Como é cobrir o Oscar da sala de imprensa? Repórter do GLOBO conta a experiência
O dia do Oscar começa cedo para quem vai passar pelo tapete vermelho ou para quem, como eu, ia cobrir a maior premiação de Hollywood na sala de imprensa. A cerimônia do 98º Oscar começou às 16h no Dolby Theatre, em Los Angeles, ou seja, era preciso estar pronta ao meio-dia.
Jornalistas estão longe de serem celebridades. Na hora de escolher o figurino, é preciso optar pelo conforto e pela praticidade. Afinal, ficamos mais de quatro horas sentados, na frente do computador. Não dá para usar vestido volumoso, que corre o risco de enganchar nas cadeiras dos colegas ou atrasar a volta à sala de imprensa depois de uma ida ao banheiro. Os corredores entre as mesas são bem estreitos.
Além de repórteres e analistas, que sempre têm suas preferências, desta vez também éramos torcedores, com as quatro indicações para "O agente secreto" e a de Adolpho Veloso pela fotografia de "Sonhos de trem". Não dá para esconder esse fato. Sendo assim, como na hora de apoiar seu time ou seu piloto de F1 favorito, algumas superstições acabam aparecendo. Decidi usar a mesma roupa do Globo de Ouro. Vai que meu vestido preto básico com casaco de paetês foscos tinha sido o responsável pelos dois Globos de Ouro para o filme de Kleber Mendonça Filho e a atuação de Wagner Moura? Não podia arriscar. Comigo também foram o tubarãozinho de borracha com a perna cabeluda e um santinho de Udo Kier.
Nos pés, sandálias sem salto. Eu tive a sorte de conseguir hospedagem bem perto do Ovation, o shopping onde fica o Dolby Theatre, mas a distância era tão pequena que precisava ser percorrida a pé. Fora que usar carro em dia de Oscar, com várias ruas bloqueadas, é pedir para se estressar. Nas costas, mochila com computador, cabos, bolsinha de primeiros socorros, bloco e caneta. Na bolsa pequena, documento, celular, lenços umedecidos para emergências. Em uma bolsa extra, espaço para colocar o casaqueto de paetês (estava o maior calor, com temperatura de 28 graus, atípica para essa época do ano) e o tênis para trocar na volta, pelo menos.
A segurança sempre é bem reforçada em dia de Oscar. Neste ano, deu a impressão de segurança extra, com mais ruas fechadas, cães farejadores em todas as partes e o constante barulho de helicópteros. Tanto a imprensa quanto convidados e indicados precisam passar por raio-X e revista. No caso de quem precisa optar pelo conforto, o maior estresse, porém, é conseguir ser aprovada pela polícia fashion. Dias antes da cerimônia, a assessoria de imprensa manda diversos comunicados, um deles reforçando que é preciso seguir o dress code. Já soube de gente que foi mandada de volta para se trocar. Eu mesma já fui barrada na gala do Festival de Cannes.
Senti um alívio ao ser aprovada com meu vestido simples e confortável. A primeira medida ao chegar à sala de imprensa, instalada fora do Dolby Theatre, mas dentro do complexo de lojas, escritórios e hotel, é checar o mapa para ver se conseguiu um lugar marcado ou não. O meu estava lá, na mesa 13. As mesas são montadas perpendicularmente ao palco onde os vencedores vêm dar entrevistas. Meu lugar não era dos melhores, atrás do tablado com a câmera que registra as entrevistas.
Antes da cerimônia, são servidos queijos variados em pedaços, biscoitos e pães. Um pouco antes de começar a festa, a fila se forma para a comida. A grande atração é o coquetel de camarão à moda antiga, com crustáceos que passam dos 5 centímetros. Mas tinha também espetinho de frango, empanada de cogumelos, rolinho de birria (carne desfiada) e sobremesas como cookies. Para beber, água e refrigerantes, além de chás e café. É melhor comer antes, porque depois há poucas chances de conseguir.
