Como as redes sociais estão moldando a ideia de sucesso sem você perceber
As redes sociais se tornaram parte central da forma como as pessoas se informam, se relacionam e, principalmente, avaliam a própria trajetória. Em um ambiente dominado por fotos, vídeos curtos e relatos de conquistas, cresce a sensação de que o sucesso está sempre ao alcance — mas, paradoxalmente, sempre distante. Para entender como esse cenário influencia a forma como enxergamos a nós mesmos, o TechTudo conversou com a psicanalista Ana Tomazelli, especialista em saúde mental e presidente do Ipefem (Instituto de Pesquisas & Estudos do Feminino), que analisa os efeitos dessa exposição constante e aponta caminhos para uma relação mais equilibrada com o digital.
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Sucesso moldado pelo feed: como as redes impactam nossa percepção
Milan Jovic/Getty Images
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O feed como vitrine de conquista
A exposição de conquistas nas redes sociais pode parecer algo novo, mas, na prática, apenas amplia um comportamento já existente. Segundo Ana Tomazelli, a comparação faz parte da forma como as pessoas constroem sua identidade.“O ser humano, ele aprende por oposição, essa é uma das abordagens da filosofia. Então, a gente sabe que é quente pelo frio; a gente sabe o que é claro pelo escuro; a gente aprende algo pelo seu contrário… É quase automático que na vida moderna a gente vai construir a ideia de si a partir do que é contrário, e, portanto, a gente vai precisar desenvolver esse mecanismo de comparações.”
A especialista destaca que esse processo já existia antes do ambiente digital, mas foi potencializado pelas plataformas. "Quando a gente tem um advento das redes sociais, e as pessoas começam a compartilhar a própria vida, na verdade não se inaugura nada novo. Porque nós já nos comparávamos com o vizinho, com a prima da família (quando chega o Natal a gente sabe que acontece). Então, na verdade, as redes sociais, elas amplificaram, elas potencializaram, elas sofisticaram e complexificaram o processo que já acontecia circunscrito no tempo e no espaço.”
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Especialista explica o fenômeno do feed como vitrine de sucesso
Freepik
A felicidade sob filtro: realidade ou ilusão
O conteúdo publicado nas redes sociais costuma ser editado e recortado, mas isso não significa necessariamente falsidade. Para Tomazelli, o problema está na forma como esse conteúdo é interpretado: “quando as pessoas dizem ‘não acredite em nada que está na rede social’, etc. Eu gosto de dizer o seguinte: veja, não é que é uma questão de ser mentira ou de ser verdade. O que a gente não pode é tomar este conteúdo editado e filtrado como a história inteira.”
Segundo ela, esse recorte reduz a complexidade da experiência humana, já que só vemos aquilo que a pessoa quer mostrar e, sendo um sucesso, automaticamente é comparado com as dificuldades da vida real que não são mostradas no feed. A lógica aparece de forma clara na comparação entre diferentes níveis de exposição.
“No digital, costumamos comparar o palco do outro com os nossos bastidores", comenta a especialista em saúde mental
Segundo especialista, edição do conteúdo leva à interpretação de sucesso
Lucas Loyo/TechTudo
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Ansiedade e autoestima na era digital
Os impactos emocionais do uso das redes sociais variam de pessoa para pessoa, mas alguns padrões têm se repetido na prática clínica, especialmente ligados à angústia e à ansiedade. A especialista explica que tem havido um aumento nos relatos de uma sensação de tristeza e ansiedade, que geralmente é acompanhada por descrições de comparação.
Um retrato disso aparece no Panorama da Saúde Mental 2024, levantamento do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, que mapeia o bem-estar psicológico no Brasil. Os dados mostram que, entre jovens de 15 a 29 anos, quase metade dos casos de ansiedade tem relação com o uso intenso de redes sociais. O cenário geral também chama atenção: cerca de 65% dos brasileiros relatam algum tipo de dificuldade emocional.
E o problema não para por aí. Quando o tempo de uso ultrapassa três horas diárias, o risco de desenvolver depressão aumenta em 30% em comparação com quem acessa as redes de forma mais equilibrada.
Por que nos sentimos sempre atrás
A sensação de estar sempre “correndo atrás” dos outros não tem uma explicação única, e tentar simplificá-la pode levar a interpretações equivocadas. Ainda assim, Tomazelli aponta elementos importantes para entender o fenômeno: “o que a gente pode discutir é que: o ser humano é um ser gregário — ele é coletivizado, ele depende dos outros pra viver.”
Nesse contexto, a comparação pode assumir diferentes significados, mas é importante distanciar o que é admiração, que serve de inspiração, e o que torna um ofensor para a saúde mental, que, segundo a especialista, pode piorar ou agravar um transtorno de ansiedade ou episódio depressivo.
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Mariana Saguias/TechTudo
Caminhos para uma relação mais saudável com as redes
Apesar dos impactos, é possível adotar medidas práticas para tornar o uso das redes sociais mais equilibrado. A principal delas, segundo Tomazelli, começa pela forma como o usuário consome conteúdo.
De uma forma bem direta e pragmática, [um caminho] é a curadoria de quem você vai seguir, e, do que você vai ensinar para o seu algoritmo. Isso é muito importante.”
Segundo a psicanalista, isso significa entender que o comportamento dentro da plataforma influencia diretamente o que será exibido. Portanto, escolher os perfis a serem seguidos e entender o funcionamento do algoritmo, que sempre vai entregar aquilo que buscamos sem se importar com consequências.
Outro ponto central é o controle do tempo de uso, especialmente em momentos de pausa. Para a especialista, o tempo que dedicamos às redes é um dos fatores mais importantes. "É muito comum que as pessoas fiquem ali na hora que acordam, que vão dormir, mesmo quando chegam em casa, mas, basicamente, quando não têm nenhuma atividade obrigatória, como trabalho, por exemplo, para fazer.”
Nesse cenário, as redes passam a ocupar um espaço cada vez maior na rotina — muitas vezes substituindo outras formas de convivência. Por isso, a recomendação final envolve equilíbrio e consciência sobre o papel das plataformas no dia a dia, para que isso não roube tempos importantes que precisam ser vividos no presente e não no digital.
Especialista dá dicas de como aproveitar melhor as redes sociais
Mariana Saguias/TechTudo
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