Com Rodoanel e novas linhas de metrô, Tarcísio aposta em obras por musculatura eleitoral

 

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O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), cuja ascensão política se deve ao cargo de ministro da Infraestrutura do governo Jair Bolsonaro, apostou em uma série de obras para, em suas palavras, “deixar um legado” em São Paulo — parte delas, promessas antigas que remontam aos governos tucanos e de possíveis adversários nas urnas em 2026, como o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), que é um dos cotados para disputar o governo paulista contra Tarcísio, que tentará a reeleição.

Entram nessa lista grandes obras como o Rodoanel Norte, que se arrasta desde 2013 entre paralisações e prejuízo milionário, e o monotrilho da Linha 17 (Ouro) da CPTM, que instalou o canteiro de obras em 2011 e teve a entrega prometida para a Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil. Novas estações de metrô também ampliam o alcance eleitoral na região metropolitana.

Opositores, por outro lado, questionam a originalidade dos projetos e o impacto da gestão, alegando que várias obras estavam em estágio avançado, incluindo algumas de suas principais bandeiras políticas. Apontam ainda que parte dos investimentos em obras emblemáticas, como o túnel Santos-Guarujá e o próprio Rodoanel, vieram do governo federal.

No fim do ano passado, Tarcísio inaugurou o primeiro trecho de 24 quilômetros do Rodoanel Norte, liberando o fluxo entre as rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias, com um túnel que passa embaixo da Serra da Cantareira. Falta ainda a segunda parte, de 20 quilômetros, que só deve ficar pronta no segundo semestre, após as eleições, e conecta as pistas à avenida Raimundo Pereira de Magalhães, na Zona Norte da capital.

— O Rodoanel foi uma obra abatida pela corrupção, pela Lava-Jato, ficou abandonada. Imagina se a minha postura fosse “essa obra não fui eu que iniciei, então não vou concluir”. É uma postura que leva ao desperdício. Infraestrutura é uma política de Estado, entregar obra faz a diferença para as pessoas, independente da obra ter ou não começado na nossa gestão — comentou o governador ao GLOBO.

Tarcísio já havia citado o envolvimento da obra em escândalos durante a entrega oficial do primeiro trecho, em dezembro, quando aproveitou para alfinetar o governo federal — representado no evento pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, ex-ministro nos governos Lula e Dilma Rousseff.

Nesse meio tempo, o governo adotou um padrão curioso para comunicar o andamento das obras. Em vez de informar a execução total do Rodoanel em cada lote, preferiu destacar o percentual referente apenas ao que ainda não estava pronto e foi tocado pela concessionária após a retomada dos trabalhos na gestão Tarcísio. Ainda que o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) diga que se trata de um procedimento normal, ele transmite uma ideia similar à de uma obra tocada do zero.

Um documento disponibilizado pelo DER aponta que, em março de 2019, imediatamente antes de a obra ser paralisada, o percentual de execução do Rodoanel Norte variava entre 72% e 97% nos seis lotes concedidos à iniciativa privada. O novo leilão ocorreu quatro anos depois, e os trabalhos foram retomados em abril de 2025. Na primeira vistoria do governador ao canteiro, o Executivo paulista soltou uma nota informando que 8,5% do projeto estava pronto.

Andamento das obras do Rodoanel Mário Covas

Editoria de Arte/O Globo

O superintendente de rodovias da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), Roger Pêgas, contesta esses dados por conta de reparos e testes que precisaram ser refeitos após quase seis anos de paralisação. Auditoria contratada pelo governo junto ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) identificou, em 2020, 59 grandes falhas construtivas no projeto, envolvendo colunas desalinhadas, infiltrações em túneis e erosão de encostas.

— O Rodoanel tem nuances, por conta da obra ter ficado abandonada tanto tempo, de você ter grandes retrabalhos. Eu trabalho com rodovia há 35 anos e nunca tinha visto desmontar uma viga que já está montada em cima do viaduto. Praticamente todo o asfalto lançado se perdeu, porque venceu a vida útil e a água penetrou nele. Tivemos que dar muitos passos para trás. Eu diria que o que foi feito na obra, pela experiência até que a gente tem, é mais do que o que estava na obra até então.

Pêgas diz ainda que o contrato previa a liberação dos trechos em duas etapas e que a metade inaugurada em dezembro tinha menos complexidade do que os lotes pendentes, porque tinha menos túneis, entre outros aspectos. Ele comenta ainda que o acesso ao aeroporto de Guarulhos, previsto na obra, depende de autorização federal para ser executado por completo. Há o temor de que a conexão amplie o tráfego na Rodovia Hélio Smidt, o que demandaria mais faixas, alterando o contrato com a GRU Airport, ou a instalação de pedágio.

Ainda no setor viário, o governador aposta em um grande volume de obras menores de duplicações de vias e de estradas vicinais (estradas menores, muitas vezes não pavimentadas, que conectam áreas rurais) como vitrines, principalmente para atrair o eleitor do interior paulista. Tarcísio deve rodar o estado até julho, quando estoura o prazo para inaugurações em ano eleitoral, capitalizando também em cima de moradias populares, escolas e postos de saúde.

Oposição contesta

O resultado prático da gestão, mesmo na área da mobilidade urbana, é contestado por opositores no estado. O deputado estadual Antônio Donato (PT) acusa a gestão de "maquiar números" e alega que o governador apresentou pouca novidade diante de um orçamento que supera R$ 1 trilhão em quatro anos.

