Com medo de fiscalização do Exército, venezuelanos cruzam a pé a fronteira com o Brasil após crise no país
Com receio de abordagens e controles intensificados do lado brasileiro, migrantes venezuelanos e moradores de cidades do sul do país vizinho passaram a cruzar a fronteira com o Brasil a pé, em um movimento que se tornou recorrente em Pacaraima desde a deflagração da nova crise política na Venezuela. Muitos caminham por horas até chegar ao marco divisório entre os dois países, enquanto outros são deixados por atravessadores nas proximidades da fronteira e orientados a seguir a pé até o território brasileiro.
O GLOBO acompanhou, ao longo dos dois últimos dias, a chegada de venezuelanos e ouviu relatos de quem cruza a fronteira por conta própria e também de quem lucra com o transporte de pessoas entre a Venezuela e o Brasil.
Em apenas duas horas de observação na linha de fronteira, a reportagem contou cerca de 150 pessoas atravessando a pé para o lado brasileiro, muitas delas carregando toda a bagagem que conseguiram trazer do país vizinho.
Segundo os migrantes, motoristas que fazem o transporte irregular evitam se aproximar do posto migratório brasileiro por medo de fiscalização. A orientação é que os passageiros desçam antes do controle e sigam a pé. A prática obriga famílias inteiras a caminhar carregando sacolas, mochilas improvisadas, utensílios domésticos e, em alguns casos, crianças de colo.
Foi assim que André González, de 52 anos, atravessou a fronteira carregando uma grande trouxa de roupas sobre a cabeça. Natural de Casanay, no estado de Sucre, ele contou que deixou a Venezuela pela primeira vez após a morte da esposa, em agosto do ano passado.
— Eu não queria vir. Fiquei na minha casa. Mas minhas filhas já estavam fora e diziam que eu não podia continuar lá sozinho. Minha esposa morreu em agosto, e depois disso tudo ficou mais difícil — relatou.
O Globo flagra venezuelanos cruzando fronteira de forma clandestina
Segundo González, a situação econômica no país se tornou insustentável, especialmente para quem depende de trabalhos informais. Ele afirmou que sempre encontrou formas de sobreviver, mas que as oportunidades diminuíram drasticamente.
— A situação está dura. Não vou dizer que está fácil. A economia está dura. Quando a pessoa só sabe fazer uma coisa, fica mais complicado. Mas eu faço de tudo. Trabalho com refrigeração, rebobinando motores, trabalho em construção. Faço o que aparecer — disse.
A viagem até a fronteira levou cerca de 24 horas. González contou que deixou a mãe para trás e seguiu sozinho rumo ao Brasil, incentivado por familiares que já vivem no país. O destino final é Manaus, onde ele espera encontrar trabalho.
— Minha irmã já está aqui no Brasil. Ela me disse que é bom, que é tranquilo, que gosta do país. Aí resolvi vir também. Agora é seguir — afirmou, antes de retomar a caminhada.
Outro migrante, Marco Nosto, de 46 anos, atravessou a fronteira carregando, além de uma trouxa de roupas, uma caixa com utensílios domésticos. Ele contou que pagou US$ 10 a um motorista para ser levado até o posto de controle do Exército venezuelano. De lá, caminhou cerca de dois quilômetros até o lado brasileiro.
— Não estou trazendo nada ilegal, mas o motorista ficou com medo de ser preso — explicou.
Nosto afirmou que deixou a Venezuela por causa da fome e do medo do regime de Nicolás Maduro, que, segundo ele, continua exercendo influência política no país apesar da prisão.
— Saí da Venezuela por causa da fome e do medo do regime Maduro. Não tem mais como viver lá. Amo meu país, mas agora tudo está mais difícil. Sem renda, sem dinheiro para comida e agora também sem saber quem vai mandar no país — desabafou.
Ao longo do dia, a cena se repete na fronteira. Homens, mulheres e crianças chegam exaustos após horas de caminhada sob sol forte. Muitos relatam ter passado dias na estrada antes de alcançar Pacaraima, com pouco acesso a água e comida.
Apesar do temor inicial de que a crise política pudesse gerar um fluxo desordenado de entrada no Brasil, autoridades militares afirmam que a situação segue sob monitoramento e, até o momento, dentro da normalidade. Na prática, porém, o aumento da fiscalização e o medo de abordagens têm empurrado os migrantes para travessias cada vez mais precárias.
Para quem chega, o destino imediato é buscar abrigo, trabalho e algum tipo de assistência. Muitos seguem viagem para Boa Vista ou Manaus, enquanto outros permanecem em Pacaraima à espera de vagas em abrigos ou de alguma oportunidade. Para todos, a travessia a pé marca o início de uma tentativa de reconstrução da vida — agora em território brasileiro.
