Como contar para o filho que os pais vão se separar? O que dizer e como protegê-lo emocionalmente
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Dúvida da semana 🤷♀️🤷
"Como conto para o meu filho de 8 anos que eu e o pai dele vamos nos separar?"
A pergunta desta semana toca em um ponto delicado e, ao mesmo tempo, comum na vida de muitas famílias. Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos, nos anos 1980, e hoje, quando lembro do dia em que eles me contaram, penso imediatamente na minha falta de entendimento de como seria a vida dali em diante. Por não terem me explicado direito, eu achei que nunca mais veria o meu pai, o que estava longe de ser real.
Faltou algo fundamental naquela conversa: previsibilidade, palavra destacada pelas especialistas que ouvimos. Ter isso em mente ajuda muito a diminuir a ansiedade da criança em um momento tão difícil.
Nesta edição da newsletter, as duas psicólogas ajudam a pensar em caminhos possíveis: como conversar, o que dizer, o que evitar e, principalmente, como sustentar os filhos emocionalmente nessa jornada. Não tem fórmula mágica, mas há alguns cuidados bem importantes.
Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente no formulário ao final desta reportagem. Muitas vezes, a sua inquietação é também a de outros pais e mães que estão tentando acertar todos os dias.
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Palavra das especialistas 👩🏫👨🏫
Erika Pallottino - Psicóloga, especialista em luto e perdas e sócia-fundadora do Instituto Entrelaços
🧩 Sobre o divórcio dos pais, é preciso começar por uma verdade simples e difícil: as crianças, muito provavelmente, vão sofrer. Não há maneira simples de atravessar uma separação quando se é filho.
📚 Estudos de Judith Wallerstein, relizados ainda na decada de 1970, mostraram algo bem impressionante: mesmo 14 ou 15 anos após a separação, filhos de pais divorciados ainda alimentavam a fantasia de ver a família original reunida. Mesmo que aquela família fosse tensa, difícil e estressada. A criança sonha com a unidade e a segurança de ter os seus pais “para ela”.
⚖️ Por isso, quando um casal chega a um impasse, a decisão não é apenas conjugal. Ela é também parental.
🛑 Antes de comunicar a separação, os adultos precisam refletir sobre como pretendem proteger os filhos dos efeitos mais duros dessa ruptura. Uma das funções essenciais da família é proteger suas crianças, e um dos maiores danos que se pode causar é colocá-las no meio da guerra emocional dos pais. Quando a raiva, a competição e o ressentimento transbordam, a criança paga um preço silencioso, e as consequências são reais e muito delicadas.
🧠 Crescer enredada nas disputas parentais pode trazer repercussões importantes na vida adulta: insegurança nos vínculos, medo de abandono, dificuldades de confiança, autoestima fragilizada. O divórcio em si não determina essas consequências, mas o modo como ele é conduzido, sim.
🌿 Há uma delicadeza que precisa ser sustentada pelos adultos que compreenderam que não conseguirão mais permanecer juntos. Sempre que possível, essa decisão deve ser minimamente elaborada entre eles antes de chegar aos filhos. E, quando isso não é possível, buscar ajuda profissional é bem importante.
💬 A conversa com a criança precisa ser clara, simples e segura. Não é necessário compartilhar detalhes do conflito conjugal. É necessário dizer a verdade: que os adultos não conseguiram continuar casados, que isso é uma decisão deles e que ela não tem culpa. Essa frase, “você não tem culpa”, talvez precise ser repetida muitas vezes. Crianças costumam levar para termos pessoais o que acontece ao seu redor. A culpa infantil é parte do pensamento mágico e da onipotência, comuns no desenvolvimento.
📅 Nessa comunicação também é importante oferecer previsibilidade. Explicar, dentro do possível, como será a nova organização: onde cada um vai morar, quando vão se ver, o que permanece igual. A previsibilidade diminui a ansiedade. E, mais do que palavras, a criança observa atitudes. Não adianta afirmar que ela é amada se presencia desqualificações e abusos constantes entre os pais.
🖤 O divórcio é uma experiência de luto familiar. Perde-se a configuração anterior, a rotina conhecida, a fantasia de controle e permanência. A tristeza é esperada. A raiva também. A criança pode regredir em comportamentos já superados, alterar o sono, ficar mais irritadiça ou mais retraída. Pode perguntar repetidamente se existe chance de reconciliação. Pode testar a estabilidade da decisão. Isso não significa manipulação, apenas a sua tentativa de reorganização interna. Significa que ela está processando e que está sofrendo, de alguma forma, com a mudança.
🔄 Por isso, não se trata de uma única conversa, mas de um processo. A comunicação precisa continuar. A criança precisa ter espaço para perguntar, se entristecer e sentir raiva sem ser censurada.
🤝 Suportar a tristeza do filho é parte desse cuidado gentil. Os adultos envolvidos nesse processo estão enlutados e, talvez, com mais dificuldade em ajudar a criança a viver essa ruptura. Portanto, precisam ter cuidado para não invisibilizar as dores dos filhos, porque estão, fatalmente, administrando as suas próprias. E isso, infelizmente, acontece com frequência.
🚧 Alguns limites são fundamentais: não usar a criança como mensageira, não pedir que escolha lados, não compartilhar detalhes íntimos do conflito, não transformar o outro genitor em vilão. Sempre que for possível e seguro, preserve o vínculo da criança com ambos os pais; essa é uma forma de proteção psíquica.
