Com programa dos EUA atrasado, China divulga provável local de pouso na Lua
Dez dias após os Estados Unidos decidirem adiar a missão da Nasa que levará astronautas de volta à superfÃcie da Lua, a China começou a divulgar detalhes de sua própria viagem lunar tripulada, anunciando hoje em um estudo o lugar onde deve tentar um pouso.
Ainda não está claro quando o paÃs asiático será capaz de realizar uma missão do tipo, apesar do discurso oficial. O governo diz que o programa de exploração está com a agenda "em dia" para fazê-lo "por volta de 2030". Independente de o prazo ser cumprido, agora já se sabe que os chineses tentarão um pouso numa região chamada Rimae Bode, perto do equador lunar.
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Essa região é considerada cientificamente valiosa por ter tipos variados de topografia e materiais na superfÃcie para serem estudos. O terreno pouco acidentado a torna tambémuma área mais segura para tentar um pouso, e sua posição central, de frente para a face da Lua que fica virada para a Terra, facilita o trabalho.
Rimae Bode tem esse nome por ser um território marcado por duas grandes fissuras geológicas (do latim _Rima_) perto da encosta da cratera de Bode (batizada em homenagem ao astrônomo alemão Johann Bode).
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No estudo na revista Nature Astronomy, os chineses liderados pelo cientista Maosheng Yang, da Universidade de Geociências da China, em Wuhan, mostram que há pelo menos quatro pontos especÃficos de Rimae Bode onde sua nave poderia aterrissar.
"A caracterização dos locais de pouso para futuras missões tripuladas à Lua é fundamental para maximizar os resultados cientÃficos" escreveram os pesquisadores no artigo. "Utilizamos dados orbitais para analisar a região equatorial de Rimae Bode, localizada na fronteira entre os 'mares lunares' e as 'terras altas', que é uma candidata prioritária para a futura missão tripulada chinesa."
As informações usadas na pesquisa foram coletadas em grande parte pelos módulos orbitadores (que ficam na órbita da Lua, mas não pousam) que a China enviou ao satélite natural da Terra. O programa de exploração robótica Chang'e já enviou seis pacotes de dispositivos para lá, sendo que os quatro últimos tinham também módulos de pouso.
O novo estudo indica que Rimae Bode é particularmente interessante porque as rochas existentes ali podem dar uma pista sobre a composição do interior da Lua, que nunca foi estudado em grande profundidade.
Vulcões lunares
A região tem uma espessa camada de detritos escuros: vidro criado por erupções de vulcões há bilhões de anos. Como esses materiais se originaram do interior profundo da Lua, estudá-los vai revelar coisas sobre a composição do 'manto' geológico lunar sem precisar de perfurações profundas.
Acredita-se que as principais fissura que dão nome ao lugar (Rima Bode 1 e Rima Bode 2), são marcas de "rios de lava" que escorreram durante esses eventos. Os mares de basalto que existem ali foram formados também por lava resfriada e possuem composições minerais distintas, com alto teor de titânio e tório.
Mapa digital da região lunar de Rimae Bode feito por sondas espaciais chinesas
Nature/divulgação
Além dessas caracterÃsticas, na região da cratera Bode é possÃvel encontrar ali rochas que sejam representativas da superfÃcie lunar antiga, e até mesmo detritos resultantes de impactos com meteoros, que podem ajudar a estudar o histórico dessas colisões.
"Essa coleção de caracterÃsticas pode fornecer bons insights sobre a evolução geológica da Lua e aprimorar nossa compreensão sobre a composição do manto lunar e de processos vulcânicos", escrevem Yang e colegas.
Se uma primeira missão tripulada chinesa chegar antes de os americanos voltarem à Lua, o acesso a materiais provenientes de vulcões antigos seriam um grande trunfo. O programa Apollo, da Nasa, que explorou o satélite de 1969 a 1972, não coletou nenhum material desse tipo.
Corrida acirrada
O estudo dos cientistas chineses, uma demonstração de que seu paÃs está consolidando o planejamento de suas missões, também tem o efeito de aquecer a corrida lunar do século 21 travada entre EUA e China. Enquanto os asiáticos se aceleram, os americanos dão sinal de ralentar.
A Artemis III, missão americana que tentaria a aterrissagem em 2027, foi replanejada e não mais vai fazê-lo. Agora o mais cedo que os EUA conseguiriam botar de volta os pés no satélite natural da Terra deve ser em 2028, na Artemis IV.
A Artemis II, que vai apenas orbitar a Lua, sem pouso, também já teve duas janelas de lançamento perdidas desde janeiro. Problemas detectados perto da decolagem adiaram os trabalhos, e essa próxima missão provavelmente não sai do chão antes de abril.
Os chineses, por outro lado, ainda precisam passar do estágio que foi a Artemis I: a missão não-tripulada americana que circulou a lua com uma nave capaz de abrigar astronautas, mas que foi comandada remotamente naquela ocasião.
O último anúncio relevante do programa lunar chinês ocorreu no inÃcio de fevereiro, quando o paÃs obteve sucesso no teste de seu foguete lançador Longa Marcha-10 em baixa altitude. A agência espacial chinesa testou também um sistema emergencial para abortagem de missões, componente essencial de incursões tripuladas ao espaço. A Mengzhou, espaçonave carregada pelo foguete que efetivamente operaria na Lua, não teve muitas demonstrações ainda.
Se o calendário do programa americano sofrer mais atrasos, de todo modo, a agenda de exploração lunar dos dois paÃses vai se aproximar ainda mais, acirrando mesmo a corrida.
