Como foi feita a reportagem sobre a mãe que reencontrou o filho 63 anos após ser forçada a entregá-lo para adoção - QTU Questões do Universo

Como foi feita a reportagem sobre a mãe que reencontrou o filho 63 anos após ser forçada a entregá-lo para adoção

Fonte: Bandeira da fonte

“Por que um jornal no Brasil quer ouvir a minha história?”.
A pergunta, feita pela britânica Jan Doyle durante uma chamada de vídeo, parecia ser inquietante para ela.
Jan, que hoje tem 80 anos, foi forçada a entregar o filho para adoção aos 16, tornando-se uma das cerca de 185 mil mulheres solteiras que foram separadas de seus bebês no Reino Unido durante quase três décadas após a Segunda Guerra Mundial.

Os casos voltaram a assumir as manchetes no início de julho, quando o então primeiro-ministro Keir Starmer pediu desculpas formalmente pelo papel do Estado britânico no que ele definiu como uma “mancha” na História.

Leia a reportagem original: ‘Meu bebê foi tirado dos meus braços’, diz mãe que reencontrou filho mais de 60 anos após Reino Unido forçá-la a adoção indesejada
— Lamentamos profunda e sinceramente — disse ele em discurso no Parlamento, acrescentando que muitas mulheres foram “coagidas, intimidadas ou induzidas ao erro para acreditar que não tinham outra escolha a não ser permitir que seus filhos fossem levados delas”.
— As crianças cresceram acreditando que não eram desejadas.
Às mães, era dito que seus bebês estariam em melhores condições sem elas.
Para cada uma das pessoas afetadas, apresentamos nossas mais profundas e sinceras desculpas.

A inglesa Jan Doyle e o filho mais velho, Jon, se reencontram após mais de 60 anos separados por política de adoção forçada no Reino Unido
Arquivo pessoal
'Não sei como os brasileiros vão reagir à minha história'
Jan, que disse ter passado décadas “carregando a vergonha” por ser forçada a entregar o filho para adoção, estava incerta sobre se deveria conversar comigo.
Ela não sabia como a audiência brasileira reagiria à sua história, e temia as consequências de falar abertamente sobre uma parte tão significativa de sua vida.
Foram muitas trocas de mensagens até que ela concordasse em fazer uma chamada de vídeo.
Quando viu meu rosto na tela do celular, ela disse, ao atender a ligação: “É sempre bom ver com quem estamos conversando”.

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Repórter e 'escutadora'
Mesmo assim, percebi que Jan ainda estava insegura.
Ali, de frente para a entrevistada, eu sabia que ela poderia desistir a qualquer momento.
Então me apresentei mais uma vez.
Disse que venho trabalhando com especial interesse na cobertura de gênero e direitos humanos, mas que, de modo geral, me interesso por histórias que acredito que merecem ser ouvidas e que muitas vezes não são.

Particularmente, costumo rejeitar o termo “dar voz”, tão frequentemente associado às funções de um jornalista.
Em vez disso, acredito que cada pessoa já tem a sua – e que o que ocorre, grande parte das vezes, é a supervalorização de umas em detrimento de outras.
Eu me proponho ser, nesse sentido, o que a jornalista Eliane Brum definiu como “escutadora”.

Procurei ser o mais honesta possível, explicando novamente os motivos pelos quais Jan deveria compartilhar suas histórias tão particulares comigo.
Ela então sorriu e disse “vamos conversar”.
Jan só precisava entender quem eu era, saber mais sobre o jornal, precisava dessa segurança.
E passou a responder às minhas perguntas com muita disposição.

O estigma de engravidar fora do casamento
Comecei perguntando quem ela era aos 16, o que gostava de fazer, como era sua vida… Percorremos cada etapa de sua história sem pressa, dando o espaço necessário para pausas emocionadas e olhos cheios d’água.

Jan falou sobre o estigma social de engravidar fora do casamento.
Disse ter se sentido uma “aberração” que precisou ser retirada da sociedade.
Relatou com detalhes como era a “casa para mães e bebês” para onde foi enviada e todas as atividades domésticas que fazia à exaustão, inclusive na véspera de seu parto.
Contou, ainda, a dor de ter sido separada de seu filho; os anos em que enfrentou a depressão; a surpresa quando recebeu uma notificação do governo dizendo que seu primogênito, David – posteriormente nomeado Jon – desejava entrar em contato e a alegria do tão esperado reencontro, 63 anos depois.

