Com Ormuz fechado, Iraque usa caminhões para escoar petróleo pela Síria até o Mediterrâneo; EUA discutem reativação de oleoduto entre os dois países
O Iraque está usando uma vasta frota de caminhões para transportar óleo combustível pela Síria e redirecionar o fluxo de petróleo para longe do Estreito de Ormuz, transformando rapidamente seu vizinho no principal centro de exportação do Oriente Médio.
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Em apenas alguns meses, com Ormuz bloqueado pelo Irã em razão do conflito com os EUA, a Síria passou de não exportar nenhum combustível para representar mais de um quarto do volume do Oriente Médio.
Os estoques estão entrando no país em milhares de caminhões que podem levar até quatro dias para chegar aos portos sírios no Mediterrâneo, e ilustram como a guerra está alterando a distribuição de petróleo na região.
Os países do Golfo Pérsico têm buscado maneiras de reduzir sua dependência de Ormuz para exportações, inclusive por meio de oleodutos já existentes ou novos e pela expansão da infraestrutura em portos localizados fora da hidrovia.
Uma nova escalada nas hostilidades na região está afetando o transporte de cargas de combustível, ressaltando ainda mais a importância de rotas alternativas.
Cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo passava por Ormuz antes da guerra iniciada com os ataques de EUA e Israel ao Irã em fevereiro.
O aumento acentuado também realça os esforços para integrar a Síria à economia global, após os EUA terem suspendido anos de sanções e apoiado a recuperação do país.
A nação é cada vez mais vista como uma porta de entrada para o petróleo iraquiano, incluindo planos para a construção de oleodutos, de forma a enfraquecer a influência do Irã sobre Ormuz.
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O óleo combustível, usado no transporte marítimo e na geração de energia, é o principal combustível refinado que o Iraque exporta.
Mas, com as tensões no Golfo Pérsico e a capacidade limitada de contornar o Estreito de Ormuz, o país está tendo que encontrar outras rotas para evitar que as refinarias fiquem sem espaço de armazenamento e sejam forçadas a fechar.
Isso, por sua vez, afetaria o fornecimento de outros combustíveis, como gasolina e diesel.
O país também busca reforçar sua receita petrolífera depois que o fechamento do Estreito de Ormuz afetou duramente suas finanças.
Além de recorrer à Síria, também está enviando caminhões carregados de óleo combustível pela Jordânia, e comerciantes dizem que pequenos volumes de petróleo bruto — a base de sua economia — estão sendo transportados da mesma forma.
Esses fluxos podem se revelar cruciais para a Síria, que busca se recuperar do impacto da guerra civil.
O presidente Donald Trump recentemente elogiou o líder sírio Ahmed al-Sharaa, enquanto o presidente francês Emmanuel Macron fez uma visita de Estado e o CEO da TotalEnergies SE, Patrick Pouyanne, destacou o país como uma possível rota para um gasoduto.
— Há uma confluência de fatores, o Iraque buscando maneiras de movimentar produtos, em particular — disse Raad Alkadiri, sócio-gerente da 3TEN32 Associates, uma consultoria de risco político com sede em Washington especialista em Oriente Médio.
Embora no passado tenha havido transporte rodoviário liderado pelo Estado para levar combustível ao Golfo Pérsico, "desta vez há uma inclinação mais comercial, que serve à ambição política de melhorar os laços estratégicos com os EUA", disse ele.
A oeste do Golfo, os Emirados Árabes Unidos já conseguiram contornar parcialmente o estreito usando um oleoduto existente para manter parte do petróleo bruto circulando pelos portos em sua costa leste e estão acelerando a construção de outro oleoduto, enquanto planejam uma grande expansão dos portos orientais fora de Ormuz.
A Arábia Saudita também recorreu a um oleoduto para o porto de Yanbu, em sua costa oeste, e o Kuwait está em negociações com seus vizinhos sobre a expansão de seus sistemas de oleodutos para lidar com seus barris.
