Com meta de emissões líquidas zeradas até 2050, setor de navegação embarca em corrida pela descarbonização
Na corrida pela descarbonização, produtores de combustíveis e empresas de diversos setores têm acelerado o desenvolvimento e a adoção de alternativas energéticas para a navegação, com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar a eficiência. Entre as principais apostas estão o hidrogênio verde, o etanol, óleos vegetais, gorduras e até resíduos, como o óleo de cozinha usado, que surgem como substitutos ao tradicional bunker empregado na propulsão naval.
O movimento atende às metas estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMO) de reduzir ao menos 20% das emissões totais de poluentes até 2030 como parte do esforço para descarbonizar o transporte marítimo e alcançar emissões líquidas zero por volta de 2050. Para Julia Touriño, advogada ambiental do Kincaid Mendes Vianna Advogados, o compromisso acelera projetos ao oferecer maior previsibilidade ao mercado:
— Ao fixar metas, a IMO transforma a descarbonização da navegação em uma obrigação regulatória progressiva, e não mais em mera agenda voluntária ou reputacional.
Laboratório da JBS, que criou a Biopower para produzir biodiesel a partir de resíduos como o óleo de cozinha
Divulgação/ JBS
Filipe Bonaldo, da consultoria A&M Infra, lembra que as diversas matérias-primas utilizadas com esse fim trazem incerteza sobre qual rota tecnológica prevalecerá em um mercado global que consome 200 bilhões de litros por ano:
— Enquanto alternativas como o biodiesel já vêm sendo testadas, rotas como o hidrogênio verde exigem mudanças sistêmicas e na infraestrutura, pois não são compatíveis com os sistemas atuais. Além disso, o combustível verde ainda apresenta um custo significativamente superior ao bunker tradicional.
Embarcação pioneira
A despeito dos desafios, a Vale acaba de anunciar a conclusão de um acordo de fretamento para dois novos navios movidos a etanol, que serão entregues a partir de 2029 e terão potencial de reduzir em cerca de 90% as emissões de carbono, na comparação com o óleo combustível pesado.
— É a primeira vez que o etanol será adotado como combustível principal numa embarcação transoceânica — frisa Rodrigo Bermelho, diretor de Navegação da Vale.
Vale fechou acordo de fretamento para dois novos navios movidos a etanol
Divulgação/Vale
Já a Wilson Sons, operadora de logística portuária e marítima, aposta em biodiesel nas embarcações como oportunidade de descarbonização. Diretor da empresa, Gustavo Machado conta que o óleo de cozinha já vem sendo usado na produção do combustível há um ano, ajudando a reduzir as emissões em mais de 80%:
— A estratégia é testar alternativas de biocombustíveis e avaliar o funcionamento e a performance dos motores principais das embarcações.
A Ocyan, que atua na prestação de serviços para a indústria de óleo e gás, desenvolveu, em parceria com outras empresas, uma técnica que usa hidrogênio para otimizar a combustão em motores a diesel de grande porte em embarcações. A meta é reduzir em até 10% as emissões de gases de efeito estufa e o consumo de combustível.
— O projeto está em fase de desenvolvimento, com aplicação inicial para plataformas de perfuração, mas já estamos explorando também o potencial de replicar essa inovação para embarcações de apoio e navegação que utilizam motores a combustão a diesel, assim como para vários outros setores — afirma Rodrigo Chamusca, gerente executivo de Negócios Digitais e Tecnologias da Ocyan. — As metas globais de descarbonização ajudam a direcionar os esforços das empresas a investir em soluções que busquem a redução das emissões, tanto no transporte marítimo quanto em outras indústrias.
