Com praias lotadas até à noite e 19 mortes este ano só em SP, afogamentos explodem pelo país e desafiam socorristas

 

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Em apenas 11 dias de 2026, encerrados no último domingo, o litoral paulista registrou 19 mortes por afogamento, aproximando-se dos dois óbitos diários. O problema, no entanto, não está restrito ao mar de São Paulo. Com o forte calor registrado desde dezembro, e muitas praias lotadas mesmo durante à noite, casos do gênero vêm aumentando pelo país. Alterações de comportamento no pós-pandemia e até as mudanças climáticas estão entre as razões citadas por especialistas para o fenômeno.

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As estatísticas indicam uma mudança de tendência desde o início do século. Entre 2000 e 2022, segundo dados compilados pela Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (Sobrasa), houve uma redução de aproximadamente 50% no número de afogamentos no Brasil. Em 2023, porém, foi computada a primeira alta em mais de duas décadas, de cerca de 5%, com 5.237 mortes, que também incluem episódios em rios, piscinas e similares — e equivalem a uma a cada cem minutos, em média. As análises referentes a 2024 e 2025 ainda estão sendo realizadas pela entidade.

O quadro coloca o Brasil no quinto maior patamar da América do Sul, com 2,3 casos a cada cem mil habitantes, ainda de acordo com o relatório da Sobrasa. O país fica atrás apenas de Bolívia (2,4), Equador (2,7), Suriname (4,5) e Guiana (9,5).

Secretário-geral da Sobrasa, o médico David Szpilman avalia que não é por acaso que o ano de 2023 marca uma inflexão nos dados. Além do fim do isolamento social após o período mais crítico da pandemia da Covid-19, o adeus à crise sanitária também trouxe mudanças de comportamento na população — ele lembra a expressão latina “carpe diem”, extraída de uma obra do poeta romano Horácio e vista como uma convocação a aproveitar o dia e pensar menos no futuro.

— É a ideia de que se tem que aproveitar a vida, que acaba distorcida. Trata-se de um fenômeno global — diz Szpilman, que também é tenente-coronel do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. — Outro fator são as redes sociais. As pessoas se arriscam mais para ter o melhor vídeo, a melhor foto, a melhor postagem.

Dicas para se prevenir

Guarda-vidas: Priorize locais que tenham socorristas. É uma razão para evitar o mergulho noturno, quando não há guarda-vidas justamente para desestimular a prática.

Obedeça à sinalização: Sabe aquele aviso de “perigo” comum nas praias? Respeite sempre. “Na dúvida, deve-se perguntar ao guarda-vidas o melhor lugar para ficar”, diz Szpilman.

Excesso de confiança: “Se alguém aprendeu a nadar na piscina, não significa que se sairá bem no mar”, exemplifica o secretário-geral da Sobrasa. Por isso, fique atento.

Fora do mar: Costões e pedras são usualmente escorregadios, podendo resultar em acidentes fatais. Mesmo da areia, no caso de ressacas, por exemplo, é preciso estar alerta.

Não banque o herói: Se notar um afogamento, não mergulhe: busque os bombeiros e tente fornecer um material flutuante. Cerca de 12% dos afogados tentavam ajudar alguém.

Fim de semana com 9 mortes

Só no último fim de semana, foram nove mortes na Baixada Santista, ao menos uma delas em período noturno — ao todo, também houve mais de 230 salvamentos. Por volta de 1h50 de sábado, um homem registrou um pedido de socorro por um amigo, cidadão boliviano cujo corpo foi encontrado horas depois na faixa de areia de Itanhaém. No Rio Grande do Sul, uma das duas mortes ocorridas entre dezembro e janeiro deu-se no município de Torres, também após o horário de funcionamento da guarita dos guarda-vidas, que opera no máximo até as 19h, segundo o Corpo de Bombeiros gaúcho.

