Pela primeira vez em 20 anos, Cuba não foi mencionada no discurso de um representante da Venezuela no debate da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A ausência marcou o recente pronunciamento da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez.O dado é significativo: Hugo Chávez (morto em 2013) chegou a dizer que os dois países eram "uma mesma nação" e tinham "um mesmo governo".Em seu discurso na mesma assembleia, em 2009, Chávez mencionou Cuba 11 vezes. Seu sucessor, Nicolás Maduro, citou o país 13 vezes em 2015.A ausência de referências a Cuba no discurso de Rodríguez reflete a complexidade das relações entre os dois países desde a incursão militar em janeiro de 2026, quando os Estados Unidos prenderam Maduro.Menos de duas semanas depois, Rodríguez defendeu o direito da Venezuela de decidir com quais países manter relações diplomáticas."Temos o direito de manter relações diplomáticas com a China, com a Rússia, com o Irã, com Cuba, com todos os povos do mundo. Também com os EUA. Somos uma nação soberana", disse Rodríguez em discurso na Assembleia Nacional.No entanto, quase nove meses depois, a relação entre Venezuela e Cuba dá sinais de enfraquecimento."[A Venezuela] é um país amigo. Aliado é uma palavra muito forte", disse Carlos Fernández de Cossío, vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, ao ser questionado sobre a relação com a Venezuela em uma entrevista recente à Bloomberg.É o primeiro reconhecimento oficial de que a "relação estratégica" construída inicialmente por Chávez e Fidel Castro (morto em 2016) se deteriorou. Getty Images A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, não mencionou Cuba uma única vez em seu recente discurso na ONU Médicos, mas também agentesDesde que chegou ao poder, em 1999, Chávez estreitou os laços com Cuba e chegou a descrever a relação como uma "aliança estratégica", uma "irmandade" e uma "unidade histórica".A aproximação começou com um acordo de venda de petróleo venezuelano à ilha em condições preferenciais. Em troca, Cuba enviaria profissionais à Venezuela para atuar em áreas como saúde, educação, cultura e esporte, entre outras.Na saúde, a presença cubana ganhou visibilidade com a participação de milhares de médicos no programa social Barrio Adentro, que buscava levar atendimento básico às comunidades mais carentes — há similaridades com o programa brasileiro Mais Médicos, incluindo protestos de parte dos médicos locais contra a chegada dos colegas cubanos.Embora os médicos tenham sido o símbolo mais evidente da cooperação cubana, especialistas apontam a atuação de agentes cubanos nos órgãos de segurança venezuelanos como o principal diferencial da relação entre os países."Eu diria que a presença mais importante de Cuba na Venezuela, que já não existe, era na área de contrainteligência", disse Frank Mora, professor de relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida, nos EUA, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.Mora afirmou que, depois de abril de 2002, Castro teria começado a enviar agentes de Cuba à Venezuela para tentar proteger Chávez e evitar conspirações nas Forças Armadas."Cuba se infiltrou profundamente nas Forças Armadas e nos órgãos de segurança do Estado venezuelano. A Venezuela chegou a adotar a doutrina militar cubana da 'guerra de todo o povo'. A cooperação se aprofundou de forma extraordinária, e algumas pessoas chegaram a falar em 'cubanização' das Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela", acrescenta Mora, que também foi embaixador e funcionário do Pentágono.Mora explica que os agentes cubanos, além de treinar as forças venezuelanas de contrainteligência, participavam e interferiam em todas as atividades de contrainteligência e repressão.Ex-integrantes dos órgãos de segurança venezuelanos e pessoas que foram presas no país por motivos políticos relataram que agentes cubanos estavam presentes e participavam de ações de inteligência e repressão, sobretudo por meio da Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim). Getty Images A Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim) é um dos órgãos de segurança venezuelanos em que os agentes cubanos teriam exercido maior influência Durante anos, Cuba negou a presença de agentes de segurança cubanos na Venezuela. Essa negativa pode ter sido desmentida durante a captura de Maduro, quando morreram pelo menos 32 cubanos, entre eles integrantes das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR) e do Ministério do Interior de Cuba.Entre os cubanos mortos havia dois coronéis, um tenente-coronel, quatro