Começa com corrida e termina com baile charme: grupo esportivo gratuito em Niterói reúne 500 pessoas a cada treino

 

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Incomodado com o fato de as assessorias de corrida se concentrarem apenas na performance esportiva, em 2020 Felipe Duarte decidiu que deveria criar uma comunidade baseada no vínculo pelo autocuidado e o afeto. Foi assim que o morador do Barreto, enquanto mantinha a rotina de exercícios, ia parando, um a um, os corredores que encontrava, perguntando se eles aceitariam participar de um grupo novo. A cada contato nos quilômetros percorridos, ele percebeu que existia uma demanda. Foi assim que nasceu a Nikiti Run Club (NRC), ainda sem lugar fixo. Rodaram pelo Horto do Fonseca, por Icaraí e pelo Barreto. Até que uma obra de grande porte no bairro onde mora atrapalhou as centenas de pessoas que já faziam parte do coletivo. A solução foi levar toda a trupe para a Praça Arariboia, no Centro, em 2023. Mudança simples, mas que causou impacto imediato.

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Corredores iniciantes de Maricá, Araruama, Belford Roxo e São Gonçalo começaram a chegar, interessados não apenas no pace, mas no clima de amizade. Agora, os treinos quinzenais, às quartas-feiras, colocam facilmente na pista 500 participantes. Duarte, que faz questão de abrir cada treino, chamados de Quarta Love, com uma reflexão sobre questões sociais, de feminicídio a racismo, diz que não abre mão de ter a oportunidade de cultivar novos hábitos em cada participante.

— É a primeira comunidade de corrida da cidade, o maior coletivo de corrida de Niterói, um dos coletivos de corrida mais antigos do Rio de Janeiro em atividade. Por aqui já passaram milhares de pessoas, muitas delas começando do zero, como muitos de vocês que estão aqui, tenho certeza. O objetivo do nosso espaço é conectar as pessoas através da corrida de rua, fazer a manutenção da autoestima de vocês, ser um espaço de liberdade, sobretudo para mulheres, sermos um espaço genuíno, democrático e diverso — disse Duarte durante o treino da última quarta-feira.

Baile charme no fim

Sem pressão sobre velocidade ou equipamentos, o treino, que facilmente supera as duas horas — para o grupo que percorre 4,5 quilômetros até a Ilha da Boa Viagem —, também tem outros atrativos: a confraternização e o baile charme, que já fazem parte da cultura NRC. Apesar do fluxo, a comunidade não conta com apoio institucional.

— Sem percebermos, o projeto foi crescendo. Outro ponto que sempre destaco é: “Mães, tragam seus filhos para o treino”. Sei o quanto é difícil manter uma rotina materna, e por isso não fazemos qualquer restrição — diz ele.

Duarte começou a correr em 2012, após orientação médica para tratamento de ansiedade. A paixão foi tanta que, após alguns anos, deixou a vida de produtor de rodas de samba no Rio para se dedicar às pistas. Hoje, concilia a vida no marketing com o projeto, que se expandiu e foi responsável pela fundação de outra comunidade, a Tanque Run, em São Gonçalo, em 2023.

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De acordo com Kauã Mariano, a escassez de coletivos na cidade vizinha foi o principal motivo para fundar um grupo. Sem deixar de frequentar as corridas em Niterói, hoje ele reúne um grupo na Praça do Tanque, em frente ao campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

— Acho que, às vezes, falta um estímulo para as pessoas. E quando elas veem grupos muito profissionalizados, com taxas mensais, acabam se afastando. E quando existe um lugar baseado no vínculo, o estímulo é outro. Não tem ninguém aqui olhando para o seu tênis ou se importando com que relógio está — afirma.

Moradora de Pendotiba, Danielle Amorim faz parte de um grupo de surdos que decidiu aderir aos treinos este ano, após encontrar informações sobre a NRC nas redes sociais. Depois desse movimento, ela conseguiu levar mais cinco amigos, também surdos, para treinarem.

— Eu vi todo mundo nos treinos e disse para mim que agora cuidaria da minha saúde, ia trabalhar minha respiração, cuidar da minha saúde mental. É muito importante ter esse movimento, mas também cuidar do meu corpo. Preciso evitar o sedentarismo, então vou correr na rua para poder me estimular — diz Danielle.

Outro diferencial do NRC é que a comunidade conta com duas intérpretes de Libras no grupo. Esse foi o fator que fez os amigos se sentirem acolhidos, já que, antes de cada treino, há uma conversa em que Duarte explica não só as regras de segurança.

— Quando cheguei aqui, uma amiga surda me encontrou. Ela não sabia, a gente não combinou. E aí ela me encontrou e falou: “Que bom, aproveita e interpreta para mim”. No início, o Felipe faz toda a explicação de como funciona o grupo, qual é a ideia, o objetivo. E nesse momento eu fui a ponte entre o grupo da corrida e o grupo da comunidade surda. Cheguei para ele e falei: “Tem uma menina aqui surda e eu vou ficar do seu lado para poder interpretar”. E ele achou ótimo, ficou superfeliz. Falou que esse é o objetivo dele, de trazer a inclusão no grupo. E aí foi acontecendo. E na comunidade surda, quando encontra um local que tem acessibilidade, um vai chamando o outro — finaliza Danielle.

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