Como hantavírus chegou a cruzeiro? Argentina investiga origem de surto da doença que já atingiu 32 pessoas no país em 2026

 

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As autoridades sanitárias da Argentina, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), fazem uma investigação rigorosa para rastrear a origem do surto de hantavírus ligado ao cruzeiro MV Hondius. A embarcação, que realiza expedições polares, estava retida em Cabo Verde e segue atualmente para as Ilhas Canárias, onde atracará nos próximos dias.

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Desde que o navio deixou o porto de Ushuaia, no extremo sul argentino, a situação sanitária a bordo deteriorou-se rapidamente. Até o momento, três mortes foram confirmadas e outras pessoas estão em estado grave.

A origem do vírus

O foco central da investigação é reconstruir o itinerário dos passageiros para determinar onde e como o contágio ocorreu. O MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, tem capacidade para 170 pessoas e havia chegado a Ushuaia em 16 de novembro de 2025, vindo de Montevidéu. Sua última partida ocorreu em 1º de abril, levando a bordo 149 pessoas de 23 nacionalidades, incluindo 14 espanhóis e um argentino.

Juan Facundo Petrina, diretor de Epidemiologia da Terra do Fogo, na Argentina, descartou a possibilidade de contágio local na província.

— Não temos esse roedor nem nenhum dos outros reservatórios que existem em outras partes do país. Tampouco temos casos humanos no histórico epidemiológico da nossa província — afirmou Petrina, segundo o jornal espanhol El País.

O foco agora é entender se os infectados percorreram áreas endêmicas da Argentina antes do embarque. Em 2026, o país já confirmou 32 casos da doença em províncias como Buenos Aires, Salta e Chubut.

Antes do embarque em abril, todos os passageiros responderam a questionários de saúde e, segundo a operadora do cruzeiro, nenhum apresentava sintomas que impedissem a viagem na ocasião.

Risco para saúde pública mundial é baixo, diz OMS

O risco para a saúde pública mundial decorrente do foco de hantavírus identificado a bordo do cruzeiro MV Hondius "continua baixo", afirmou nesta quarta-feira o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

"Neste momento, o risco global para a saúde pública continua baixo", escreveu Tedros na rede social X.

O chefe da OMS acrescentou que "a OMS continua colaborando com os operadores do navio para monitorar de perto o estado de saúde dos passageiros e da tripulação, e trabalha com os países para garantir acompanhamento médico adequado e evacuação, se necessário".

Outros três pacientes com suspeita de hantavírus que estavam a bordo do cruzeiro foram retirados da embarcação em Cabo Verde e serão transferidos para a Holanda para receber atendimento médico, também comunicou nesta quarta-feira o diretor-geral da OMS.

"Três pacientes com suspeita de infecção por hantavírus acabam de ser retirados do navio e estão a caminho para receber atendimento médico nos Países Baixos, em coordenação com a OMS, o operador do navio e as autoridades nacionais de Cabo Verde, do Reino Unido, da Espanha e dos Países Baixos", anunciou Tedros na rede social X.

Internação na Suíça

Um homem foi hospitalizado na Suíça com hantavírus após retornar de uma viagem à América do Sul a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius. Segundo as autoridades do país, ele foi imediatamente colocado em isolamento e, até o momento, não há risco à população.

De acordo com o relato oficial, o paciente voltou para casa no fim de abril. Após o retorno, começou a apresentar sintomas e procurou atendimento no Hospital Universitário de Zurique, onde permanece internado.

As autoridades suíças agora investigam se ele teve contato com outras pessoas enquanto estava doente, em uma tentativa de rastrear eventuais exposições ao vírus e entender o alcance potencial do caso.

A esposa do homem, que o acompanhava na viagem, não apresentou sintomas até o momento, mas também foi colocada em isolamento como medida preventiva.

Possível transmissão entre pessoas

Nesta manhã, o ministro da Saúde sul-africano, Aaron Motsoaledi, declarou que a cepa de hantavírus detectada em um dos passageiros do cruzeiro evacuado para a África do Sul é a dos Andes, variante conhecida por poder ser transmitida entre humanos.

— Os testes preliminares mostram que, de fato, trata-se da cepa dos Andes — declarou Motsoaledi: — E acontece que é a única cepa, entre as 38 conhecidas, que pode ser transmitida de uma pessoa para outra.

