Como as distopias nos ensinam a reconhecer a quem devemos resistir

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

De ‘Doctor Who’ a ‘Star Wars’, séries e filmes ajudam a refletir sobre o certo e o errado em tempos de desinformação e manipulação algorítmica “Você será assimilado.

Resistir é inútil”. Em Doctor Who, a frase resume a ameaça representada pelos Cybermen: seres tecnológicos que procuram assimilar outros indivíduos, apagando suas diferenças.

Diante deles, resistir parece uma escolha óbvia. Nem todo conflito apresenta, porém, vilões tão facilmente identificáveis, e nem toda resistência é necessariamente justa.

Ao explorar realidades alternativas e futuros possíveis, a ficção especulativa oferece um terreno fértil para investigar essas contradições. Resistir pode significar opor-se a uma força, persistir diante de um obstáculo ou recusar-se a ceder, como sugere a definição do dicionário Michaelis.

Mas o que torna uma resistência legítima? Quando transportamos esses conflitos para a vida real, as certezas diminuem.

Que causas justificam a resistência? Até que ponto nossas convicções influenciam a maneira como distinguimos o certo do errado? Na ficção, muitas vezes temos elementos suficientes para reconhecer os vilões e torcer por quem os enfrenta. Na vida real, nem sempre é tão simples saber de que lado estamos.

O Senhor dos Anéis, Matrix, Star Trek e Game of Thrones são bons exemplos de histórias em que personagens e grupos enfrentam forças que ameaçam sua liberdade, seus valores ou sua própria existência. Já em Star Wars, a resistência é um componente estrutural da franquia.

Não à toa, o movimento que combate o Império Galáctico recebe o nome de Aliança Rebelde, formada pela união de diferentes grupos de oposição ao regime e articulada por figuras como Mon Mothma e Bail Organa. Essa é a base do que veríamos em Star Wars: Episódio IV — Uma Nova Esperança.

O termo também é utilizado em O Exterminador do Futuro para se referir ao grupo que viria a ser liderado por John Connor no futuro, ainda que seja apenas uma designação genérica para o movimento militar formado pelos sobreviventes humanos que lutam contra as máquinas controladas pela inteligência artificial Skynet.

Uma novidade que a ficção trouxe nas últimas décadas é a ideia de que o herói nem sempre tem atitudes heroicas. Ele precisa ser, acima de tudo, humano e, com isso, trazer maior similaridade com a vida real.

As tramas de Homeland — Segurança Nacional, The Americans: Rede de Espionagem e 24 Horas brincam muito com a noção de resistência. Sabemos — ou torcemos — para que os protagonistas estejam do lado certo.

Mas as pistas lançadas ao espectador nos levam a questionamentos, o que ajuda as tramas a avançar e a permanecer intrigantes. O Homem do Castelo Alto, por sua vez, complica essa dinâmica.

Grupos clandestinos tentam enfrentar os regimes ocupantes em um mundo alternativo no qual o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial. Ao colocar protagonistas dos dois lados, no entanto, a série nos leva a importantes debates sobre resistência, colaboração e a disputa pelo imaginário de uma sociedade.

E por que esse tema continua importante hoje? À medida que o uso das redes sociais avançou, as próprias bolhas virtuais passaram a trazer suas definições de certo e errado. Por isso, ninguém precisa exercitar o próprio julgamento.

Uma análise feita pelos professores Márcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado aponta que, desde 2011, estudos mostram um elevado grau de segregação nas redes de retuítes do Twitter (hoje X), de acordo com as filiações partidárias dos usuários. Outro estudo citado por eles, de 2015, examinou dados internos do Facebook e descobriu que os usuários são mais propensos a encontrar conteúdo alinhado às suas ideologias políticas.

Isso se deve principalmente à homofilia política nas redes de relações sociais e, apenas secundariamente, à ação dos algoritmos. O resultado é a polarização, com efeitos destrutivos, principalmente na política de diversos países.

Questões delicadas que haviam perdido força com o passar do tempo — como racismo, homofobia e preconceito contra minorias, feminicídio e xenofobia — voltaram com força em bolhas cada vez maiores, amplificadas por plataformas que, em vez de inibir esses fenômenos, ajudaram a disseminá-los.

Decidir entre o certo e o errado, portanto, parece uma das tarefas mais fáceis. Mas os índices cada vez menores de leitura, a falta de foco e paciência, a queda no desempenho em habilidades específicas e o aumento do número de analfabetos funcionais, não apenas no Brasil, sugerem que isso não é tão simples assim em 2026.

As redes sociais hoje estão inundadas de postagens que exploram como a política está extremamente presente na ficção especulativa. Não é difícil identificar a relação entre o preconceito contra minorias e X-Men, o racismo estrutural e Super-Choque ou o combate ao nazismo e Capitão América.

Star Wars trata da resistência à opressão, enquanto Star Trek opera em uma analogia política quase oposta: aborda o exercício ético do poder, a diplomacia e a celebração da diversidade. Esses pontos não ficam escondidos nas obras, ainda que elas não sejam panfletárias.

A essência da resistência pode ser vista claramente na maior parte da ficção especulativa. Seu grande ensinamento está em mostrar o que devemos combater e a que tipos de sistema e de pessoas devemos nos opor.

O inimigo do mundo real contemporâneo não está fisicamente à nossa frente, o que, somado ao que foi dito acima, dificulta sua identificação. Mas ele está aí, agindo por meio da desinformação e dos algoritmos que decidem o que você vê.

Resistir não é apenas útil: é necessário. Tiago Souza Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos cobrindo o mercado de HQs, livros, séries e cinema.

Dedica-se a analisar os cruzamentos entre cultura pop, comportamento e a indústria do entretenimento Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

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