Com posse de Péter Magyar, Parlamento da Hungria recoloca bandeira da União Europeia na sede do Legislativo após 12 anos
A nova presidente do Parlamento da Hungria, Ágnes Forsthoffer, determinou neste sábado, pouco antes da posse do novo primeiro-ministro do país, o direitista Péter Magyar, o retorno da bandeira da União Europeia ao edifício do Legislativo. Ela encerrou uma ausência de 12 anos do símbolo da federação de países no principal centro político do país, afastado de Bruxelas durante os anos em que Viktor Orbán, de extrema direita, comandou Budeapeste.
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O anúncio foi feito poucos minutos após sua eleição por ampla maioria para comandar a nova legislatura e se tornou o primeiro gesto político simbólico da nova Hungria, após a saída de Orbán do poder.
"Que minha primeira decisão como presidente da Câmara seja o primeiro passo simbólico neste caminho (de volta à Europa). Ordeno, portanto, que, a partir de hoje, após 12 anos, a bandeira da União Europeia volte ao edifício do Parlamento húngaro."
Novo governo sinaliza mudança de rumo
A decisão ocorreu pouco antes de Péter Magyar chegar ao Parlamento húngaro para tomar posse como primeiro-ministro.
Um conservador pró-Europa, Magyar assume o comando do governo com a promessa de promover uma "mudança de regime", em um movimento que marca o encerramento de um longo ciclo político de extrema direita no país.
Ao recolocar a bandeira da União Europeia no prédio do Parlamento, a nova liderança húngara transforma o símbolo em mensagem política clara — e envia a Bruxelas um sinal de reaproximação após anos de tensões.
Orbán, de 62 anos, reconheceu ter sido derrotado pelo advogado Péter Magyar, de 45 anos, na eleição de 12 de abril, que teve comparecimento recorde no país. A vitória abre caminho para a transição de poder após 16 anos de um governo que marcou a Europa com seu modelo de "democracia iliberal".
Quem é Péter Magyar?
Péter Magyar é um antigo aliado de Orbán que se tornou o principal oponente do líder nacionalista nos últimos anos. Pouco antes de ganhar destaque, em 2024, após um escândalo envolvendo o perdão de abusos contra crianças, o advogado disse à AFP que era chamado de “eterno opositor” dentro do partido do atual primeiro-ministro.
Hábil comunicador, tanto nas redes sociais quanto em campanhas, o conservador agora promete mudança, desmontando "tijolo por tijolo" todo o sistema político de Orbán. Quem conhece Magyar afirma que ele é temperamental e um perfeccionista que exige o melhor de todos, mas que aceita pedir desculpas.
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O futuro primeiro-ministro percorreu o país quase sem parar nos últimos dois anos, com a promessa de combater a corrupção e melhorar os serviços públicos, o que levou seu partido a liderar as pesquisas. Sua condição de antiga figura do governo ajudou a ascensão meteórica, segundo Andrzej Sadecki, analista do Centro de Estudos Orientais, de Varsóvia:
— Soa mais convincente para alguns ex-eleitores do Fidesz quando afirma que o sistema está podre por dentro. De certa forma, Magyar é como Orbán há 20 anos, sem toda a bagagem, a corrupção e os erros no poder.
Nascido em uma família de conservadores de destaque, Magyar foi atraído pela política desde muito jovem. Em seus anos universitários, fez amizade com Gergely Gulyas, atual chefe de gabinete de Orbán, e conheceu Judit Varga, com quem se casou em 2006 e que viria a ser ministra da Justiça no governo do líder nacionalista.
Após servir como diplomata junto à União Europeia, Magyar liderou o órgão estatal de empréstimos para a educação e foi parte da diretoria de outras entidades sociais também do governo de Orbán. O casal, que tem três filhos, se divorciou em 2023.
Destaque após escândalo de abuso de crianças
A figura do Magyar ganhou destaque quando um escândalo pelo perdão de um caso de abuso infantil abalou o governo no início de 2024, provocando a renúncia da presidente Katalin Novak e de Varga, sua ex-esposa, como ministra da Justiça. O opositor denunciou a corrupção do governo de Orbán e também renunciou a seus cargos públicos.
Naquele momento, ele descartou ter aspirações políticas, mas foi considerado "corajoso, orientado para a ação e disposto a correr riscos", diz Veronika Kovesdi, especialista em mídia da Universidade ELTE de Budapeste.
Suas mensagens nas redes sociais "ressoaram emocionalmente" junto dos seus seguidores, muitos dos quais o veem como um "herói que luta incansavelmente" por eles. O advogado assumiu o controle do desconhecido partido TISZA para poder disputar a eleição europeia de 2024, alcançando o segundo lugar, atrás da coalizão governante.
À medida que sua popularidade crescia, Magyar enfrentou um "tsunami de ódio e mentiras", como ele o chamou. Ele ridicularizou algumas acusações e negou outras, como as de um suposto abuso doméstico contra Varga. Os ataques "o ajudaram a se legitimar como um líder realmente capaz de gerar mudança", segundo Kovesdi.
Magyar prometeu combater a corrupção, melhorar serviços públicos como a saúde e impulsionar reformas para desbloquear bilhões de euros em fundos da União Europeia para a Hungria. No plano internacional, prometeu transformar o país em um sócio confiável da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da UE e ser crítico em relação à Rússia, ao contrário de Orbán, que é próximo de Moscou.
Assim como Orbán, Magyar se recusa a enviar armas à Ucrânia e se opõe a uma integração acelerada na UE, mas rejeita a retórica hostil da Rússia em relação a Kiev.
Em relação à pauta anti-imigração, sua postura é mais rígida que a de Orbán ao prometer encerrar o programa governamental de trabalhadores convidados. No entanto, sua visão sobre os direitos da população LGBTQIA+ tem sido vaga, embora defenda a igualdade perante a lei.