— O marketing dele é que ele está "fazendo o impossível". Isso não tem a menor lógica. Ele entregou 22 quilômetros do Rodoanel, uma obra de 132 quilômetros ao todo e que já estava 80% executada. A linha do monotrilho ficou pela metade, porque a ideia era levar até o Morumbi. Então, não estou vendo nada de excepcional. Eles são ruins de execução, mas bons de propaganda — critica.

Ele acusa ainda a gestão de "benevolência" com as administradoras de rodovias e do metrô, mencionando o aditivo de R$ 6 bilhões aos contratos de concessão aprovados no final do ano passado pela Artesp. Destes, R$ 3,6 bilhões foram para a Linha Uni, que toca as obras do metrô da Linha 6 (Laranja). O pagamento se deve a desequilíbrios financeiros causados pela pandemia de covid-19 e por dificuldades técnicas dos empreendimentos.

Um desgaste que o governador tem enfrentado, inclusive entre aliados, em relação às rodovias diz respeito ao novo sistema de pedágios, o "free flow", em que a cobrança é automática sem as tradicionais praças e varia de acordo com a distância percorrida pelo motorista. O modelo causou polêmica nas redes sociais devido a parte de população que antes usava trechos menores, sem pedágios no meio, e agora precisa pagar.

— O "free flow" traz justiça tarifária. Ao contrário do que se vende, ele faz com que as pessoas paguem menos no percurso, porque elas vão pagar pelo que usam da rodovia efetivamente. Você aumenta a base de pagantes e diminui a tarifa. Obviamente, toda vez que muda a tecnologia, tem incertezas, mas é uma mudança que aqui no Brasil já chega muito tarde. O governo federal está fazendo concessões de rodovias e também está empregando free flow, não somos só nós — rebate Tarcísio.

Transporte sobre trilhos

Outra aposta de Tarcísio para este ano são as obras metroviárias. Serão duas novas linhas, após quatro anos sem a inauguração de nenhuma estação de metrô no estado — no período, foi entregue apenas a estação de trem Varginha, da Linha 9 (Esmeralda), em janeiro de 2025.

A promessa é entregar, em março, a Linha 17 (Ouro), monotrilho que ligará a estação Morumbi da Linha 9 (Esmeralda) até o Aeroporto de Congonhas. O ramal, que originalmente teria 18 estações e colocaria Paraisópolis no mapa do transporte sobre trilhos, será entregue com 12 anos de atraso, com apenas oito estações e sem chegar à comunidade. A expectativa é de transportar 185 mil passageiros por dia, número menor do que qualquer outra linha de metrô da cidade. O governador afirma que era necessário finalizar esse primeiro trecho, e garante que vai dar continuidade à extensão da Linha 17, conforme o projeto original.

— Quando mais interligado o metrô for, mais eficiente ele é. As outras etapas da linha 17 não estão abandonadas, nós vamos fazer, só que era fundamental que a gente concluísse essa primeiro. Eu não posso falar "vou expandir o metrô e fazer a ligação da linha 17 à linha 4, atender Paraisópolis e chegar ao Morumbi’", se eu sequer complementasse essa ligação Congonhas - Pinheiros. Colocando essa etapa para funcionar, vamos pensar imediatamente já na segunda e na terceira etapa. Eu quero fazer a linha 17 chegar a Paraisópolis, e vamos fazê-la chegar a Jabaquara, na Linha 1 — garante o governador.

Como de praxe, a linha deve ser entregue com operação parcial, em que os trens só circulam por algumas horas por dia, durante vários meses, para identificar eventuais falhas na operação, e no segundo semestre a operação comercial em horário estendido deve começar.

Também em março, o governo promete inaugurar o primeiro trecho da Linha 6 (Laranja), de Brasilândia a Perdizes. O ramal é o primeiro construído por meio de parceria público-privada e será administrado pela Linha Uni, da construtora Acciona. Nos dois casos, a operação comercial, com cobrança de tarifa e horário estendido, só deve começar no segundo semestre. O trajeto inteiro vai até o centro de São Paulo, na estação São Joaquim, localizada no distrito da Liberdade. A linha, aguardada há décadas por moradores da região Norte e Noroeste da capital, deve transportar 633 mil passageiros por dia.

Obras na estação Washington Luís da Linha 17 (Ouro), o monotrilho prometido para a Copa

Márcia Alves/Metrô SP

Ainda no campo da mobilidade, o Trem Intercidades de São Paulo a Campinas deve ter as obras iniciadas este ano. Outra obra-vitrine é o Túnel Santos-Guarujá, o primeiro do tipo imerso do Brasil, que será custeado metade pelo governo estadual, metade pelo governo Lula, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O contrato com a Mota-Engil, que venceu o leilão para tocar a obra, foi assinado em janeiro, e o próximo passo serão as desapropriações. O governo promete o início das obras ainda neste ano.

Uma intervenção foi capitaneada pelo governo Tarcísio é o novo Centro Administrativo do governo estadual, uma promessa de campanha, deve começar a sair do papel neste mês. No dia 26, será realizada a licitação para definir a empresa que vai construir e administrar o projeto, que vai unificar em um só complexo todas as secretarias e promete ajudar na revitalização dos Campos Elíseos, região degradada do centro de São Paulo. O andamento, portanto, dependerá de quem ocupar o gabinete nos próximos anos.