A partir de mensagens apreendidas no celular da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a Polícia Federal (PF) investiga a extensão dos negócios mantidos por ela em Brasília.
Os diálogos incluem menções a empresas de gerenciamento de empréstimos consignados, de cibersegurança e outra de medicamentos à base de cannabis medicinal.
As duas primeiras mantêm contratos com o governo federal.
Luchsinger era procurada pelas empresas por sua ampla rede de contatos com integrantes do PT e assessores em cargos-chave no governo, a exemplo de Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Como revelou O GLOBO, a empresária chegou a mandar a ele a minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com dispensa de licitação.
Naquela época, ela tentava fazer negócio com a pasta, o que não ocorreu.
Para intermediar essas negociações, Luchsinger utilizava a RL Consultoria e Intermediações, empresa registrada como "intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral", conforme informações da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).
O capital social é de R$ 99.800.
O endereço indicado como sede é o apartamento onde Luchsinger mora em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, local onde a PF cumpriu mandados de busca e apreensão no fim do ano passado durante a Operação Sem Desconto, que apura as supostas fraudes no INSS.
A consultoria foi aberta por Luchsinger em 2019, após ela tentar, sem sucesso, a carreira política ao disputar o cargo de deputada estadual pelo PT, no ano anterior.
Próxima de integrantes do partido em São Paulo e herdeira de um banqueiro suíço, ela foi casada com o ex-delegado da Polícia Federal e ex-deputado federal Protógenes Queiroz, de quem se separou alguns anos antes de se candidatar.
Em 2022, já atuando na área de consultorias, chegou a contratar um publicitário para fazer a sua pré-campanha a deputada federal, mas desistiu de concorrer antes de se registrar no Tribunal Superior Eleitoral.
Entre os clientes da RL Consultoria identificados pela PF está a World Cannabis, do empresário Antonio Carlos Antunes, o "Careca do INSS", pivô do escândalo de desvio ilegal de aposentadorias.
De acordo com a investigação, Luchsinger recebeu R$ 1,5 milhão do empresário, divididos em cinco parcelas de R$ 300 mil para ajudá-lo a fechar negócios no governo.
A empresária afirmou à PF que os pagamentos correspondiam a serviços de consultoria.
Antunes, que tinha atuação no ramo farmacêutico, tentava entrar no mercado de medicamentos à base de cannabis.
O trabalho de Luchsinger previa viabilizar a venda desses produtos ao Ministério da Saúde.
O negócio não prosperou.
Em nota, a pasta disse que nunca houve a possibilidade de compra do produto, uma vez que medicamentos à base de cannabis não estão incorporados ao SUS.
"Nunca existiu por parte desta gestão nenhuma discussão para a sua oferta na rede pública de saúde", diz o Ministério da Saúde.
A defesa de Luchsinger afirmou que o processo está sob sigilo e não vai se manifestar.
No seu perfil no Instagram, a empresária se queixou das investigações policiais e do que classificou como "ataques diários" ao "seu nome" e "pessoas queridas".
O advogado Marco Aurélio Carvalho, que defende Lulinha, disse que Roberta se firmou como empresária antes mesmo de conhecer o filho do presidente.
— Roberta existe como empresária, como cidadã, muito antes do relacionamento que ela passou a ter, há alguns anos, com o Fábio Luís e com a família dele, em especial com a esposa e com os filhos.
Ela é uma empresária, sempre foi uma pessoa muito bem sucedida, que circulou em Brasília em outras rodas durante muitos anos e sempre foi reconhecida como uma empresária bem sucedida — disse, acrescentando: — É muito até, digamos, injusto, independentemente de qualquer coisa, imaginar que a certidão de nascimento dela passou a existir a partir desse relacionamento.
Ela existe e sempre existiu independentemente desse relacionamento.
A empresa dela não foi aberta a partir desse relacionamento e os negócios dela não passaram a ser realizados a partir desse relacionamento — acrescentou.
'Vou assinar, tá?'
A PF também encontrou no celular de Luchsinger a minuta de um contrato da RL Consultoria com a Safe Consig Tecnologia da Informação, empresa que fornece tecnologia para gerenciamento de empréstimos consignados e mantém contratos com órgãos públicos.
O documento aparece anexado a uma mensagem de 13 de maio de 2024.
Nela, Luchsinger afirma ter recebido uma versão revisada do documento de uma pessoa chamada Saulo, mesmo nome de Saulo de Tasso Alves Caracas Dino, sócio da Safe Consig.
“Saulo me mandou revisado agora.
Vou assinar, tá?”, escreveu a empresária a um interlocutor.
Questionado sobre a mensagem encontrada pela PF, Saulo disse não conhecer Luchsinger ou Lulinha e afirmou desconhecer a existência de um “contrato assinado” entre a Safe e a RL Consultoria.
"Se alguém tratou sobre esse tema com as pessoas referidas não foi, em nenhuma hipótese, com a autorização devida", disse o empresário, por meio de nota.
Outra frente investigada pela PF envolve a 3Structure IT, empresa de cibersegurança e proteção de dados que tem o empresário Cleber Ribas de Oliveira como sócio.
Mensagem revelada pelo site Metrópoles mostra que, em 24 de julho de 2023, Lulinha chegou a orientar Luchsinger a emitir uma nota fiscal para cobrar Oliveira.
“Emite a NF pro Cleber”, diz.
“Já fiz”, responde Luchsinger.
“Boaaaaa”, comemora Lulinha.
Em um dos inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça, a PF apura se o filho do presidente atuou em negócios relacionados à Dataprev, empresa pública responsável pela base de dados do INSS, para beneficiar o empresário e prospectar contratos.
Segundo a investigação, Oliveira teria pagado ao menos uma viagem de Lulinha em troca de supostos favores no governo.
A informação foi revelada pelo Estado de S.
Paulo e confirmada pelo GLOBO.
Além disso, de acordo com o Metrópoles, a 3Structure IT pagou R$ 150 mil a Luchsinger.
Como atuava a consultoria de amiga de Lulinha que intermediava negócios em Brasília
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