Como a Casa Branca usou espiões da CIA para derrubar governo do Irã

 

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Donald Trump não esconde o desejo de promover uma mudança de regime no Irã. Desde o último sábado, Estados Unidos e Israel realizam uma grande ofensiva contra, bombardeando bases militares e instalações de infraestrutura iraniana. Esse é o maior ataque já realizado pela Casa Branca no país asiático, mas não é a primeira operação americana com objetivo de trocar a cúpula do poder naquele território. Em 1953, o Tio Sam derrubou um governo iraniano fazendo bem menos alarde.

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Muito antes de Trump, a Casa Branca já se reservava o direito de alterar o rumo de outras nações em nome de seus interesses, mas o fazia de forma um tanto mais discreta, enviando espiões da Agência Central de Inteligência (CIA) para forjar golpes de estado. No caso do Irã, o golpe planejado, financiado e executado pelos governos dos EUA e do Reino Unido em 1953 foi detalhadamente registrado em documentos oficiais divulgados décadas mais tarde pela imprensa e pela própria Casa Branca.

"Uma vez determinado que não era do interesse americano que o governo Mossadegh continuasse no poder e a CIA foi assim informada pelo Departamento de Estado em março de 1953, a CIA começou a delinear um plano por meio do qual os objetivos acima citados poderiam ser alcançados através de uma ação oculta", diz um relatório redigido pela própria agência sobre a chamada Operação Ajax.

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O Irã vivia o período mais democrático da sua história. O primeiro-ministro Mohammed Mossadegh havia sido eleito pelo Congresso em 1951 com uma plataforma nacionalista. Ele defendia que o país tomasse o controle de suas riquezas naturais, então nas mãos de empresas britânicas. Logo após sua chegada ao poder, o parlamento iraniano aprovou com quase unanimidade o plano de Mossadegh de nacionalizar a estrutura de exploração do petróleo, extinguindo a Anglo-Iranian Oil Company.

A medida transformou o primeiro-ministro em um herói da luta contra o imperialismo do Ocidente. Em 1952, a famosa revista "Time", dos Estados Unidos, estampou uma imagem do líder iraniano na sua capa como o "Homem do Ano". Contudo, a nacionalização do petróleo enfureceu as elites europeias.

Mossadegh na capa da revista "Time" em 1952

Reprodução

Na época, o Irã era governado por uma monarquia constitucional. Ou seja, o xá Reza Pahlavi estava no poder, mas ele deveria respeitar as decisões do primeiro-ministro e do parlamento. O Reino Unido bem que tentou apelar para o xá, pedindo intervenção contrária à nacionalização, mas foi em vão. Pahlavi era aliado das elites ocidentais, mas ele não tinha crachá para vetar uma medida do governo aprovada pelo Congresso. Até porque teria que se opor ao clamor popular que aprovava aquela mudança.

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De bate pronto, o governo britânico impôs um embargo econômico ao Irã como retaliação, mas não teve o apoio dos Estados Unidos, que temiam uma aproximação do país com a União Soviética em plena Guerra Fria. Em 1953, porém, os ingleses convenceram a Casa Branca a se engajar em um golpe de estado no Irã alegando que a nacionalização do petróleo evidenciava ligações entre Mossadegh e o Tudeh, partido comunista iraniano apoiado pelos soviéticos. Acertaram em cheio no argumento.

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Os EUA tomaram a frente da operação. De acordo com os relatórios liberados a partir do ano 2000, agentes da CIA começaram o "trabalho" conduzindo esforços de propaganda, por meio da imprensa e da distribuição de panfletos, "numa campanha para enfraquecer o governo Mossadegh de qualquer forma possível". O documento relata que, para ajudar no plano, os espiões americanos cooptaram o general Fazlollah Zahedi, opositor do governo e "escolhido" como sucessor ideal do líder deposto.

Manifestação de apoio a Mossadegh em 1953

Reprodução/Wikipedia

Caberia a Zahedi arregimentar apoio militar e político ao golpe, assim como líderes religiosos foram contatados para garantir a adesão entre os clérigos. Mas também era de suma importância que o xá Pahlavi embarcasse na trama. Para isso, segundo o relatório, os agentes da CIA acionaram a autora Ashraf Pahlavi, irmã gêmea do monarca, que voou da Europa a Teerã com a missão de convencer o irmão a assinar documentos exonerando o primeiro-ministro no momento adequado.

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Já nos Estados Unidos, a CIA e o Departamento de Estado plantaram na mídia uma série de artigos com críticas a Mossadegh. Traduzidas no Irã, as publicações ajudaram a prejudicar a imagem do governo. Paralelamente, representantes da Casa Branca jogavam lenha na fogueira. O relatório da agência cita, por exemplo, a publicação de uma carta do próprio presidente Eisenhower, em junho de 1953, informando o primeiro-ministro de que o Tio Sam não enviaria ajuda financeira ao país.

Semanas depois, o então secretário de Estado, John Foster Dulles, manifestou em entrevista coletiva que a Casa Branca estava preocupada com as "crescentes atividades do partido comunista ilegal do Irã e a tolerância por parte do governo iraniano". Eram os EUA contribuindo para "fritar" Mossadegh.

Mossadegh passou o resto da vida em prisão domicilar

Àquela altura, a popularidade do primeiro-ministro vinha mesmo perdendo força. A difícil situação econômica do Irã, bastante combalido pelo embargo britânico, desgastou a reputação de Mossadegh. Com obstáculos para governar, ele passou a tomar medidas consideradas autoritárias, mandando prender opositores e idealizando um referendo para votar a dissolução do Congresso, contrariando, assim, a Constituição do Irã, segundo a qual apenas o Xá tinha esse poder.

As rivalidades políticas na população já vinham se tornando inflamadas, e, em agosto de 1953, as ruas de Teerã viraram cenário de choques intensos entre apoiadores do Xá e do primeiro-ministro. Cerca de 300 pessoas morreram na fase mais aguda do golpe em andamento, segundo estimativas.

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O clima de insatisfação favoreceu a deposição do governo, assinada pelo Xá Pahlavi. Na sequência, alguns membros do governo deposto foram presos, torturados e até mesmo executados. Em dezembro de 1953, o próprio ex-primeiro-ministro foi condenado a três anos de reclusão em uma prisão solitária militar. Depois da pena, Mossadegh ainda foi obrigado a ficar em prisão domiciliar, onde viveu até março de 1967, quando morreu vítima de um câncer.

Depois do golpe, o xá Pahlavi retomou o poder no Irã e governou o país com mão de ferro durante 26 anos em proximidade com a Casa Branca e os governos europeus. Entretanto, a intervenção de 1953 deu início a uma onda crescente de ressentimento contra os Estados Unidos entre os opositores da ditadura local. A panela de pressão explodiu na Revolução Islâmica de 1979, quando muçulmanos fanáticos derrubaram o governo e levaram ao poder um governo de clérigos anti-americanos.