majores e três capitães, o que sugeriria que exerciam funções na área de segurança que iam além de tarefas básicas.Em entrevista coletiva após a operação americana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que Cuba "basicamente tentou colonizar a Venezuela na área de segurança".Quase três semanas depois, em 22/1, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, relatou em uma publicação na rede social X que havia conversado por telefone com Rodríguez. Disse ter manifestado apoio e solidariedade a ela, "além da decisão de continuar fortalecendo as históricas relações de irmandade e cooperação".Nove meses depois, como estão as relações entre Cuba e Venezuela?'Quase tudo mudou' X/Delcy Rodríguez Sob Delcy Rodríguez, a Venezuela deixou de ser aliada de Cuba e passou a se aliar aos Estados Unidos "Tudo ou quase tudo mudou", respondeu Mora, da Universidade Internacional da Flórida.Depois da captura de Maduro em 3/1, já com Rodríguez à frente do governo, os EUA assumiram o controle da venda de petróleo venezuelano e manteve suspenso o fornecimento desse insumo a Cuba. A ilha já não recebia petróleo da Venezuela desde o fim de 2025, devido ao bloqueio marítimo imposto pelos EUA à costa venezuelana.Nenhum dos governos envolvidos divulgou informações oficiais sobre a presença de agentes de segurança cubanos na Venezuela.Em meados de janeiro, o site cubano 14ymedio informou que um avião modelo Ilyushin IL-96-300, da companhia aérea Cubana de Aviación, havia feito pelo menos seis viagens entre Caracas e Havana. A aeronave havia sido usada para transportar à ilha os militares feridos na operação americana.Segundo o site, o avião tem quatro motores e capacidade para cerca de 300 passageiros, que pode ser ampliada para 400. Com base nesses números, o veículo estimou que cerca de 2.500 cubanos poderiam ter sido repatriados da Venezuela.Um mês depois, a agência de notícias Reuters publicou uma reportagem baseada nos relatos de 11 fontes com conhecimento do assunto. Segundo elas, agentes de segurança e médicos cubanos estavam sendo retirados da Venezuela devido à pressão dos EUA sobre Rodríguez.Uma dessas fontes afirmava que os funcionários cubanos haviam sido afastados de seus cargos na Direção Geral de Contrainteligência Militar, a Dgcim. Outras diziam não saber se eles estavam sendo expulsos pelo governo Rodríguez, chamados de volta por Cuba ou se deixavam o país por vontade própria."Há pouca transparência. Chama a atenção a escassez de informações públicas divulgadas pelos EUA sobre as mudanças nos órgãos de segurança ou no Estado. Tudo se baseia em comunicados à imprensa cuidadosamente articulados", disse John Polga-Hecimovich, professor associado de ciência política da Academia Naval dos EUA, que publicou em 2020 uma pesquisa sobre as relações entre Cuba e Venezuela.Polga-Hecimovich destaca que a "descubanização" dos órgãos de segurança do Estado venezuelano é uma prioridade para a inteligência americana e afirma que "tudo indica que tiveram sucesso nessa tarefa".Mora, da Universidade Internacional da Flórida, disse à reportagem que integrantes do Pentágono lhe haviam confirmado a saída dos agentes de segurança cubanos da Venezuela.Questionado pela BBC News Mundo, um porta-voz do Departamento de Estado não forneceu informações concretas sobre o assunto, mas afirmou que, desde 3/1, havia ocorrido "uma mudança drástica nas relações entre EUA e Venezuela"."O que antes era um país dominado pelo socialismo, que priorizava as relações bilaterais com adversários do Ocidente, o país agora tem a democracia no horizonte. Conforme avançamos no plano de três fases, a perspectiva de uma região próspera enche americanos e venezuelanos de esperança", acrescentou o porta-voz. Getty Images Após a morte de 32 agentes cubanos no bunker de Maduro, Cuba reconheceu que mantinha agentes de segurança na Venezuela A presença de médicos cubanos na Venezuela, por sua vez, parece ter mudado pouco. É o que mostra uma investigação recente da Archivo Cuba, uma ONG que documenta violações de direitos humanos na ilha e a atuação do governo cubano em outros países."Constatamos que as missões médicas cubanas continuam funcionando em pelo menos 22 Estados da Venezuela. Segundo o governo de Cuba, depois dos terremotos, elas estavam presentes nos 24 Estados venezuelanos", contou Maria Werlau, diretora-executiva da Archivo Cuba, à BBC News Mundo.Segundo Werlau, o que mudou nos últimos meses foi o aumento do número de médicos cubanos que abandonaram o programa para "fugir para a Colômbia ou a Guiana" ou "se manter