Como a classificação indicativa 'PG-13' do Instagram gerou uma crise com a Motion Picture Association dos EUA
No ano passado, o Instagram anunciou medidas na esperança de tranquilizar os pais, enquanto enfrentava críticas sobre a segurança de crianças na plataforma. As novas restrições de conteúdo seriam guiadas pela classificação PG-13, usada há muito tempo pela indústria cinematográfica nos EUA. Em outras palavras, os adolescentes só deveriam ser expostos ao tipo de conteúdo permitido em filmes como "Barbie" ou "Superman".
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Restrições com base na classificação etária de filmes: Instagram vai limitar conteúdo para adolescentes
O plano logo encontrou um obstáculo. A Motion Picture Association (MPA), que opera o sistema de classificação de filmes e detém a marca registrada do selo PG-13, se opôs veementemente ao uso e sinalizou a intenção de entrar com um processo contra a Meta.
Após meses de tensões, a MPA anunciou nesta terça-feira que o Instagram havia desistido da classificação PG-13. O comunicado inclui uma declaração da Meta, proprietária do Instagram, na qual a empresa afirmou estar "satisfeita por ter chegado a um acordo com a MPA".
Como parte do acordo, o Instagram adicionará um aviso legal aos seus materiais de marketing, esclarecendo que não colaborou com a indústria cinematográfica na formulação de suas restrições. "Não trabalhamos com a MPA ao atualizar nossas configurações de conteúdo", diz o aviso, "e eles não estão classificando nenhum conteúdo no Instagram, nem endossando ou aprovando nossas configurações de conteúdo de nenhuma forma." O Instagram, afirma o comunicado, apenas “se inspirou” nas classificações indicativas de filmes.
A retratação é o mais recente revés para a Meta, que busca se defender das críticas sobre a segurança infantil. Em março, um júri no Novo México considerou que a empresa enganou os consumidores sobre a segurança de suas plataformas para usuários menores de 18 anos. No dia seguinte, um júri na Califórnia considerou que a empresa promoveu tecnologias viciantes que contribuíram para a ansiedade e depressão de um jovem usuário.
A Meta tem afirmado que trabalhou arduamente ao longo dos anos para estabelecer proteções para adolescentes e limitar o que eles veem enquanto navegam por “conteúdo apropriado para a idade”. Mas a empresa reconheceu um problema de comunicação.
Após o Instagram analisar o feedback dos pais, Adam Mosseri, seu CEO, disse em outubro que a empresa poderia explicar de forma mais clara o que significava “conteúdo apropriado para a idade”.
Assim, a empresa recorreu à MPA — o principal grupo de lobby de Hollywood e uma organização com mais experiência no setor de entretenimento, que começou a ser questionada muito antes da era da internet sobre como seu produto poderia influenciar as mentes jovens.
Um marcador familiar
A classificação PG-13 existe desde 1984. A MPA introduziu a novidade após décadas de debate sobre o quanto a indústria cinematográfica deveria restringir o conteúdo sexual e violento para jovens espectadores.
Com o intuito de "alertar fortemente" os pais de crianças menores de 13 anos, a classificação tornou-se o marcador de filme que poderiam trazer um pouco de sexualidade e nudez ("Diário de uma paixão", por exemplo) e alguma violência sem que ela se torne muito gráfica (pense em "M3gan", mas não em "Jogos Mortais"). Ao longo dos anos, os filmes PG-13 ganharam um apelo comercial, dando aos cineastas um incentivo econômico para respeitarem as limitações da MPA.
O sistema de classificação enfrentou suas próprias controvérsias ao longo dos anos. Alguns o consideram puritano e sufocante para a criatividade, outros excessivamente permissivo. Mas ele perdurou, mesmo com a internet transformando o consumo de mídia infantil.
Para o Instagram, o principal atrativo da classificação PG-13 seria o amplo reconhecimento da marca.
Nudez e palavrões
Em algumas áreas, os padrões do Instagram já eram rigorosos, segundo representantes da empresa. Era política da companhia ocultar de adolescentes conteúdo que mostrasse nudez parcial, poses sexualmente sugestivas ou violência — elementos presentes em filmes com classificação indicativa de 13 anos.
Uma área com a qual o Instagram teve que lidar foi a linguagem chula. A empresa se baseou em uma regra antiga da Comissão de Classificação de Filmes, que permite, em geral, uma única menção da palavra "fuck" em filmes com essa classificação.
Mas essa regra, instituída para filmes com duração típica de 90 minutos a duas horas, precisaria ser adaptada para um formato de vídeos curtos. Cada Reel do Instagram, que pode ter apenas alguns segundos, deveria ter permissão para usar a palavra uma vez? Esse tipo de palavrão deveria ficar oculto?
"Chegamos a um meio-termo", disse Liz Arcamona, diretora de políticas de produto do Instagram, em uma entrevista no ano passado, por volta da época em que a empresa estava implementando a nova política. As contas para adolescentes não ocultariam completamente o conteúdo com palavrões, disse ela, mas evitariam recomendá-lo aos usuários.
