Se em outros estados o eleitorado mais pobre é a principal fortaleza de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente vê no Rio um cenário político e social que o desafia nas camadas mais populares, indicam as pesquisas e o histórico eleitoral recente.
A fim de recuperar terreno em áreas do terceiro maior colégio do país que abraçaram o bolsonarismo em 2018 e 2022, o candidato à reeleição terá neste sábado, na Zona Oeste da capital, sua primeira agenda de campanha em solo fluminense na campanha atual.
Lula vai participar de um comício no estádio de Moça Bonita, em Bangu, bairro com mais de 200 mil moradores.
Trata-se do quarto bairro mais populoso da cidade e do país.
Os três primeiros no ranking nacional — Campo Grande, Santa Cruz e Jacarepaguá — também ficam na Zona Oeste carioca.
Outras áreas decisivas do Rio são a Baixada Fluminense, que reúne 13 municípios e 21,9% do eleitorado, e cidades como São Gonçalo, ainda na Região Metropolitana.
Em Bangu, o petista estará acompanhado de correligionários, como a candidata ao Senado Benedita da Silva, e de quadros do PSD que vão ser os anfitriões do evento: os candidatos do partido ao governo e ao Senado, Eduardo Paes e Pedro Paulo, e o prefeito Eduardo Cavaliere, além de deputados.
A expectativa é de que até 50 mil pessoas compareçam às arquibancadas e ao campo do estádio, segundo a projeção otimista de um aliado.
Também haverá telão do lado de fora.
Entre o segundo turno de 2002 e o de 2014, o PT conseguiu votações expressivas no Rio e pintou o mapa local de vermelho, com destaque para as áreas mais pobres.
Com a ascensão do bolsonarismo, contudo, perdeu por muito no estado em 2018 e 2022.
Há quatro anos, a desvantagem para Jair Bolsonaro (PL) foi de quase 1,3 milhão de votos.
Com as crises em série do PL no estado, sobretudo o fato de o partido não ter conseguido emplacar o presidente da Assembleia Legislativa e candidato ao governo, Douglas Ruas, como governador interino, o PT vê a possibilidade de ter um desempenho bem melhor no Rio.
Contribui para isso, dizem aliados de Lula, a aliança com Paes, que repete a fórmula de sucesso adotada em outras eleições nas quais o presidenciável do partido esteve coligado com políticos de centro.
Nos primeiros mandatos do petista e no governo Dilma Rousseff, a aliança era com o antigo PMDB dos governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, ao qual Paes também pertencia.
Na visão da deputada federal Benedita da Silva, decana do partido no estado e candidata ao Senado, a campanha é o momento ideal para comparar feitos de Lula no Rio com o que considera “o nada” do bolsonarismo.
Ela reverbera ainda que a mudança no comando do Palácio Guanabara, com o desembargador Ricardo Couto como interino, ajuda a recuperar uma confiança nas instituições que teria sido minada pelos últimos governos.
— Isso cria um ambiente mais favorável para discutir projetos e soluções para o estado — afirma.
— Além disso, é preciso lembrar que existe uma diferença fundamental: diferentemente de 2018 e 2022, Lula é presidente da República, e o Rio está recebendo investimentos e políticas públicas que atingem diretamente as cidades e a vida das pessoas.
A diferença nos estratos de renda da última pesquisa Genial/Quaest chama atenção no caso do Rio.
Nos demais estados em que houve pesquisa do instituto, Lula vence entre os mais pobres ou, em redutos do bolsonarismo como o Paraná, tem seu próprio desempenho melhor entre os eleitores de renda baixa do que em outras faixas.
No Rio, ele perde para Flávio entre quem ganha até dois salários mínimos por 34% a 28% e vence numericamente no recorte dos mais ricos, com 34% a 32% — placar que configura empate técnico, considerando a margem de erro.
A classe política e analistas consideram o estado fértil para o bolsonarismo por causa dos “valores”, mais do que por algo que Jair Bolsonaro, que tem o Rio como berço político, tenha entregado de obras ou coisas afins.
A pauta da segurança pública é um dos pontos centrais.
Outra característica específica é o percentual de evangélicos, 32%, acima da média nacional, que é de 26,9%.
As principais lideranças de grandes igrejas, inclusive, têm o estado como base.
Quando temas morais entraram em cena no debate eleitoral brasileiro, algo pouco presente nos primeiros mandatos de Lula, essas pessoas teriam ido mais para a direita.