A busca por Jan
A história com Jan começou para mim na tarde do dia 2 de julho, quando recebi um e-mail cujo título dizia apenas “pauta”.
Nele, a minha editora, Leda Balbino, encaminhava a notícia do pedido de desculpas feito por Starmer e acrescentava: “Vamos tentar conversar com uma mãe ou um filho?”.

Nós sabíamos que seria difícil encontrar alguém disposto a conversar.
As poucas mulheres que vi falando abertamente sobre o assunto estavam, em maior parte, concedendo entrevistas à imprensa britânica.
“Onde podemos pressionar o governo a fazer alguma coisa”, me explicou Jan semanas mais tarde.

Em casos como esse, em que o trauma é um fator importante, as limitações de uma cobertura à distância costumam ser mais evidentes.
É mais difícil construir relações de confiança com fontes que não conhecem o veículo para o qual você trabalha e com quem você não pode se apresentar pessoalmente.

Decidi, então, entrar em contato com organizações que pudessem fazer uma ponte.
Foi quando conheci o “Movement for an Adoption Apology” (MAA), organização sem fins lucrativos que, desde 2010, luta pelos direitos de mães e bebês separados pelas práticas de adoção forçada.
Há mais de 15 anos, o grupo exigia um pedido formal de desculpas do governo pelas “inúmeras injustiças e violações dos direitos humanos, além do tratamento cruel e insensível dispensado por organizações religiosas, serviços sociais e profissionais de saúde”.

Enviei um e-mail e, nos primeiros dias, não tive outro retorno além de uma mensagem automática que dizia: “Estamos recebendo um grande número de solicitações, e nossa caixa de entrada é monitorada por uma pequena equipe de voluntários.
Agradecemos a paciência”.
Apesar da incerteza, esse era até então o único retorno que eu havia recebido.
Nesse caso, alguma resposta era melhor do que resposta nenhuma.
Então esperei.

Demorou alguns dias, mas a mensagem veio: ela agradecia o meu interesse e me enviava o contato de Jan.
O e-mail do MAA, no entanto, já dizia: “Vou deixar a critério dela compartilhar o quanto quiser, muito ou pouco, de sua experiência”.
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'In friendship'
Comecei a trocar e-mails com Jan para combinarmos uma conversa, mas as respostas eram demoradas, e outros problemas surgiram no meio do caminho: reuniões remarcadas por incompatibilidade de horário, doença e outros motivos.
Mesmo com a demora, no entanto, Jan sempre parecia disposta a conversar e encerrava cada contato com um caloroso “In Friendship” (“Em amizade”), que me dava esperanças de que a entrevista ocorreria.

Quando, após alguns dias, ela me enviou seu telefone, as coisas começaram a andar com mais facilidade, mas também deram lugar a outras preocupações.
Jan passou a questionar o que eu perguntaria, pedir para receber as questões antecipadamente e ler o texto antes da publicação.
E aí vieram as dúvidas sobre como a audiência brasileira lidaria com sua história e quais garantias de segurança eu teria para oferecer a ela e à sua família.

Fui sincera, expliquei que conduziria a nossa conversa com respeito, mas que não era possível oferecer algum tipo de garantia.
Reforcei que sabia tratar-se de um assunto delicado e que ela era livre para ir até onde fosse confortável, destacando que não a forçaria a ultrapassar nenhum limite.

Enviei, também, exemplos de entrevistas anteriores que conduzi, em especial a que fiz com Mahbouba Seraj, ativista afegã indicada ao Nobel da Paz que vive sob regime do Talibã.

Após esse último passo, aconteceu a chamada de vídeo no WhatsApp.
Pouco antes de encerrarmos a entrevista, ela disse ter sido voluntária em defesa das mulheres britânicas por mais de 30 anos e me recomendou organizações para conhecer e ajudar a “continuar o trabalho” pela próxima geração.

Dias depois, quando enviei a ela a versão final do texto, Jan disse que estava “feliz” com a publicação.
E, quando compartilhei a página dedicada à sua história no jornal impresso – que de última hora foi transformada em capa do caderno de Mundo –, ela disse:
“Parabéns e continue a abordar todos os problemas que as mulheres enfrentam neste mundo.
Espero que isso dê esperança às mulheres do seu país que se encontram em uma situação semelhante à minha.
Vamos manter contato.
Em amizade, Jan”.

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