Com 'momento de expansão' no mercado, BNDES acelera ritmo dos incentivos aos biocombustíveis em 2026
Principal financiador do setor de biocombustíveis no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) prevê continuidade nos investimentos após o ano de 2025. Só nos dois primeiros meses de 2026, já foi aprovado R$ 1,6 bilhão para empresas do setor, um quarto do recorde de R$ 6,4 bilhões registrado no ano passado.
— O mercado vive momento de expansão, a partir do etanol de milho, principalmente. Não é à toa que estamos batendo recorde de apoio ao setor. O BNDES é um grande termômetro de investimento na economia — avalia José Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco.
A principal linha de financiamento do BNDES para biocombustíveis é o Fundo Clima, que, neste ano, deve chegar a R$ 27 bilhões (ante R$ 12 bilhões em 2025). A taxa de juros é de 6,5% ao ano, com 192 meses para amortização.
A disposição de estimular biocombustíveis levou o banco a discutir diferentes mecanismos de financiamento. Uma opção para ir além do Fundo Clima, por exemplo, tem sido o lançamento de FIPs (Fundo de Investimento em Participações) de apoio a startups.
Programa BNDES RenovaBio investe em plantas de biocombustíveis em SP e MT
Divulgação/Agência BNDES
Com a Petrobras e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o BNDES lançou, em 2025, um FIP de R$ 500 milhões, na modalidade Corporate Venture Capital (CVC), para alavancar negócios de transição energética e descarbonização, entre eles o de biocombustíveis. A intenção é investir em participações minoritárias em startups e em micro, pequenas e médias empresas de base tecnológica. A Valetec foi escolhida para gerir o FIP e, até o fim do ano, devem ser selecionados dois de um total de 15 projetos beneficiados.
— A gente quer consolidar o CVC como instrumento estratégico de pesquisa e desenvolvimento, complementando as parcerias tecnológicas tradicionais — diz Luiza Contursi, gerente de Integração de Portfólio e Novas Tecnologias da Petrobras, frisando que o cenário atual é uma oportunidade para a empresa acelerar a posição em transição energética.
— A ideia é atuar em projetos na fronteira tecnológica, fazendo um trabalho direcionado. Essa é uma tendência das petrolíferas. O critério do BNDES é mais amplo, porque atinge empresas de todos os segmentos — complementa o gerente-executivo de Energias Renováveis, Rodrigo Leão.
Modelo é desafio
A Petrobras também lançou um edital, junto com a Finep, para selecionar projetos de biorrefino, entre eles o de SAF, o querosene de aviação sustentável. Nesse caso, vai escolher um ecossistema, entre universidades, centros de pesquisa, empresas e startups, que devem se unir para encontrar soluções tecnológicas.
O BNDES aprovou empréstimo de R$ 1 bilhão com juros mais baixos para o programa de construção de usinas de “etanol de segunda geração” (E2G) da Raízen, em SP
Divulgação
Na avaliação do Instituto E+, o modelo atual tem sustentado o crescimento recente, mas opera com arquitetura de risco desequilibrada. A visão é que o crédito público, especialmente via BNDES, tem papel central em viabilizar condições de financiamento de longo prazo e reduzir o custo do capital. A decisão de investimento, porém, depende da disposição de investidores e financiadores em assumir o risco do projeto, com base na expectativa de retorno.
— Esse desequilíbrio fica mais evidente nas novas fronteiras tecnológicas. Projetos como o SAF e o hidrogênio de baixo carbono enfrentam o chamado vale da morte financeiro. O capital privado, sobretudo em um ambiente de juros elevados, tende a ser mais seletivo e avesso ao risco tecnológico, o que mantém o peso da inovação concentrado no setor público, especialmente via BNDES e Finep — explica Rosana Santos, diretora executiva do instituto.
*Especial para O GLOBO