Dois passageiros do cruzeiro, onde foi identificado um foco de hantavírus, foram transferidos para Joanesburgo. Um deles morreu, enquanto o outro permanece hospitalizado.

O que se sabe?

Há 147 pessoas de 23 nacionalidades a bordo, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) na terça-feira. A operadora holandesa do navio, Oceanwide Expeditions, havia indicado na segunda-feira que havia 149 pessoas a bordo, incluindo um passageiro alemão que morreu.

Afirmou que havia 88 passageiros de 15 países, incluindo 19 do Reino Unido, 17 dos Estados Unidos, 13 da Espanha e oito da Holanda. Um dos passageiros é argentino. A tripulação é composta por 61 pessoas de 12 países, incluindo 38 das Filipinas, cinco da Ucrânia, cinco da Holanda e quatro do Reino Unido, acrescentou ele. Um membro da tripulação é da Guatemala.

Entre as vítimas fatais está um casal holandês que havia viajado pela América do Sul antes de embarcar em Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril. O marido adoeceu em 6 de abril e morreu em 11 de abril. Seu corpo foi retirado do navio de cruzeiro em 24 de abril na ilha britânica de Santa Helena.

Uma lancha ambulância, transportando tripulantes trajando roupas de proteção, aproxima-se do navio de cruzeiro MV Hondius, enquanto está atracado ao largo do porto de Praia, capital de Cabo Verde, após casos de hantavírus

AFP

Sua mulher, que não se sentia bem, desembarcou. Seu estado de saúde piorou durante um voo para Joanesburgo em 25 de abril — que tem conexão semanal com Santa Helena —, e ela faleceu no hospital em 26 de abril. A infecção por hantavírus foi confirmada em 4 de maio. O porta-voz do Ministério da Saúde da África do Sul, Foster Mohale, disse que o marido tinha 70 anos e a mulher, 69.

Uma passageira alemã apresentou febre em 28 de abril, posteriormente contraiu pneumonia e faleceu em 2 de maio. Seu corpo permanece no navio.

Outras quatro pessoas adoeceram

Um passageiro britânico adoeceu em 24 de abril com sintomas de febre e pneumonia, e seu estado de saúde piorou em 26 de abril. Ele foi evacuado por via aérea da Ilha de Ascensão para a África do Sul. Ele está na UTI, com infecção por hantavírus confirmada em 2 de maio. Mais exames estão sendo realizados. Mohale disse que o passageiro tinha 69 anos. A OMS informou que, segundo informações, o paciente está "melhorando".

"Esta pessoa está atualmente sendo tratada na unidade de terapia intensiva em Joanesburgo e encontra-se em estado crítico, porém estável", informou a Oceanwide Expeditions.

Dois tripulantes, um britânico e um holandês, apresentam sintomas respiratórios agudos: um leve e um grave, segundo a operadora. A OMS informou que ambos estão em condição estável e que amostras foram enviadas ao Instituto Pasteur em Dakar. A prioridade é a evacuação médica de ambos — provavelmente para a Holanda — antes da movimentação do navio.

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Reprodução: AFP e Instagram

Outra pessoa relatou febre leve, mas já está bem e assintomática, informou a OMS, acrescentando que não há outros indivíduos sintomáticos a bordo. O governo espanhol afirmou em comunicado na noite desta terça-feira que aceitou um pedido da Holanda "para receber o médico do MV Hondius, que se encontra em estado grave e será transportado para as Ilhas Canárias de avião".

Hantavírus

Os hantavírus circulam entre roedores e podem ser fatais quando transmitidos a humanos. A transmissão limitada de pessoa para pessoa foi documentada apenas entre contatos próximos para uma única espécie: o vírus dos Andes, que circula na América do Sul. A hipótese da OMS, enquanto aguarda os resultados dos testes laboratoriais, é que se trate dessa cepa.

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O período de incubação típico do vírus varia de uma a seis semanas, explicou a chefe de prevenção de epidemias da OMS, Maria Van Kerkhove, nesta terça-feira, sugerindo que o casal holandês contraiu o vírus antes do embarque. Não existem vacinas ou tratamentos específicos para o hantavírus.

No ano passado, a mulher do ator vencedor do Oscar, Gene Hackman, morreu de hantavírus. Hackman, de 95 anos, que sofria de Alzheimer, morreu aproximadamente uma semana depois, de causas naturais.

(Com AFP)