem ser resolvidos com matemática: calorias ingeridas, calorias gastas. Se o peso fosse uma equação matemática simples, provavelmente mais pessoas estariam com o peso que desejam. Mas a questão é muito mais complicada.

Existem várias teorias sobre por que é difícil perder peso. Algumas se concentram na genética e no metabolismo, enquanto outras afirmam que fatores ambientais e sociais são mais importantes. Mas qual dessas teorias está correta, se é que alguma está? As pessoas estão destinadas a ter o peso que sua genética, metabolismo ou ambiente determinam?

Sou diabetologista e médica especializada em medicina da obesidade. Compreender o que se sabe e o que é incerto sobre essas teorias pode ajudá-lo a superar sua própria biologia para mudar seu peso.

Peso de equilíbrio

O conceito de peso de equilíbrio (set point weight, no original em inglês) existe desde a década de 1950. Ele sugere que o corpo tem um sistema regulador que defende um nível predeterminado de tecido adiposo — comumente chamado de gordura —, o qual é mantido por meio da alteração dos sinais de fome e do gasto energético. Esse nível predeterminado de gordura é estabelecido pela genética, fisiologia e fatores ambientais.

Essa ideia é apoiada por observações de que, após a perda de peso, o apetite aumenta e o gasto energético diminui até que o peso seja restaurado. Em teoria, esse processo impede que o corpo passe fome, mesmo com uma perda de peso significativa. Um estudo descobriu que os hormônios que causam fome permanecem elevados e os hormônios que promovem a saciedade são suprimidos por pelo menos 62 semanas após a perda de peso, e mesmo depois da recuperação do peso original.

Um conceito relacionado chamado adaptação metabólica parece influenciar o equilíbrio energético, embora as evidências desse efeito em pessoas sejam menos claras. Esse processo se refere a uma redução no gasto energético além do previsto pelas mudanças na composição corporal. Em outras palavras, à medida que você perde peso, queima menos calorias do que o esperado para alguém com o mesmo peso que não tenha passado por uma perda de peso recente.

A adaptação metabólica se manifesta como um aumento do apetite e uma diminuição da taxa metabólica de repouso, que é a energia que você queima para sustentar processos básicos como batimentos cardíacos, regulação da temperatura, respiração e digestão, mesmo que você fique deitado na cama o dia todo. Na adaptação metabólica, a taxa metabólica de repouso diminui após uma perda de peso de aproximadamente 5%. A energia queimada com exercícios diminui após uma perda de peso de cerca de 10%.

Isso significa que, à medida que uma pessoa perde peso, a quantidade de energia usada pelos processos básicos para a manter viva diminui. Além disso, é preciso aumentar a prática de exercícios à medida que se perde peso para continuar a emagrecer. Portanto, quanto mais peso uma pessoa perde, mais difícil fica perder ainda mais.

Essa diminuição no gasto energético pode persistir por anos após a perda de peso, como foi observado em um estudo com participantes do programa de TV “The Biggest Loser”. Mas alguns estudos descobriram que a adaptação metabólica não é tão significativa quanto se pensava.

Existem várias estratégias para superar o peso de equilíbrio e a adaptação metabólica esperada com a perda de peso. A cirurgia bariátrica – um procedimento para perda de peso – parece alterar o peso de equilíbrio, reduzindo a fome sem diminuir o gasto energético, e os pacientes raramente ficam abaixo do peso. Os medicamentos de GLP-1 e similares podem não afetar a adaptação metabólica ao mesmo tempo em que reduzem o peso. Estratégias nutricionais incluem o aumento da ingestão de proteínas, a redução da carga glicêmica e o aumento do consumo de alimentos ricos em fibras, embora as evidências sobre a eficácia dessas estratégias variem.

O ponto de equilíbrio sugere que seu corpo tem um peso definido no qual gosta de se manter e ajustará seu metabolismo e apetite para levá-lo até esse peso e mantê-lo nele.

Modelo do ponto de acomodação

Uma teoria alternativa ao peso de equilíbrio é chamada de ponto de acomodação (settling point, no original em inglês). Esse modelo propõe que a regulação do peso ocorre por meio de feedback passivo, sem controle biológico. Em vez de o corpo controlar ativamente o peso por meio de alterações hormonais, essa teoria sugere que o peso corporal é resultado de seus hábitos e do ambiente.

O ponto de acomodação é definido como o ponto em que o peso corporal se estabiliza porque a ingestão de energia é igual ao gasto energético. Isso é determinado pelos custos físicos e metabólicos de manter a massa corporal. Pessoas com maior massa corporal gastam mais energia devido ao aumento da energia necessária para mover e manter um corpo maior. Portanto, pessoas com um corpo maior teriam necessidades de ingestão alimentar maiores.

