Como a IA muda o trabalho no Brasil e por que jovens e mulheres estão mais expostos

 

Fonte:


Este conteúdo faz parte da newsletter IAí?, que existe para te guiar no universo da inteligência artificial. Assine aqui para receber quinzenalmente, às terças-feiras, no seu e-mail.

Neste momento, em algum lugar do mundo, alguém não tão genial assim está desenvolvendo uma ideia que a inteligência artificial diz que é “ótima”, a partir de uma linha de raciocínio que é “perfeita” e com perguntas "precisas". A predisposição a agradar, afinal, é parte de como esses sistemas foram treinados.

Anderson Soares, criador do primeiro curso de graduação em IA no Brasil, na Universidade Federal de Goiás (UFG), cita a tendência à “bajulação” para argumentar que o senso crítico é uma das habilidades fundamentais no trabalho com a inteligência artificial. Isso inclui capacidade de avaliar, questionar e corrigir:

— Diferentemente de outras ondas de transformação, a IA afeta a atividade intelectual Mas ela foi projetada para induzir a retenção do usuário e tem um viés de confirmação. Saber lidar com isso, é uma questão que se projeta daqui para frente — afirma o pesquisador, que é vice-presidente do grupo AI Brasil.

Initial plugin text

Em relatórios sobre habilidades do futuro, como do Fórum Econômico Mundial, "pensamento analítico" e "alfabetização tecnológica" costumam aparecer entre competências prioritárias para os trabalhadores na era da IA. Mas são diagnósticos que nem sempre refletem a realidade brasileira, diz a cientista da computação Nina da Hora:

— Eles falam para uma população em que a alfabetização básica é dada.No Brasil, de três em cada dez adultos são analfabetos funcionais, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional. A conversa sobre habilidades cognitivas avançadas se constrói sobre uma base que não existe para boa parte da força de trabalho aqui.

30 milhões de empregos

Assim como aconteceu com a chegada dos computadores de mesa nos escritórios a partir da década de 1980 e com a internet e as plataformas digitais após os anos 2000, a expectativa é que a IA reorganize a maneira como as pessoas trabalham. Em um estudo recente, pesquisadores do FGV-Ibre chamam esse processo de uma "reconfiguração do conteúdo do trabalho". Mas a mudança não é igual para todos.

Quer receber a newsletter de IA no seu e-mail? Inscreva-se no cardápio do GLOBO

A pesquisa indica que 30 milhões de trabalhadores, no Brasil, estão em ocupações com algum grau de impacto da IA, ou seja, com tarefas passíveis de automação. Ao todo, 5 milhões estão no nível mais elevado dessa incidência. Entre setores, os mais expostos são os trabalhadores de serviços financeiros (90,4%) e de informação e comunicação (80,8%). Os níveis mais baixos estão na agropecuária (1,5%) e construção (4%).

Jovens e mulheres são os grupos mais expostos. Entre elas, 35,4% estão em ocupações afetadas, ante cerca de 25% dos homens. Entre os jovens de 14 a 29 anos, a taxa chega a 35,9%, acima dos 25,7% entre trabalhadores com 60 anos ou mais.

A pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE, Janaína Feijó, explica que mulheres estão mais concentradas em setores como serviços e comércio, mais expostos à IA, e em funções com maior grau de repetição e operacionalização, o que aumenta a incidência de atividades automatizáveis.

— E os jovens acabam mais expostos por estarem, no início de carreira, geralmente em atividades que requerem menos habilidades socioemocionais e mais funções repetitivas e operacionais — acrescenta a economista, que é uma das autoras da pesquisa.

Adaptação à IA

Para chegar ao resultado, os pesquisadores do FGV IBRE usaram dados da PNAD Contínua, do IBGE, aplicados ao índice de exposição à IA elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Estar em uma ocupação altamente exposta à IA não significa perda de emprego, ressalta a Feijó. O indicador mede o potencial de automação das tarefas, incluindo o uso desses sistemas para aumentar a produtividade, o que poderia gerar ganhos econômicos.

Escrever ainda é humano? Explosão de textos gerados por IA pode mudar a linguagem

Em geral, trabalhadores mais escolarizados e em ocupações de maior remuneração são os que conseguem adaptar-se melhor a mudanças de tecnologia, incluindo a IA, ressalta a pesquisadora. A consequência é um potencial aumento da desigualdade na distribuição das ocupações.

Tania Casado, professora titular da FEA/USP, diz que a IA combina três características que ampliam seu impacto, em relação a ondas tecnológicas anteriores: é mais abrangente, mais rápida e avança sobre tarefas cognitivas, o que exige maior capacidade de adaptação:

— É uma adaptação que precisa ser cada vez mais constante porque a evolução da tecnologia é mais rápida — diz a professora, que é coordenadora dos Escritórios de Desenvolvimento de Carreiras da USP e da FIA.— E aí é preciso entender como se reorganizar, em um cenário sem regras claras ou manuais para o uso da IA e em que as carreiras são cada vez menos lineares.

As habilidades do futuro

Para Soares, a capacidade de lidar com inteligência artificial tende a se tornar uma habilidade digital essencial no mercado de trabalho. Isso não significa precisar dominar a tecnologia em nível técnico, mas saber utilizá-la de forma aplicada no dia a dia profissional, diz, assim como acontece hoje com outras ferramentas digitais.

Da perda de confiança ao cansaço: usar IA demais pode fazer mal para saúde mental?

Nina pondera que a discussão sobre futuro do trabalho frequentemente reduz a adaptação à uma questão individual que, na verdade, é coletiva. O debate sobre habilidades, por exemplo, costuma pressupor "um trabalhador formal, urbano, de colarinho branco", em um país em que quase 40% da força de trabalho está na informalidade.

— A habilidade verdadeiramente escassa é o julgamento crítico sobre a tecnologia, ou seja, saber quando usar, quando recusar, quando o resultado está sutilmente errado [...]. Esse julgamento não se forma com curso de seis horas, mas com educação humanística, leitura densa, capacidade de argumentação, contato com filosofia da técnica — ressalta.

A cientista da computação propõe eixos de atuação para formação em IA que passam por fortalecer a educação básica, integrar a IA ao ensino profissionalizante, criar programas de requalificação contínua para trabalhadores e alinhar a política industrial cadeia internacional da inteligência artificial.

Afinal, o que são agentes de IA? Entenda o que eles fazem e como testá-los

Pensar o lugar do Brasil na divisão internacional do trabalho também é central, dizem os pesquisadores. Sem avançar na produção de tecnologia, o país tende a se manter como consumidor de alta tecnologia e fornecedor de dados, destaca Soares.

— Eu estou convencido que é definitivamente a onda tecnológica mais transformadora que a gente vai passar. A velocidade é que é a grande dúvida — acrescenta o pesquisador.