escondidos" na Venezuela.A embaixada de Cuba na Venezuela segue em atividade, mas não há registros públicos de encontros do embaixador com integrantes do grupo considerado o núcleo de poder do governo. Fazem parte dele Rodríguez, seu irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello. Muitos venezuelanos chamam os três de "triunvirato", ou seja, três pessoas que dividem o poder.Os comunicados sobre a Venezuela publicados pelo Ministério das Relações Exteriores de Cuba registram encontros do embaixador cubano com governadores, prefeitos, deputados venezuelanos e movimentos sociais.Quanto às viagens a Havana, antes frequentes entre os integrantes do governo Maduro, as autoridades cubanas divulgaram apenas uma neste ano. A visita ocorreu em abril e contou com a participação do ministro da Comunicação e Informação, Miguel Pérez Pirela.Nem aliados nem inimigos Getty Images A aliança entre Venezuela e Cuba nasceu da relação pessoal entre Hugo Chávez e Fidel Castro A aliança entre a Venezuela de Chávez e a Cuba de Fidel Castro se consolidou em torno da ideologia "anti-imperialista" dos dois governos e da oposição ao capitalismo e aos EUA.Sob essa perspectiva, o governo de Rodríguez mudou radicalmente de rumo ao se aliar ao governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, mantém suspenso o envio de petróleo a Cuba, num momento em que a ilha precisa desesperadamente desse combustível.Apesar dessa mudança radical — que alguns ativistas cubanos chamaram de "traição" nas redes sociais —, o governo de Díaz-Canel não criticou publicamente Rodríguez.A reação mais dura até agora foi um comentário no Facebook em que o ministro da Economia e do Planejamento de Cuba, Joaquín Alonso Vázquez, sugeriu que Rodríguez havia cometido uma "traição"."A traição só tem um nome: traição", escreveu o ministro ao comentar uma publicação que criticava Rodríguez por não reagir ao discurso de Trump na ONU, no qual o presidente americano chamou Maduro de "criminoso". A publicação foi posteriormente ocultada ou excluída. Getty Images O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, disse que a Venezuela era mais um país "amigo" do que um "aliado" Mas por que o governo cubano, conhecido pelos ataques verbais veementes a seus adversários políticos, não adota o mesmo tom com Rodríguez?Javier Corrales, professor de ciência política do Amherst College, nos EUA, acredita que Cuba sente falta da ajuda venezuelana no fornecimento de petróleo, mas não vê a Venezuela como inimiga."Não acho que tenha havido uma ruptura que implique necessariamente hostilidade. Deve ter havido um choque inicial enorme, mas penso que eles avaliam que, diante de tudo o que poderia ter dado errado, esse resultado não é tão ruim", disse Corrales à BBC News Mundo.Mora, da Universidade Internacional da Flórida, considera que Cuba está concentrada em sobreviver à própria crise e, ao mesmo tempo, compreende bem a pressão dos EUA sobre Rodríguez.Nesse contexto, Cuba também não tem nada a ganhar atacando a Venezuela, cujo governo deixou de ser seu aliado por força das circunstâncias.Nícmer Evans, cientista político venezuelano e editor da plataforma Punto de Corte, destaca que Cuba historicamente procura preservar os vínculos com seus aliados atuais, antigos e potenciais."Eles sempre vão tentar manter a relação ou recuperá-la. Talvez não estejam conseguindo chegar agora ao núcleo de poder do triunvirato, porque as circunstâncias evidentemente não ajudam, mas não acho que tenham abandonado os vínculos com setores do chavismo", disse Evans à BBC News Mundo.Essa estratégia de manter as portas abertas pode ser bastante útil no cenário atual. Uma mudança política na Venezuela não está garantida e uma eventual transição parece depender, em grande medida, da disposição do governo Trump de promovê-la.Sob essa perspectiva, Cuba e Venezuela estariam tentando ganhar tempo e resistir até uma mudança de governo em Washington D.C, capital americana. Sem Trump no poder, teriam a oportunidade de restabelecer os laços. O que a morte de 32 soldados de Cuba na invasão à Venezuela revela sobre aliança entre os dois paísesPor que é tão relevante o encontro entre Trump e presidente da Venezuela a 15 km de onde Maduro está preso'A próxima coisa que veremos é ação militar direta dos EUA em diferentes países', diz jornalista americano especializado em América Latina
Como a relação estratégica entre Cuba e Venezuela enfraqueceu após a captura de Maduro
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Correio Braziliense
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