Como a CNH superou a crise no seu principal mercado apostando em inovação de ponta - QTU Questões do Universo

Como a CNH superou a crise no seu principal mercado apostando em inovação de ponta

Fonte: Bandeira da fonte

A CNH foi buscar no exterior ideias inovadoras com potencial aplicação por uma fabricante de máquinas agrícolas no Brasil
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A grande novidade nas ruas brasileiras é o avanço dos veículos elétricos ou eletrificados, que já representam mais de um quinto dos emplacamentos.
Fora dos centros urbanos – nas estradas, fazendas e portos, nas áreas de mineração e dentro das fábricas –, a alta no preço do óleo diesel pressionou as margens das empresas, acelerando a adoção de biocombustíveis, como o etanol.
As cinco empresas mais bem colocadas do setor automotivo na pesquisa do anuário Valor Inovação Brasil 2026 se destacam pelas tecnologias que desenvolvem para atender às demandas do setor – e, muitas vezes, antecipar-se a elas.
CNH e AGCO fabricam maquinário para o agronegócio.
Robert Bosch e Baterias Moura, tradicionais fornecedoras de peças e sistemas para carros de passeio com motor a combustão, investem em sistemas para eletrificação e em novas fronteiras dos motores.
Maior fabricante de automóveis do país, o grupo Stellantis – dono de marcas como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e RAM – chegou ao quinto lugar com inovações brasileiras para a mobilidade híbrida.
O empenho em atender à necessidade dos clientes por mais eficiência, além de fazer avançar a criação de uma economia menos intensiva em carbono, levou o setor a colocar nada menos que três empresas entre as 10 mais inovadoras do Brasil.

Campeã do setor, a CNH opera num momento adverso.
“Nossa indústria está bastante afetada pela crise da agricultura, que é o maior negócio da nossa companhia”, diz Rafael Miotto, presidente da empresa na América Latina.
A crise a que o executivo se refere decorre de uma superposição de fatores ruins para os produtores rurais: juros altos, preços de insumos em alta, cotação da soja em baixa, barreiras comerciais e um grande atraso na adaptação do setor à crise climática.
A resposta da CNH, segundo Miotto, foi o oposto do que o senso comum sugeriria.
Em vez de cortar despesas, o time propôs projetos de inovação para reduzir o custo fixo.
Maria Fernanda Delmas entrega o prêmio a Rafael Miotto, presidente da CNH para a América Latina
Ana Paula Paiva/Editora Globo
Um exemplo de inovação guiada por eficiência e pragmatismo é a aposta da CNH em drones de pulverização – tecnologia que, até 2024, estava fora do escopo tradicional de trabalho da companhia.
A CNH firmou aliança com uma fabricante chinesa especializada em agricultura, co-desenvolvendo sistemas que integram as pequenas aeronaves à sua linha de máquinas e incorporam plataformas de agricultura de precisão e inteligência artificial.
“A gente poderia ter entendido o drone como uma ameaça aos nossos pulverizadores terrestres – ou como um fenômeno que interessa ao nosso cliente”, diz Miotto.
A segunda alternativa prevaleceu.
A iniciativa faz parte de uma mudança cultural mais ampla na empresa, que eliminou processos manuais em planilhas e investiu em software de agricultura de precisão para facilitar o acesso dos agricultores a dados mais confiáveis.
A Robert Bosch, segunda colocada, se faz presente em praticamente todas as frentes de transformação do setor.
No segmento de veículos de passeio, a empresa lidera o desenvolvimento de motores híbridos flex – que combinam propulsão elétrica com motores a combustão capazes de rodar com etanol.
A exemplo da CNH, a fornecedora recebe de braços abertos o avanço de marcas chinesas no mercado brasileiro.
“Somos uma referência global, com presença na China.
Temos ganhado praticamente todos os projetos do mercado para transformar híbridos em híbridos flex”, afirma Gastón Diaz Perez, presidente e CEO da Bosch na América Latina.
A aposta mais relevante da Bosch vai além do carro de passeio.
A filial brasileira tornou-se o hub global de inovação em agronegócio da companhia.
A posição foi conquistada por uma razão objetiva: o Brasil representa apenas 3% a 4% da produção mundial de automóveis, mas quase 20% da exportação global de grãos.
Entre os produtos desenvolvidos no Brasil para o mundo estão plantadeiras inteligentes e sistemas de pulverização com câmeras que, percorrendo o terreno a 20 quilômetros por hora, distinguem ervas daninhas de plantas cultivadas e aplicam agroquímicos apenas onde necessário.
No segmento de veículos pesados, a Bosch lançou neste ano uma tecnologia diesel-etanol que permite substituir entre 35% e 40% do consumo de diesel por etanol em motores de caminhões, tratores e colheitadeiras – com picos de até 60% em determinadas condições, sem perda de potência.
Há poucos anos, considerava-se o etanol inadequado para movimentar máquinas pesadas.
A chegada ao mercado ganhou aceleração com uma estratégia via retrofit: em vez de projetos longos com montadoras, a Bosch adaptou motores já existentes, comprovou a tecnologia na prática e agora expande para diferentes motorizações.
A Moura, terceira colocada, produz anualmente cerca de 12 milhões de baterias – atualmente, seis em cada dez veículos fabricados no Brasil e na Argentina saem de fábrica com seus produtos.
Com o avanço dos modelos eletrificados, a empresa decidiu não apenas adaptar seu portfólio, mas estruturar uma cadeia nacional para sustentar a mudança.
Nos últimos dez anos, investiu R$ 3,6 bilhões em crescimento industrial, novas unidades fabris e expansão tecnológica.