Arcamona e seus colegas também consideraram se os adolescentes deveriam ter permissão para assistir a vídeos do que chamam de "acrobacias arriscadas". Em filmes, acrobacias como Tom Cruise saltando com sua motocicleta de um penhasco são apropriadas para menores de 13 anos. Mas quando um vídeo é mais realista, assemelhando-se a uma manobra amadora que um adolescente pode querer imitar, os pais tendem a se preocupar mais. O Instagram decidiu evitar recomendar esse tipo de conteúdo para usuários adolescentes.
Para identificar aqueles que possam tentar burlar o sistema, os responsáveis pelo Instagram afirmaram que o aplicativo usa modelos de previsão de idade para avaliar se um usuário é adolescente; o aplicativo então solicita que ele verifique sua idade.
Embora alguns pais se sentissem mais tranquilos com a política implementada, outros a enxergaram como uma tática de marketing. Abraham Naldjian, de 41 anos, que proibiu sua filha de baixar o Instagram antes dos 16, disse que, embora considerasse a comparação com a classificação indicativa de filmes uma jogada inteligente da empresa de mídia social, não estava convencido de que isso tornaria o aplicativo mais seguro. "Parece mais que eles estão tentando pegar carona no sucesso da indústria cinematográfica", afirmou.
Mídia Tradicional vs. Nova Mídia
O lançamento da classificação indicativa PG-13 do Instagram em outubro passado incluiu um evento promocional em Nova York e posts patrocinados por influenciadores digitais especializados em parentalidade. Um deles comparou as restrições de conteúdo do aplicativo a um pai tapando os olhos do filho durante um filme. Um anúncio do Instagram mostrava dois adolescentes em um cinema, compartilhando uma tigela de pipoca e um smartphone.
E a Ipsos publicou os resultados de uma pesquisa encomendada pela Meta com mil pais americanos, que revelou que 90% dos entrevistados consideraram que a classificação PG-13 facilitou a compreensão do tipo de conteúdo que seus filhos adolescentes provavelmente veriam no Instagram.
"Meu primeiro pensamento foi: 'Será que eles conversaram com a MPA sobre isso?'", disse Betsy Bozdech, diretora editorial da Common Sense Media, que utiliza seu próprio sistema de classificação para televisão e cinema. "Acontece que não."
Pouco depois do lançamento, a MPA — cujos membros incluem grandes estúdios de cinema como Universal, Disney e Sony — enviou à Meta uma notificação extrajudicial exigindo que a empresa “desassociasse imediata e permanentemente” suas ferramentas de restrição de conteúdo da classificação indicativa PG-13.
Ficou claro pela carta que Hollywood não tinha interesse em se associar às políticas de uma empresa de tecnologia sob fogo cruzado em várias frentes.
A carta citava um relatório de 2025 que criticava a eficácia das ferramentas de restrição de conteúdo do Instagram, afirmando que, durante os testes de contas para adolescentes realizados por pesquisadores alguns conteúdos sexuais passaram despercebidos, assim como conteúdos relacionados a distúrbios alimentares ou automutilação e vídeos de ferimentos graves. Um porta-voz da Meta disse na época da publicação do relatório que ele “distorce repetidamente nossos esforços para empoderar os pais e proteger os adolescentes”.
A carta da MPA também buscava afastar o uso de inteligência artificial pelo Instagram das práticas de seu conselho de classificação, que emprega dez pais que assistem aos filmes e votam em uma classificação entre Livre e NC-17. Esse tipo de sistema não é viável no vasto mundo do conteúdo gerado pelos internautas.
“Qualquer insatisfação com a classificação automatizada da Meta inevitavelmente levará o público a questionar a integridade do sistema de classificação da MPA”, escreveu Naresh Kilaru, advogado da organização.
Inicialmente, a Meta reagiu. Em um comunicado a diversos veículos de comunicação, a empresa afirmou que nunca alegou que suas ferramentas de restrição de conteúdo fossem certificadas pela MPA.
Representantes da Meta também ressaltaram que, embora suas ferramentas dependam de inteligência artificial — além da revisão humana —, a empresa também entrevistou dezenas de milhares de pais ao redor do mundo, pedindo que visualizassem conteúdo do Instagram e decidissem se era apropriado para adolescentes.
Mas a Meta estava diante da possibilidade de mais um processo judicial de grande repercussão. No final de dezembro, a empresa começou a remover de seu site qualquer menção à classificação PG-13.
As equipes jurídicas de ambas as organizações negociaram a questão ao longo de vários meses e, em fevereiro, participaram de uma sessão conduzida por um mediador independente, segundo duas pessoas familiarizadas com as negociações. Em março, as duas partes chegaram a um acordo que envolveu o distanciamento da Meta do selo PG-13.
“Embora apoiemos os esforços para proteger as crianças de conteúdo que possa não ser apropriado para elas, este acordo ajuda a garantir que os pais não confundam os dois sistemas — que operam em contextos muito diferentes”, disse Charles Rivkin, presidente e CEO da MPA, em um comunicado à imprensa divulgado na terça-feira.
Uma declaração da Meta no comunicado afirmou que o acordo não alteraria suas políticas de conteúdo, que foram “rigorosamente revisadas” de acordo com os critérios de classificação de filmes.
“Embora isso não mude”, diz a declaração, “levamos em consideração o feedback da MPA sobre como abordamos esse trabalho”.