O Iraque também está trabalhando em planos para construir novos oleodutos de petróleo bruto e reabilitar os mais antigos para evitar Ormuz.
O óleo combustível iraquiano ajudou a Síria a exportar 720 mil toneladas em junho, de acordo com dados da consultoria Vortexa.
Isso a tornou a maior exportadora do produto no Oriente Médio, representando 28% do volume.
De barril em barril
Um número enorme de caminhões é necessário para igualar a capacidade de um navio.
Cada caminhão transporta cerca de 20 toneladas, ou 135 barris, no trajeto de quatro a seis dias até os portos da Síria e da Jordânia.
Em comparação, cerca de 300 mil barris poderiam ser carregados em um navio que transporta cargas para um petroleiro maior em alto-mar, com capacidade para cerca de 700 mil barris.
Operadores do mercado estimam que o fluxo de óleo combustível transportado por caminhão na Síria ultrapassou 600 mil toneladas no mês passado, com o porto mediterrâneo de Baniyas recebendo milhares desses veículos.
A Lytton SA, empresa com sede em Genebra e ligações com o Iraque, foi responsável pela maior parte do transporte rodoviário, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que pediram para não serem identificadas, pois os detalhes dos contratos são confidenciais.
Ao mesmo tempo, cerca de 100 mil toneladas de óleo combustível por mês são transportadas por caminhão até o porto jordaniano de Aqaba, no Mar Vermelho, com alguns volumes comercializados pelo Grupo Rania, do Iraque, disseram as fontes.
O Ministério do Petróleo do Iraque aponta para fluxos ainda maiores, estimando que 1 milhão de toneladas de óleo combustível exportado foram transportadas por caminhão para a Síria e a Jordânia em junho, um aumento em relação às cerca de 500 mil toneladas em maio.
A Lytton não quis se manifestar para esta reportagem.
A Rania não respondeu a um e-mail solicitando comentários e não pôde ser contatada por telefone.
Uma questão fundamental é se o Iraque também redireciona volumes significativos de exportações de petróleo bruto.
O país era o segundo maior produtor de petróleo da OPEP antes da guerra e suas exportações de petróleo bruto são muito maiores do que seus embarques de óleo combustível.
— Isso potencialmente é prenúncio de uma movimentação de petróleo bruto a longo prazo — embora exija uma infraestrutura de oleodutos aprimorada para diminuir a dependência do Iraque do Estreito de Ormuz, disse Alkadiri, da 3TEN32.
Investimento dos EUA
Uma possibilidade é o oleoduto Kirkuk-Baniyas, que está fechado há mais de duas décadas.
Thomas Barrack, enviado especial dos EUA para a Síria e o Iraque, participou de reuniões com autoridades de ambos os países, bem como com as de empresas como a Chevron, para discutir a reativação do oleoduto, informou a Bloomberg na terça-feira.
Um funcionário do Departamento de Estado confirmou que o governo dos EUA está apoiando os esforços do Iraque e da Síria para melhorar as rotas comerciais por meio da reabilitação do oleoduto e espera que empresas americanas desempenhem um papel em sua construção.
No entanto, a construção de oleodutos na Síria levaria tempo e enfrentaria desafios, incluindo a necessidade de transitar por áreas onde células do Estado Islâmico permanecem ativas.
A curto prazo, mesmo que o conflito no Oriente Médio termine e o tráfego pelo Estreito de Ormuz volte ao normal, o fluxo de caminhões no Iraque poderá continuar, já que o país mantém suas exportações diversificadas, dizem os comerciantes.
— A guerra fez com que as pessoas refletissem sobre a importância da diversificação das rotas de exportação — disse Alkadiri.
— E, de certa forma, trouxe de volta o pensamento iraquiano que prevalecia na década de 1980, que era: "Se a rota do Ormuz é vulnerável, quais são as outras opções?".
