Com veto de China e Rússia, Conselho de Segurança da ONU rejeita proposta sobre coordenação para reabrir o Estreito de Ormuz
A Rússia e a China vetaram uma resolução, de autoria do Bahrein, no Conselho de Segurança da ONU, que incentivava esforços defensivos e coordenados para garantir a reabertura do Estreito de Ormuz, praticamente bloqueado pelo Irã desde o início da guerra, há mais de um mês. Na votação, que aconteceu nesta terça-feira, 11 países foram a favor, e Paquistão — que atua como mediador do conflito — e Colômbia se abstiveram.
A proposta do Bahrein encorajava os países "interessados na utilização do Estreito de Ormuz a coordenarem esforços, de natureza defensiva e compatíveis com as circunstâncias, para contribuir na segurança da navegação" pela rota marítima vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial.
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A resolução, apoiada pelos Estados Unidos e países do Golfo, também exigia que o Irã interrompesse os ataques a navios, parasse de impedir a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz e de atacar infraestruturas civis. O bloqueio iraniano no Estreito é visto pelas nações do Golfo, alvos da retaliação iraniana desde o início da guerra, como uma ameaça existencial.
No Conselho, Vassily Nebenzia, embaixador da Rússia na ONU, e Fu Cong, da China, culparam os Estados Unidos e Israel por iniciarem a guerra e desencadearem uma crise global crescente. Na semana passada, eles disseram que a prioridade mais urgente agora é encerrar as operações militares imediatamente.
Após o final da votação, o ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani, que presidiu a reunião, afirmou que, além de seu país, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Jordânia "expressam seu pesar pelo fato de a resolução não ter sido adotada".
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— O Conselho não assumiu sua responsabilidade em relação a uma conduta ilegal que exige ação decisiva sem demora — disse o chanceler. — Tínhamos esperança de que o projeto representasse um passo rumo a uma solução permanente que garantisse a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.
Em declaração feita antes da votação, ele disse aos 15 membros do Conselho que o projeto não criava uma nova realidade, mas era uma resposta séria a um padrão recorrente de comportamento hostil por parte do Irã, que precisava cessar. Ele ainda questionou se a comunidade internacional aceitaria ser "mantida refém de chantagem econômica", apontando para as ameaças do Irã ao comércio global e à segurança alimentar ao bloquear o Estreito.
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Além disso, ele afirmou que a falha do Conselho de Segurança em responder à instrumentalização de Ormuz como forma de pressão teria graves consequências para o mundo e poderia ser replicada em outros estreitos, transformando o mundo em uma selva.
No dia 11 de março, em resposta aos ataques do Irã contra alvos em países vizinhos do Golfo, o Conselho de Segurança adotou uma resolução, também patrocinada pelo Bahrein, condenando os "ataques flagrantes" e exigindo que Teerã interrompesse imediatamente seus ataques. A resolução — adotada por 13 votos a favor e nenhum contra, com a Rússia e a China se abstendo — também condenou as ações do Irã no Estreito de Ormuz como uma ameaça à paz e à segurança internacional e pediu o fim imediato de todas as ações que bloqueiam a navegação.
Novas ameaças de Trump
A votação desta terça-feira no Conselho de Segurança da ONU ocorreu poucas horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter feito uma nova ameaça ao Irã, dizendo que “toda civilização morrerá esta noite” se o regime não reabrir o Estreito e não chegar a um acordo antes das 21h (horário de Brasília) desta terça-feira.
A nova ameaça ocorre em um momento em que autoridades políticas, incluindo aliadas dos EUA, e especialistas em direito internacional expressam temores de que as ações americanas configurem crimes de guerra, e enquanto novos ataques atingem o território iraniano.
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"Uma civilização inteira vai morrer esta noite, para nunca mais ser recuperada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai", escreveu o republicano em uma publicação na Truth Social, um dia após afirmar que o país poderia ser eliminado em uma única noite. "No entanto, agora que temos uma mudança completa e total de regime, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE?".
A ameaça de Trump confirma uma escalada retórica que se consolidou nos últimos dias de conflito com o ultimato do presidente americano ao Irã. Adotando um tom agressivo e com viés religioso em algumas de suas mensagens, o republicano afirmou que atacaria alvos civis em território iraniano, incluindo pontes, infraestrutura do setor elétrico, entre outros. No sábado, quando mudou o prazo final para um acordo ou reabertura unilateral do Estreito de Ormuz, afirmou que desataria "todo o inferno" sobre o país.
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Embora o prazo anunciado pelo presidente não tenha se esgotado, parte dos ataques lançados contra o Irã nesta terça-feira parecem cumprir parte do que havia sido antecipado. O Exército de Israel, que atua em coordenação com os militares americanos, anunciou ter destruído oito pontes em diferentes partes do território iraniano — confirmando relatos que já vinham sendo veiculados pela imprensa da nação persa. Horas antes, os militares israelenses haviam emitido um alerta para que a população do país inimigo não utilizasse a rede ferroviária, antecipando possíveis ataques à infraestrutura civil. Os EUA, por sua vez, atacaram a Ilha Kharg, infraestrutura vital para o escoamento de petróleo da indústria iraniana. Autoridades disseram que os alvos eram militares.
(Com AFP e New York Times)
