O fluxo constante de trabalhadores estrangeiros qualificados (profissionais de nível superior/administrativo) para o Japão desacelerou desde o outono passado. A disseminação da inteligência artificial reduziu a demanda por profissionais de TI e tradutores, ao mesmo tempo em que o governo intensificou a fiscalização contra supostos abusos desse status de residência.
O “Nikkei Asia” analisou dados da Agência de Serviços de Imigração sobre estrangeiros que detêm o status de "profissional altamente qualificado". O número de titulares desse status vinha aumentando de forma constante desde 2022, quando o impacto da pandemia de covid-19 diminuiu — uma tendência que persistiu apesar da desvalorização do iene.
No entanto, o número de estrangeiros com esse status que entraram no país pela primeira vez caiu em relação ao ano anterior em setembro de 2025, mantendo uma queda entre 20% e 40% ao longo deste ano.
"As vagas de emprego despencaram por causa da IA", afirmou um consultor de carreira de uma escola profissionalizante voltada para a área de TI em Osaka. Dos cerca de 40 estudantes estrangeiros que se formarão na próxima primavera, apenas alguns receberam ofertas de emprego até o início de setembro — um número bem inferior à média habitual de uma dúzia ou mais.
Uma empresa que anteriormente contratava vários alunos da escola não está recrutando ninguém desta turma. O presidente da empresa informou à escola, em maio, que não há mais necessidade de contratar estudantes estrangeiros em início de carreira.
A B-cause, empresa que presta serviços de tradução e interpretação, registrou uma queda de cerca de 30% nas vendas desse segmento em relação ao pico de 2023. Antes da pandemia, a empresa alocava ou enviava dezenas de trabalhadores estrangeiros anualmente, mas esse número caiu para um dígito.
O executivo-chefe (CEO), Kim Chungu, disse ter notado uma mudança no outono de 2025. A B-cause apresentou uma grande empresa a um candidato chinês que havia se formado em uma universidade japonesa, trabalhado como engenheiro por sete ou oito anos e obtido aprovação no nível mais alto do Exame de Proficiência em Língua Japonesa. No passado, a contratação desse candidato teria sido praticamente certa, mas a empresa o rejeitou.
"A demanda caiu devido à disseminação da IA, e as barreiras para a contratação de estrangeiros tornaram-se muito maiores", disse Kim.
Muitos também relataram uma fiscalização mais rigorosa por parte das autoridades de imigração.
Uma operadora de hotéis na região central de Chubu foi informada, no outono passado, pela Agência de Serviços de Imigração, de que estava empregando um número excessivo de funcionários estrangeiros. A empresa havia solicitado a contratação de trabalhadores estrangeiros para atender clientes do exterior, mas a escassez de mão de obra fez com que esses funcionários também passassem a atender viajantes domésticos.
"Não conseguiríamos operar sem nossos funcionários estrangeiros", disse um executivo da operadora hoteleira. "O endurecimento das análises está desconectado da realidade."
O número de portadores do status de "profissional altamente qualificado" mais do que triplicou na década encerrada em 2025, superando no ano passado o número de vistos da categoria "trabalhador qualificado específico". O governo japonês havia incentivado ativamente a vinda desses profissionais, mas mudou de postura para combater abusos percebidos.
Obter o status de profissional altamente qualificado exige menos tempo e esforço do que as categorias de trabalhador qualificado ou estagiário técnico, e a colocação no mercado via agências de recrutamento costuma ser ágil. No entanto, há relatos de que alguns portadores desse status realizam trabalhos não qualificados em fábricas, restaurantes ou hotéis de forma ilegal.
Em 2024, cerca de 200 vietnamitas com status de profissional altamente qualificado foram enviados para trabalhar em uma unidade fabril.
Considerando a fiscalização excessivamente branda, Tóquio tornou as regras mais rígidas desde março. Agências de recrutamento e empregadores devem apresentar garantias por escrito de que os profissionais estrangeiros não realizarão trabalhos fora do escopo de seu status.
Em abril, o Japão passou a exigir comprovação de proficiência na língua japonesa para cargos de atendimento ao público que envolvam o uso do idioma, como serviços de interpretação e recepção de hotéis.
"O fluxo de profissionais altamente qualificados pode diminuir ainda mais daqui para a frente", afirmou o advogado Shohei Sugita, especialista na contratação de trabalhadores estrangeiros. "A combinação de processos de seleção mais rigorosos e a relutância em contratar pode representar um golpe duplo."
Ainda assim, alguns observadores preveem uma demanda sólida por trabalhadores estrangeiros em determinadas áreas.
"Mesmo que as contratações para funções que fogem ao propósito original do sistema diminuam, ainda há uma necessidade constante de talentos para atender turistas estrangeiros e realizar vendas para o exterior", disse Kouichi Takeuchi, presidente da Globalpower, empresa que administra o "Ninja", um site de busca de empregos voltado para profissionais estrangeiros qualificados.
A mudança de postura do governo japonês afeta tanto os trabalhadores estrangeiros atuais quanto os potenciais candidatos.
Pessoas que cogitavam trabalhar no Japão estão buscando oportunidades em outros lugares. Trabalhadores que já estão no país temem não conseguir renovar seu status. A notícia sobre a dificuldade de encontrar emprego está se espalhando entre estudantes internacionais, e a participação em algumas reuniões informativas de escolas caiu pela metade em apenas um ano.
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