Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. Tem dúvida? Mande sua pergunta sobre crianças e adolescentes e nós vamos atrás de respostas Todas as perguntas: veja a lista completa das dúvidas já respondidas Dúvida da semana 🤷♀️🤷 "Como falar sobre política para as crianças?" Lembro da primeira vez que minha filha me fez uma pergunta política: “Mamãe, por que as pessoas que moram nas ruas são todas pretas?”. Ela tinha 5 anos.
A pergunta veio de repente, com a naturalidade de quem está tentando entender uma coisa que não faz sentido. Eu poderia ter desconversado, ter dito que ela era pequena demais para entender. Mas a pergunta já trazia uma percepção importante: ela estava vendo uma desigualdade. Naquele momento, minha filha não sabia o que era política. Mas já estava fazendo uma pergunta profundamente política.
Crianças escutam nossas conversas, veem televisão, observam quem trabalha na nossa casa, quem está na rua, quem mora em determinados bairros. Elas percebem diferenças muito antes de saberem nomeá-las. Respirei fundo e expliquei, da maneira que uma criança de 5 anos poderia entender, que existem muitas razões para alguém perder sua casa e que, no Brasil, pessoas negras são desproporcionalmente afetadas pela pobreza e pela falta de oportunidades. Falei que isso tem relação com uma história muito longa de desigualdade e racismo.
Abaixo, dois especialistas explicam que política faz parte do cotidiano das crianças desde cedo e pode ser ensinada a partir de situações concretas, estimulando perguntas, convivência com diferentes realidades, inclusão e reflexão sobre o coletivo. Mais do que falar de partidos e políticos, o importante é desenvolver cidadania e pensamento crítico.
Racismo: Como falar sobre esse assunto com as crianças? Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫 Mai Dart - Designer, pedagoga e educadora parental, fundadora da @desbrinquedo 💬 Conversar sobre política com crianças pode ser um papo bem mais leve do que muitos adultos podem imaginar. Ao contrário do que muitas vezes nos damos conta, a criança já vive a política e exerce a cidadania no dia a dia quando decide coletivamente uma brincadeira, participa da construção das regras de um jogo ou de um ambiente do qual faz parte. Quando discute o uso dos espaços ou vota entre possibilidades. Ao ouvir argumentos diferentes, conversar sobre problemas coletivos, ocupar espaços públicos e conhecer realidades diferentes das dela. 🧩 Por isso, ao conversar sobre política com crianças, não há a necessidade de tratar o assunto como um tabu, ou algo que, de alguma forma, não faça parte do universo ou do cotidiano infantil, porque faz. Afinal, tudo é político. Inclusive para a criança. ❓ Falar sobre política é ensinar que as coisas poderiam ser diferentes. Falar sobre política, às vezes, é não ter medo ou preguiça de responder as perguntas que a própria criança traz, como: “Por que nessa rua tem uma praça e na nossa não?". Em vez de dar uma resposta vaga, podemos aproveitar a reflexão e devolver com outras perguntas como: “Quem será que decide isso?” "Quem paga por isso?” "Quem tem acesso a esta praça?” "Você acha isso justo?” 🤝 Falar sobre política é convidar a criança a pensar e refletir sobre questões coletivas. E, para conhecer sobre o coletivo, reconhecer a si e ao outro, um passo imprescindível é dar à criança a oportunidade de conhecer e conviver com pessoas de realidades diferentes das dela. 🔨 Aqui na Desbrinquedo, temos uma oficina de marcenaria que funciona como um laboratório de ideias para que as crianças imaginem possibilidades e as construam, usando madeira e ferramentas reais. Um menino de 6 anos fez uma caixa e disse: "A tampa não vai ser como uma tampa comum. Ela vai ser dessa forma aqui, porque é pra minha avó conseguir abrir”. E o que ele fez foi criar uma alavanca, na parte superior, junto a tampa da caixa, de forma que só com o peso da mão a caixa pudesse ser aberta. A avó dele tem baixa mobilidade nas mãos. E ele, aos 6 anos, criou uma estratégia que a incluiria em algo que desenvolveu. Isso também é política. ♿ É olhar pra praça e pensar: “Será que uma criança que usa cadeira de rodas consegue brincar aqui também?" É ensinar para as crianças, com desenvolvimento típico, que todas as crianças gostam de brincar e que podemos criar cenários e formas de incluí-las na brincadeira. 🌍 Não podemos esquecer que desenvolvimento infantil é desenvolvimento social: é na relação com outras pessoas que a criança constrói a própria percepção do mundo. E isso envolve: escutar, argumentar, negociar, considerar o outro, construir acordos, compreender regras e questionar injustiças. Discord: entenda a plataforma, os riscos para os adolescentes e como protegê-los ⚖️ No entanto, é necessário entendermos que educação política é diferente de doutrinação política. É preciso incentivar a criança a refletir e a questionar. Não a pensar como você. E é por isso que, para conversarmos com crianças, sobretudo até os 8 ou 9 anos de idade, falar sobre política é diferente de falar sobre políticos. 🧠 Se olharmos para o desenvolvimento infantil, a divisão rígida do mundo entre "100% bom" e "100% mau" é uma etapa cognitiva e emocional necessária. As crianças dividem o mundo assim porque, especialmente entre 2 e 7 anos, o cérebro ainda não tem maturidade para processar a ambivalência, ou seja, a ideia de que algo ou alguém podem ter aspectos bons e ruins ao mesmo tempo. 