Praticar esporte deveria significar movimento, lazer, saúde e bem-estar. Para muitas mulheres, porém, existe uma preocupação que começa antes mesmo de colocar o tênis ou entrar na academia: vou me sentir segura nesse lugar?
SIGA O OTD NO WHATSAPP, YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK.
A pergunta pode determinar onde, quando e com quem uma mulher pratica atividade física — e, em alguns casos, se ela vai praticar.
Um estudo publicado em 2025 analisou as barreiras enfrentadas por 414 corredoras de rua de Curitiba. Entre as participantes, 59,9% relataram ter sofrido algum tipo de assédio durante a corrida e 50,2% disseram não se sentir seguras quando corriam sozinhas. A pesquisa apontou a violência de gênero e a insegurança nos espaços públicos como barreiras estruturais ao acesso das mulheres ao esporte.
O problema, portanto, não é simplesmente uma mulher “não gostar de correr sozinha”. Existe uma experiência social por trás dessa escolha.
Mais sobre treinoBem-Estar Todo DiaSão Silvestre 2026: como se preparar para os 15 kmBem-Estar Todo DiaAgachamento na parede: como fazer e benefícios do exercícioBem-Estar Todo DiaÁlcool e treino: como a bebida pode atrapalhar sua recuperaçãoBem-Estar Todo DiaPor que o calor faz seu treino parecer muito mais difícil?
O esporte começa antes do treino
Para quem corre, caminha ou pedala na rua, a escolha do percurso pode levar em consideração muito mais do que distância e qualidade do piso.
Iluminação, movimento de pessoas, possibilidade de pedir ajuda, presença de estabelecimentos abertos e horário do dia podem entrar na decisão.
Uma revisão sistemática publicada recentemente analisou 50 estudos sobre a percepção de segurança das mulheres em espaços urbanos e identificou a influência de fatores individuais, sociais, ambientais e temporais nessa sensação. O trabalho também destaca que a percepção de insegurança pode limitar o uso de espaços públicos e, consequentemente, os benefícios sociais e físicos proporcionados por eles.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem olhar para o mesmo parque e ter experiências completamente diferentes.
Para uma mulher, um lugar aparentemente adequado para correr pode representar a necessidade de fazer escolhas adicionais sobre horário, roupa, trajeto e companhia.
Quando o assédio muda a rotina
O problema não termina quando a mulher decide praticar o esporte.
A experiência de assédio pode fazer com que ela mude o horário do treino, abandone determinado percurso ou procure sempre alguém para acompanhá-la.
A pesquisa da Sport England divulgada em 2026 encontrou situação semelhante em academias e centros de lazer. Entre mulheres de 16 a 34 anos, 19% disseram sentir-se desconfortáveis ou inseguras nesses ambientes pela possibilidade de sofrer assédio ou intimidação. Além disso, 86% relataram ter experimentado algum tipo de assédio ou intimidação nos três anos anteriores.
Entre as mulheres que frequentavam esses espaços, 62% disseram ter mudado algum comportamento depois de vivenciar ou testemunhar situações desse tipo. As mudanças incluíram evitar determinados horários, áreas frequentadas por mais homens, determinadas roupas e até ir ao local sozinha.
Ou seja, o comportamento muda mesmo quando a mulher continua praticando esporte.
O custo invisível da insegurança
Existe uma consequência que não aparece em uma ficha de inscrição ou em uma estatística de frequência.
É o esforço necessário para conseguir praticar.
Escolher um percurso considerado mais seguro. Avisar alguém sobre o trajeto. Evitar determinados horários. Procurar uma amiga para acompanhar. Deixar de correr quando escurece. Trocar um parque por uma academia. Ou simplesmente desistir naquele dia.
Pesquisadores que estudaram corredoras também descrevem esse processo como um tipo de “trabalho de segurança”: uma série de avaliações e estratégias realizadas pelas próprias mulheres para reduzir o risco de sofrer alguma violência ou abordagem indesejada.
Isso significa que duas pessoas podem fazer o mesmo treino, mas uma delas precisa dedicar uma quantidade muito maior de energia mental para conseguir realizá-lo.
Não é apenas medo de violência física
Quando se fala em segurança, é comum pensar apenas em assaltos ou agressões.
Mas a experiência esportiva das mulheres também pode ser afetada por formas de assédio que não necessariamente chegam a uma agressão física.
Comentários sobre o corpo, olhares insistentes, perseguição, abordagens indesejadas, gravações sem consentimento e invasão do espaço pessoal também podem produzir desconforto e sensação de vulnerabilidade.
Um estudo sobre mulheres que praticam exercícios em academias encontrou justamente essa combinação de problemas: julgamento sobre aparência e desempenho, assédio, dificuldades para ocupar espaços e sensação de estar constantemente sendo observada.
O efeito pode ser particularmente forte quando a mulher já está começando uma atividade e ainda não desenvolveu confiança naquele ambiente.