Pouco antes de começar a cerimônia, fica disponível o programa (um livreto lindo para guardar de recordação) e a ordem dos prêmios. A premiação é exibida em televisões espalhadas pela sala. Mas, quando algum vencedor está na sala para ser entrevistado, o som é cortado. Para continuar acompanhando a cerimônia, é preciso pegar um aparelhinho especial com fones de ouvido. Por isso, para falar a verdade, a sala de imprensa não é o melhor lugar para assistir ao Oscar. Mesmo que você fique com um ouvido ocupado pelo fone com a cerimônia e tente com o outro escutar o que o vencedor está falando, é uma experiência um pouco maluca.
A primeira a vir foi a vencedora do Oscar de atriz coadjuvante Amy Madigan. Quem quer fazer pergunta precisa levantar a plaquinha com seu número, que é colocada no assento de cada um, tendo o jornalista lugar marcado ou não. Madigan ficou curiosa com o sistema. “É uma espécie de bingo?”, perguntou. É quase isso. Uma moderadora escolhe os números que vão fazer perguntas.
Logo no início da premiação, aconteceu o empate na categoria curta live action. Quantas vezes um empate aconteceu no Oscar? Qual a última vez? Na sala de imprensa, bibliotecários da Academia estão lá para responder. Nesse caso, eles já estavam prontos com uma folha impressa com essas informações.
Como no Globo de Ouro, nem todos os premiados vêm logo na sequência de fazerem seus agradecimentos no palco do Dolby Theatre. Mas, no caso do Oscar, a verdade é que o fluxo de entrevistados foi bem grande, com os vencedores dos Oscars de animação, curta animação, figurino, cabelo e maquiagem, direção de elenco, dos dois filmes ganhadores na categoria curta live action vindo um em seguida do outro. Ficou difícil acompanhar a cerimônia.
Mas daí nem Paul Thomas Anderson, Oscar de roteiro adaptado por "Uma Batalha Após a Outra", nem Ryan Coogler, Oscar de roteiro original por "Pecadores", apareceram – como eles estavam concorrendo a outros prêmios, a Academia não pode correr o risco de eles não estarem prontos para subir ao palco caso ganhem outra estatueta. Se "O agente secreto" tivesse levado filme internacional, por exemplo, teria sido a mesma coisa, pois a premiação foi bem no fim da cerimônia, colado com ator e filme. Sendo assim, Anderson e Coogler só apareceram depois de encerrada a cerimônia. PTA deu uma entrevista só por seus Oscars de roteiro, direção e filme.
Nas entrevistas, teve de tudo. Primeira mulher a ganhar o Oscar de fotografia, Autumn Durald Arkapaw, de "Pecadores", foi aplaudidíssima ao entrar na sala de imprensa. Tanto ela como Michael B. Jordan, melhor ator por "Pecadores", falaram de inspirar outras crianças não-brancas. Os vencedores de melhor canção por “Golden”, de "Guerreira do K-pop", conseguiram finalizar seus discursos, depois de serem cortados no palco. Jessie Buckley, de "Hamnet", entrou dançando. Houve alguns momentos estranhos também, como quando jornalistas suecos insistiram em falar em sueco com o vencedor do Oscar de trilha sonora Ludwig Goransson – uma saudação, tudo bem, mas a entrevista inteira em sueco não dá.
O que faltou sempre foi qualquer menção política. Joachim Trier, melhor filme internacional por "Valor sentimental", teve a empatia de perceber que a seu lado, em sua categoria, havia produções e diretores que falam de passados e presentes sombrios em seus países. Paul Thomas Anderson chegou a soltar um “Mas achei que estava aqui para festejar” antes de ser forçado a responder sobre seu filme, lido como bastante político.
Saindo da sala de imprensa, os sinais eram de fim de festa. A maioria dos convidados já tinha subido para o Governors Ball, no mesmo complexo. Outros tinham enfrentado a fila de limusines para ir para outras comemorações na cidade. O Hollywood Boulevard, geralmente ocupado por turistas, estava quase vazio. Ganhando ou perdendo, é uma etapa concluída, um sinal para relaxar e celebrar ter sido incluído em uma das maiores premiações mundiais. No meu caso, foi a hora de me dar conta de que meu vestido, infelizmente, não foi a razão pela qual "O agente secreto" levou dois Globos de Ouro em janeiro. Mas só vou abandoná-lo se encontrar outro tão confortável quanto.