O mergulho em mar aberto durante a noite aumenta as chances de afogamento pelas condições ruins de visibilidade. Ainda assim, a prática tem se popularizado no litoral brasileiro, principalmente em épocas nas quais as temperaturas elevadas não dão trégua mesmo após o sol se pôr. No fim do ano passado, quando a Região Sudeste estava sob alerta de onda de calor, a Praia do Arpoador, no Rio, chegou a ficar repleta de banhistas às 4h da manhã. Entre 7h do dia 31 de dezembro e 19h de 1º de janeiro, socorristas realizaram 1.666 resgates nas águas cariocas.

— Se eu não posso te ver, não posso te salvar, e de noite não posso te ver. A nossa recomendação é não ter guarda-vidas durante a noite, pois serve como estímulo. Banho noturno, não. O risco é altíssimo — alerta Szpilman, que lamenta: — É um comportamento que já notamos durante o verão há pelo menos sete anos.

Segundo Szpilman, guarda-vidas só estão presentes em 30% dos locais públicos abertos ao banho, como praias, rios, cachoeiras e represas. Em espaços sem o socorrista a postos, a chance de afogamento é 60 vezes maior.

O consumo de álcool é outro fator de perigo frequentemente lembrado pelos especialistas. Szpilman destaca que, após beber, o banhista “subestima o perigo”, enquanto “superestima a capacidade que tem de enfrentar esse risco”, em uma combinação perigosa:

— O afogado só vai descobrir que não sabia o suficiente quando for tarde demais. Se não tiver ninguém para te tirar da água, você morre em três ou quatro minutos. O afogamento é muito rápido e silencioso.

Um último elemento de contribuição para os perigos aquáticos são as mudanças climáticas. Os eventos extremos contribuem não somente para condições marítimas mais adversas, mas também para alagamentos e enchentes, que eventualmente alimentam as estatísticas de mortes por afogamento.

— Passamos a ter mais inundações, mais tempestades. Temos também mais seca e, com isso, maior armazenamento de água no entorno das casas, o que é a maior causa de afogamento entre crianças — explica o secretário-geral da Sobrasa.

O relatório da entidade aponta que os afogamentos são a segunda causa mais comum de óbitos na faixa etária de 1 a 4 anos, a quarta entre 5 e 9 anos e a terceira dos 10 aos 14 anos. Em média, quatro crianças morrem desta maneira diariamente no país. Neste recorte, os incidentes são mais comuns dentro de residências.

Números por estado

Não existem dados nacionais consolidados sobre resgates. Mesmo as estatísticas compiladas pelos estados têm critérios e recortes temporais distintos.

Procurado pelo GLOBO, o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, por exemplo, informou que fez 683 salvamentos em dezembro, com 12 mortes (sete nas praias, cinco em rios e lagos). Ainda não houve óbitos em janeiro, mas o número de resgates acelerou ainda mais: já são 375.

No Rio Grande do Sul, foram duas mortes por afogamento em janeiro, uma em área onde não há monitoramento dos bombeiros e outra, a registrada em Torres, após o fechamento da guarita. Outros 13 óbitos aconteceram em águas internas, também não monitoradas.

No Paraná, os guarda-vidas realizaram 717 salvamentos em dezembro, com oito mortes. Já no Espírito Santo foram 23 vítimas fatais no último mês de 2026, e outras nove até 10 de janeiro.

No Rio de Janeiro, entre 1º de dezembro e 11 de janeiro, foram 4.808 operações de resgate, mas os bombeiros não informaram o número de mortes no período. O corpo de um adolescente de 14 anos arrastado pelas ondas no último dia do ano só foi encontrado uma semana depois.

Entre os estados do Nordeste, todos contatados pela reportagem, a única resposta foi de Pernambuco. Lá, não houve mortes em dezembro, com apenas um resgate de banhista em afogamento. O Corpo de Bombeiros local diz ter realizado 41.513 ações preventivas no mês, que envolvem alertas ativos e passivos e orientações aos banhistas sobre riscos iminentes, como correntes de retorno e animais marinhos.