🌈 O fim de um casamento é uma ruptura. Mas não precisa ser o fim da segurança emocional de um filho. A diferença está na maturidade com que os adultos sustentam suas próprias dores para não depositá-las sobre quem ainda está aprendendo a compreender o mundo.
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Reforce sempre para a criança que a decisão foi dos adultos e não tem relação com ela, dizem as especialistas
Reprodução
Letícia Zaffari - Psicóloga clínica, especialista em saúde da criança e do adolescente, mestre em saúde coletiva e cofundadora da @aurora.psicologia
🌧️ Estamos acostumados a pensar em luto quando falamos de morte, mas, na verdade, essa é uma resposta esperada diante de qualquer ruptura ou perda de algo significativo – e com o divórcio não é diferente. No processo de luto, o mundo já conhecido, estável e previsível muda, precisa ser reorganizado e exige de todos, crianças e adultos, uma grande capacidade de adaptação. Esse fenômeno se chama "perda do mundo presumido".
👶 Se para nós, adultos, as mudanças podem ser assustadoras e desafiadoras, para os pequenos isso é ainda mais evidente. Diante disso, elas merecem atenção especial nesse processo, já que estabilidade e previsibilidade são fatores importantes ao longo do desenvolvimento.
👀 O que vejo com frequência são adultos supondo que as crianças não entendem o que está acontecendo ou não sentem tanto quanto eles, o que não é verdade. Na tentativa de proteger os filhos, os pais acabam não abrindo espaço para que os sentimentos e emoções apareçam e sejam elaborados.
📝 Pensando nisso e no meu trabalho com clínica infantil, tendo acompanhado casos de pais divorciados ou que estão se divorciando, consigo dar algumas sugestões de como comunicar essa decisão:
🕰️ Escolha um ambiente tranquilo e um momento em que você tenha tempo. Não faça isso com pressa.
🗣️ Seja clara com seu filho. Tente falar da forma mais aberta possível, não use metáforas e fale com honestidade sobre a decisão.
❓ Responda às perguntas que aparecerem. Observe o ritmo da criança, o que ela mostra que está pronta para absorver e o que ela não deseja saber naquele momento.
❤️ Acolha e valide os sentimentos do seu filho. Ele pode sentir raiva, frustração, medo, culpa, tristeza... O mais importante é que ele sinta que não está sozinho e que esses sentimentos e emoções têm espaço.
🎨 Ajude-o a nomear o que está sentindo e ofereça recursos além da fala para que ele elabore: desenho, escrita, brincadeiras.
🚫 Reforce que essa decisão foi dos adultos e não tem relação com ele. As crianças podem ter fantasias de que são culpadas de alguma forma quando algo difícil acontece, então vale dizer que ele não tem nenhuma responsabilidade nesse processo.
🧭 Se possível, dê algumas informações sobre o que muda, o que permanece igual, como será a nova rotina. Isso pode ajudá-lo a ter algum contorno em um momento de tantas mudanças. No entanto, caso seu filho faça perguntas para as quais você ainda não tem resposta (como, por exemplo, quanto tempo ele ficará com cada um), seja sincera e diga que isso ainda não foi decidido, mas que você comunicará assim que souber.
💭 Entendo que até a tomada de decisão pelo divórcio, muitas questões foram ponderadas e discutidas, ainda mais quando o casal tem filhos. Ainda assim, vejo muitos pais e mães culpados pela separação e achando que estão, de alguma forma, prejudicando a criança. Na verdade, mais danoso é um filho carregar o peso de ter os pais presos em uma relação que não faz mais sentido exclusivamente por ele. O importante para uma criança é se sentir cuidada, validada e acolhida, independente da configuração familiar.
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NO RADAR 👀
3 livros e 1 filme sobre o tema para pais, mães, cuidadores e crianças
Antes das indicações, uma ressalva importante: livros que tratam de emoções podem mobilizar as crianças, e nem sempre sabemos como isso vai repercutir nas fantasias e imagens que elas constroem. Por isso, mais do que escolher o título certo, é fundamental que a leitura seja feita com a presença de um adulto disponível, acolhedor e seguro, que sustente as conversas que surgirem.
📖 "O reino partido ao meio", de Rosa Amanda Rosa Amanda Strausz e Natalia Colombo (ilustradora) - Companhia das Letrinhas
Por culpa de um dragão raivoso, o reino e as coisas que existem nele são partidos ao meio. No começo, a situação parece assustadora e difícil de encarar. Mas, com o tempo, o príncipe acaba descobrindo novos arranjos e percebendo que não existe apenas um jeito de viver.
📖 "Lá e aqui", Odilon Moraes e Carolina Moreyra - Pequena Zahar
A escritora Carolina Moreyra aborda com delicadeza o assunto. Com o traço de Odilon Moraes, imagem e texto se unem para contar que a separação, aos olhos de uma criança, pode ser vivida de uma maneira positiva, sem no entanto menosprezar o sofrimento inicial.
📖 "Mamãe é grande como uma torre", de Brigitte Schar - Cosac & Naify
O livro registra a vida de uma menina que tem a maior mãe do mundo e um pai que cabe dentro de uma caixa de sapato. Ela enfrenta a separação por meio da fantasia, associando o tamanho da mãe à grande falta que ela lhe faz.
🎬 "Enfeitiçados" - Netflix
Quando um feitiço transforma seus pais em monstros gigantes, uma princesa adolescente embarca em uma jornada para reverter a magia antes que seja tarde demais.
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