O ponto de acomodação pode parecer o antigo modelo de “calorias que entram, calorias que saem”, mas também leva em conta influências ambientais e sociais. Pense nisso como uma janela aberta. O quarto pode aquecer com a luz do Sol durante o dia e depois esfriar durante a noite. Com o tempo, o quarto tenderá a oscilar em torno da mesma temperatura. A temperatura não é fixa, mas se estabilizará naturalmente com base no clima, no isolamento e na circulação de ar. Pode ser mais frio no inverno e mais quente no verão.

Agora vamos aplicar esse conceito a uma pessoa. Se você tem um trabalho em que fica em pé o dia todo e come comida caseira na maior parte do tempo, seu peso pode ficar estável. Se você mudar para um trabalho de escritório e começar a comer alimentos mais calóricos e porções maiores, seu peso pode aumentar até se estabilizar novamente. Em ambos os cenários, seu peso eventualmente se estabiliza em diferentes pontos de acomodação com base em suas circunstâncias atuais.

No entanto, a teoria dos pontos de acomodação não consegue explicar os aspectos biológicos e genéticos do peso.

Modelo de ponto de intervenção duplo

O modelo de ponto de intervenção duplo integra tanto o peso de equilíbrio quanto o ponto de acomodação. Essa teoria propõe um limite superior e um limite inferior que definem os limites do peso corporal “aceitável” de cada pessoa, chamado de zona de indiferença. O limite inferior é o ponto em que a inanição é evitada, mantendo-se todas as necessidades biológicas e metabólicas.

Dentro da zona de indiferença, prevalecem os conceitos de ponto de acomodação: o corpo se adaptará à energia e ao ambiente. Mas quando o peso corporal cai abaixo do limiar inferior, isso aciona mecanismos fisiológicos para se defender contra uma perda de peso adicional e evitar a inanição. Os sistemas hormonais do corpo aumentam o apetite e reduzem o gasto energético.

Quando o peso corporal ultrapassa o limite superior, mecanismos biológicos deveriam, teoricamente, ser acionados para impedir um maior ganho de peso. Pesquisadores documentaram esse processo em inúmeros estudos com animais, levantando a hipótese de que isso se deve, muito provavelmente, ao aumento do risco de predação decorrente do ganho de peso. Animais com mais gordura são alvos melhores ou não conseguem escapar dos predadores. Mas esse processo nem sempre é observado em pessoas e as que o sustentam são mais fracas.

O modelo de ponto de intervenção duplo também sugere que a zona de indiferença varia amplamente entre os indivíduos. Isso explicaria por que algumas pessoas mantêm um peso relativamente estável e outras apresentam maior variação ao longo do tempo. Alguns podem reconhecer isso como a velha luta de “perder os mesmos 5 quilos repetidamente”.

Além disso, a hipótese do gene derivante propõe que o limiar superior para o corpo intervir tenha se deslocado gradualmente para cima à medida que as pessoas se mudaram para ambientes mais seguros e estáveis. A pressão evolutiva para manter um físico magro para a sobrevivência, como evitar predadores como um leão faminto, desapareceu em grande parte.

Qual teoria tem mais peso?

Então, qual teoria da regulação do peso corporal está correta? A resposta é que nenhuma delas se encaixa exatamente nas experiências do mundo real. Mas parece haver uma diferença entre como o seu metabolismo responde à perda de peso ativa em comparação com a manutenção do peso; portanto, a abordagem para cada objetivo pode ser diferente.

Diminuir a ingestão de alimentos parece ser o mais benéfico para alcançar a perda de peso. Por outro lado, o exercício parece ser fundamental para a manutenção do peso.

No geral, a grande lição é que o equilíbrio de peso é complexo. Não se trata de um simples problema matemático a ser resolvido. O tratamento médico adequado para o sobrepeso e a obesidade abrange nutrição, exercícios, sono, estresse e outros fatores que influenciam o peso. Mudanças nesses fatores podem ser combinadas com medicamentos ou cirurgia para alcançar uma redução sustentável de peso.

A perda de peso muitas vezes não é linear, e é normal que haja platôs. Cada caso é individual, e não existe uma solução única — ou teoria — que sirva para todos.

*Kim Pfotenhauer é Vice-reitora de Educação para Estágio Clínico e Professora Assistente de Medicina Osteopática, Universidade Estadual de Michigan

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.