🔵 Para uma criança pequena, categorizar as coisas de forma binária (mocinho vs. vilão, amigo vs. inimigo, legal vs. chato) é um mecanismo de sobrevivência psicológica para organizar a realidade. As regras e os julgamentos morais são absolutos: se algo quebrou ou deu errado, a culpa é da "pessoa má". 🗳️ Por isso, ao conversar sobre política com crianças, é muito mais significativo que as ensinemos a refletir sobre cidadania e pautas sociais, como saúde, educação, inclusão, respeito, diversidade, meio ambiente, do que falar sobre candidatos e partidos políticos. Afinal, são esses aspectos que ela vai precisar levar em conta, quando for a sua vez de escolher um representante político. Josué Souza - Escritor e autor do livro "Elefante" (Patuá) 🏛️ A política começa muito antes da escolha de um candidato ou de depositar o voto na urna eletrônica no dia das eleições. A primeira coisa que pais, responsáveis e professores devem ter em mente é que não se trata de transformar a sala de casa ou de aula em um palanque. 🔎 Significa ajudar a criança, desde a mais tenra idade, a compreender quais decisões coletivas são tomadas e como interferem diretamente em nossas vidas: quem decide como será a escola, por que existe um posto de saúde no bairro, de onde vem o dinheiro público, por que algumas pessoas têm mais oportunidades que outras e como podemos reivindicar mudanças. 🍽️ Significa explicar para ela, muitas vezes, por que algumas crianças não têm comida, por que determinada rua não tem calçada, por que meninos e meninas não podem fazer determinadas coisas ou por que algumas pessoas são tratadas de maneira diferente das outras. A resposta, nesses casos, não precisa ser partidária. Precisa ser honesta. Luto: Como ajudar seu filho a lidar com as primeiras perdas? 📚 O Estatuto da Criança e do Adolescente, por sua vez, reconhece expressamente o direito à opinião e à expressão e também à participação na vida política, na forma da lei. O Unicef, igualmente, ressalta que a participação infantil deve ser progressiva, adequada à idade e efetivamente considerada — não uma participação meramente decorativa. 👧 Logo, uma criança não precisa saber sobre partidos, siglas, campos ideológicos e candidatos para compreender política, sobretudo aquela praticada no Brasil, ou seja, dentro de uma república democrática. 🗣️ A criança precisa aprender que pode fazer perguntas, que tem pleno direito a dúvidas e opiniões, a discordar, a mudar de ideia e, principalmente, a ouvir e respeitar posicionamentos diferentes dos seus, além de exigir razões e argumentos. 💭 Em outras palavras, não se trata de ensinar às crianças o que pensar, mas de ensiná-las que podem pensar e possuem pleno direito a expressar seus pensamentos — e, no futuro, a responsabilidade de pensar sobre aquilo que fazemos coletivamente. ✊ Uma criança pode acompanhar uma manifestação com seus responsáveis, desde que se trate de um ambiente adequado e seguro. O próprio Conanda já reconheceu as manifestações públicas como espaços legítimos de participação democrática e recomendou que sejam assegurados a liberdade de expressão e o direito de participação de crianças e adolescentes, observados os limites legais e a necessidade de que os atos sejam pacíficos. ⚠️ Todavia, levar uma criança a uma manifestação exige responsabilidade. É preciso considerar sua idade, seu interesse, a duração do ato, o tamanho e o comportamento da multidão, as condições climáticas e, sobretudo, a possibilidade de violência. Não se deve levá-la para um local cuja mobilização dos participantes suscite confrontos, muito menos utilizá-la como instrumento de propaganda ou como escudo para a defesa de posicionamentos individuais. 🌱 Além disso, levar uma criança a uma manifestação pode ajudá-la a reconhecer os espaços de participação coletiva e a compreender quando eles são legítimos para atos públicos e políticos. NO RADAR 👀 Seis livros para falar de política com as crianças: Ximlóp, de Gustavo Piqueira (Joaquina): Um personagem começa a falar uma palavra que ninguém entende e acaba sendo censurado. Uma história sobre liberdade de expressão, pensamento diferente e o direito de ir contra a maioria.
Elefante, de Josué Souza (Patuá): Livro inspirado em casos reais de crianças vítimas de violência, que mistura fantasia, realismo mágico e ancestralidade para falar de luto, racismo, pertencimento e memória.
O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha (Salamandra): O que fazer quando um rei autoritário tenta controlar tudo e todos? Um clássico da literatura infantil brasileira que aborda o poder, a escuta e as consequências de uma liderança autoritária. Eleição dos Bichos, de André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun (Companhia das Letrinhas): Os animais organizam uma eleição e descobrem questões relacionadas a voto, poder e democracia.
O Prefeito Perfeito, de Lia Neiva (Nova Fronteira): Os moradores de uma floresta precisam escolher alguém para resolver problemas da comunidade. Aborda eleições, propostas e responsabilidade dos governantes.
Malala, a menina que queria ir para a escola, de Adriana Carranca (Companhia das Letrinhas): Conta a história real da ativista paquistanesa Malala Yousafzai e permite conversar sobre direito à educação, direitos das meninas, desigualdade e ativismo.
O Globo