A Afya, um dos maiores ecossistemas de educação e soluções para a prática médica do Brasil, testa há anos uma tese que parte de um pressuposto simples: se um médico passa a pesquisar mais sobre determinado sintoma ou tratamento em uma mesma região, isso pode ser sinal de que algo está circulando ali antes mesmo dos boletins oficiais confirmarem. É esse o princípio por trás do Radar Whitebook, ferramenta de machine learning construída sobre os dados de consumo de conteúdo do aplicativo Whitebook, usado mensalmente por cerca de 200 mil médicos no país. "A gente já pegou antecipadamente um crescimento de casos de dengue em São Paulo, pegou o crescimento de casos de leptospirose no Rio Grande do Sul depois do infeliz desastre que a gente teve lá em Porto Alegre", afirma Lelio Souza Jr., vice-presidente de Soluções para Práticas Médicas da Afya, em entrevista à Época NEGÓCIOS.
Segundo ele, o mesmo modelo também apontou anomalias no norte do país, ligadas à crise da mandioca brava. "A gente começa a entender, com base no uso da solução do Whitebook, os maiores consumos, e isso me leva a identificar os principais tratamentos que estão sendo feitos em pronto-socorro." Lelio Souza Jr, VP de Soluções de Práticas Médicas da Afya Getty Images O Radar Whitebook ilustra um movimento mais amplo dentro da companhia, que soma três unidades de negócio — graduação em medicina, com 33 unidades no país; pós-graduação e educação continuada; e soluções digitais para consultórios, clínicas e prontos-socorros.
Segundo Souza Jr., a inteligência artificial já estava presente havia anos em modelos de machine learning como o do Radar, mas ganhou nova camada com a chegada da IA generativa, incorporada tanto a produtos voltados a médicos e estudantes quanto a processos internos da empresa, como assistentes de atendimento a funcionários. Tecnologia atua como assistente em consultas Entre os produtos com IA generativa está o Whitebook Assist, que substitui a busca tradicional baseada em menus e categorias por um assistente conversacional. "Para aquele médico que está no pronto-socorro atendendo um paciente, a rapidez do acesso à informação de qualidade naquele momento é muito relevante", diz o executivo.
Já no iClinic, sistema de prontuário eletrônico da companhia, um assistente pode transcrever automaticamente a consulta — com autorização do paciente — e gerar o registro clínico, liberando o médico para se dedicar ao atendimento em vez de dividir a atenção com anotações. Os números batem com o que aparece no levantamento "Panorama do Uso de IA em Saúde: Perspectiva do Médico e do Paciente", conduzido pela Afya em parceria com a healthtech Conexa entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, com 551 médicos e 511 pacientes ouvidos em todo o país.
Pelo estudo, 78% dos médicos brasileiros já utilizam inteligência artificial na prática clínica, sobretudo para pesquisar medicamentos e interações medicamentosas (74%), tirar dúvidas clínicas (66%) e buscar evidências científicas (58%) — três usos que, segundo Souza Jr., correspondem diretamente a funções já consolidadas no Whitebook. A supervisão humana aparece como contrapartida da adoção: 63% dos médicos entrevistados afirmam já ter corrigido um erro gerado por ferramenta de IA antes de aplicar a informação no atendimento, e a segurança dos dados é citada por 37% como uma das principais preocupações.
"Muitos médicos já corrigiram o que a IA traz. Isso também é interessante", observa o executivo. "Eu gosto de chamar aqui de ‘augmented intelligence’, não ‘artificial intelligence’: ela não vem para substituir o médico, vem para aumentar a capacidade desse médico de dar o melhor atendimento para o seu paciente." Nova geração de médicos Na formação de novos médicos, a companhia adota o mesmo raciocínio de que restringir o uso de IA seria ineficaz. "A gente acredita que proibir IA é impraticável, porque as pessoas estão usando na vida particular", diz Souza Jr.
Em vez de vetar, a Afya oferece aos estudantes de medicina uma dupla graduação em ciência de dados e saúde digital, além de ferramentas como o iQuest, que gera questões e flashcards para provas, e simulações de pacientes virtuais e de centrais de regulação do SUS. Futuro da medicina? Fora da própria linha de produtos, a companhia também aposta em capital de risco corporativo para acompanhar iniciativas externas de IA na saúde. Uma delas é a Marisa.Care, healthtech em que a Afya liderou um aporte para o desenvolvimento de uma plataforma de otimização da jornada do paciente baseada em IA.
Internamente, o hub de pesquisa e inovação da empresa trabalha agora em modelos para leitura automatizada de exames e eletrocardiogramas, evolução da consulta assistida com sugestão de hipóteses diagnósticas, e personalização de conteúdo por meio do Afya News, atualização diária em áudio, texto e vídeo voltada a cada médico. Para o lado dos pacientes, a pesquisa Afya-Conexa mostra um comportamento mais cauteloso: 49% dos entrevistados já usam IA relacionada à saúde, mas majoritariamente para esclarecer dúvidas sobre sintomas (66%), interpretar exames (55%) e buscar informações sobre medicamentos (49%) — nunca como substituto da consulta médica.
É uma leitura alinhada com a de Eduardo Moura, médico e diretor do Research & Innovation Center da Afya, para quem "quanto mais o médico conhece as ferramentas de IA, mais ele é capaz de identificar suas limitações." *Com supervisão de Daniel Pinheiro Mais Lidas
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