A roupa também pode virar uma preocupação
Uma das consequências mais simbólicas da insegurança é quando a mulher começa a escolher a roupa pensando menos no conforto para praticar esporte e mais em como evitar chamar atenção.
A pesquisa da Sport England mostrou que 29% das mulheres que mudaram algum comportamento após situações de assédio passaram a evitar determinadas formas de se vestir. O mesmo percentual relatou evitar certos horários ou áreas dos centros esportivos onde havia mais homens.
Isso mostra que o problema não está necessariamente na roupa ou no comportamento da mulher.
O problema é quando ela sente que precisa modificar sua maneira de praticar esporte para tentar evitar uma situação de assédio.
O espaço esportivo também precisa fazer sua parte
Se a insegurança é uma das barreiras à participação, a solução não pode depender exclusivamente da mulher.
Academias, clubes, parques, organizadores de corridas, federações e gestores públicos também têm responsabilidade na criação de ambientes mais seguros.
Em março de 2026, o Ministério do Esporte anunciou um acordo com o Instituto Glória para desenvolver ações de prevenção e enfrentamento ao assédio, à discriminação e à violência contra mulheres no contexto esportivo. A iniciativa prevê campanhas, capacitação de profissionais e fortalecimento de mecanismos de denúncia e acolhimento.
No Rio Grande do Norte, uma lei estadual sancionada em 2025 estabeleceu que academias e estabelecimentos de atividade física devem notificar as autoridades competentes em casos de assédio contra mulheres. A norma também determina respeito ao relato da vítima e preservação de sua dignidade e integridade física e psicológica.
São exemplos de uma mudança importante: a segurança deixa de ser tratada apenas como uma preocupação particular de quem pratica esporte e passa a ser uma responsabilidade também de quem administra esses espaços.
Iluminação e estrutura também fazem diferença
A sensação de segurança não depende apenas da presença de policiais ou câmeras.
O desenho do espaço pode contribuir para que uma mulher se sinta mais ou menos confortável praticando atividade física.
Iluminação adequada, visibilidade, caminhos bem conectados, circulação de pessoas, acesso ao transporte e possibilidade de encontrar ajuda são alguns dos fatores considerados pela literatura sobre segurança feminina em espaços públicos.
Um parque pode ser excelente para caminhada durante o dia e se tornar pouco utilizado por mulheres em determinados horários simplesmente porque o ambiente não oferece a mesma sensação de segurança.
Por isso, pensar em esporte também significa pensar em urbanismo.
A insegurança pode limitar os benefícios do esporte
A atividade física oferece benefícios físicos, emocionais e sociais. O próprio Ministério da Saúde destaca que a prática regular pode contribuir para a qualidade de vida, saúde mental, sono e fortalecimento dos vínculos sociais.
Quando uma mulher deixa de caminhar, correr, pedalar ou frequentar uma academia porque não se sente segura, ela não perde apenas uma oportunidade de fazer exercício.
Pode perder também um espaço de convivência, lazer, autonomia e bem-estar.
É justamente essa dimensão que torna a questão da segurança uma pauta de saúde pública e não apenas uma questão de preferência pessoal.
O que pode ajudar enquanto os espaços não mudam?
Embora a responsabilidade pela segurança não seja da mulher, algumas estratégias podem reduzir a exposição a situações de risco enquanto mudanças estruturais não acontecem.
Praticar em horários e locais nos quais a pessoa se sinta confortável, preferir ambientes com circulação de pessoas, combinar treinos com amigas ou grupos e conhecer previamente o percurso são possibilidades.
Mas essas medidas devem ser entendidas como formas de ampliar a autonomia, e não como obrigação.
A mulher não deve ser responsabilizada por sofrer assédio porque correu sozinha, escolheu determinado horário ou estava usando determinada roupa.
A responsabilidade pelo assédio é de quem assedia.
Segurança também significa poder escolher
A verdadeira inclusão no esporte não acontece apenas quando existe uma modalidade disponível ou uma academia próxima de casa.
Ela acontece quando a pessoa consegue escolher como, quando e onde praticar.
Para muitas mulheres, essa liberdade ainda é limitada pela necessidade de calcular riscos que homens frequentemente não precisam considerar da mesma maneira.
Os dados das corredoras de Curitiba mostram que a questão também está presente no Brasil: quase seis em cada dez participantes do estudo relataram ter sofrido assédio durante a corrida, enquanto metade não se sentia segura correndo sozinha.
A solução não é convencer mulheres a serem mais corajosas.
É criar condições para que elas não precisem escolher entre praticar esporte e se sentir seguras.
Porque uma cidade, uma academia, um parque ou um clube só pode ser considerado verdadeiramente acessível ao esporte quando mulheres conseguem ocupar esses espaços com liberdade, respeito e tranquilidade.
O post Como a falta de segurança afasta mulheres do esporte apareceu primeiro em Olimpíada Todo Dia.
Olimpiada Todo Dia