O projeto mais emblemático desse ciclo é o desenvolvimento de baterias de lítio de 12V e 48V para veículos híbridos, conduzido em aliança com montadoras, fabricantes de autopeças, startups e instituições como Senai, universidades públicas e o seu Instituto Tecnológico Edson Mororó Moura (ITEMM).
O esforço resultou numa linha híbrida de desenvolvimento e validação de baterias, num sistema nacional de gerenciamento de baterias (BMS) e em ambientes de experimentação tecnológica voltados à indústria do futuro.
“A Moura garante espaço para a inovação quando conecta o investimento tecnológico à estratégia de longo prazo dos negócios”, afirma Elisa Correia, diretora-presidente da Rede Moura.
A companhia mantém ainda o Programa Ambiental Moura (PAM), que responde atualmente pela reciclagem de 140 mil toneladas de baterias anualmente.
A iniciativa foi reconhecida este ano como destaque pela Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI).
A AGCO, quarta colocada, aumentou seus investimentos em engenharia e P&D em 60% desde 2020, com aproximadamente 65% dos recursos direcionados para máquinas inteligentes e combustíveis alternativos.
No Brasil, a engenharia local praticamente dobrou de tamanho nos últimos três a quatro anos e passou a ser referência para as operações do grupo na Argentina, no México, na Índia e na China.
“Inovação deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade estratégica”, diz Fabricio Natal, vice-presidente de Engenharia para a América Latina e APA (Ásia, Pacífico e África) da AGCO.

Natal, da AGCO: equipe de engenharia no Brasil quase dobrou de tamanho desde 2022
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Dois produtos recentes ilustram a abordagem.
Plantadeiras inteligentes da empresa incorporam sensores, controle embarcado e ajuste automático em tempo real para corrigir problemas como profundidade inconsistente e compactação do solo – os resultados em campo mostram ganhos de produtividade de 4,5% em soja e de 2,3% a 2,5% em milho, o que pode representar cerca de 180 quilos a mais por hectare.
O pulverizador de barra longa, desenvolvido com materiais metálicos e fibra de carbono para garantir estabilidade em 42 metros de extensão, registrou ganhos de 40% em produtividade operacional e redução de quase 25% no consumo de combustível.
A AGCO também mantém parcerias com ITA, Unesp e universidades federais do Sul do país, e criou um programa interno de geração de patentes – o Inova AGCO – que neste ano identificou cerca de 70 ideias com potencial de registro.
A Stellantis acelera os depósitos de patentes de invenção no Brasil
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A Stellantis, quinta colocada na pesquisa, é a empresa com maior número de depósitos de patentes de invenção no Brasil, segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Em 2025, foram 225 depósitos – crescimento de 21,6% sobre o ano anterior.
A montadora participa do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) e fabrica modelos com tecnologia MHEV – híbrido leve, em que um motor elétrico auxilia o motor a combustão em partidas e acelerações, com redução de consumo de combustível que pode superar 20%.
“Cada patente retrata o conhecimento desenvolvido localmente e amplia a competitividade da indústria brasileira em um cenário de transformação da mobilidade”, afirma Toshizaemom Noce, gerente de Engenharia Avançada da Stellantis.
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