Com IA consolidada, colégios do Rio adotam medidas para garantir uso ético e crítico da ferramenta
A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar uma realidade concreta no cotidiano escolar. Na cidade, escolas de diferentes perfis e níveis de ensino têm experimentado estratégias inovadoras para integrar a IA à educação, buscando promover não apenas habilidades técnicas, mas também pensamento crítico, ética digital e autonomia intelectual. Desde políticas institucionais até protocolos pedagógicos, passando por formações docentes e participação em debates globais, há um movimento educativo que busca preparar os alunos para um mundo cada vez mais interconectado e digital.
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Política interna
No Colégio Andrews, no Humaitá, a inovação veio na forma de uma política institucional inédita, alinhada ao Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola. A iniciativa estabelece diretrizes claras sobre o uso da IA, com início a partir do 4º ano do ensino fundamental, sempre sob supervisão docente. A política organiza o aprendizado em quatro eixos: pensamento crítico e curadoria de informações; engenharia de prompts; consciência de autoria; e letramento algorítmico, com foco em compreender, questionar e avaliar a tecnologia, e não apenas em utilizá-la, como explica Adriana Rodrigues, diretora pedagógica do colégio:
— O Andrews busca um caminho de equilíbrio no uso da tecnologia, valorizando uma abordagem formativa que fortalece a mediação pedagógica e os processos de aprendizagem dos alunos, e não apenas os resultados finais.
Anderson Sobreira, coordenador de Educação Tecnológica, detalha a experiência:
— O uso de IA é uma realidade que se impõe e que, inevitavelmente, atravessa o universo escolar. Começamos a pensar no tema em 2023, quando realizamos nossa primeira formação docente sobre o ChatGPT, pouco tempo depois do lançamento da ferramenta. Desde então, nossos professores passam por treinamentos e participam diariamente de um fórum para troca de experiências do que já vem sendo realizado em sala de aula.
Andrews. Professores do setor de Educação Tecnológica: IA foi alinhada à política institucional com o objetivo de guiar os alunos a usar a ferramenta de forma ética e crítica
Divulgação/Andrews
Um exemplo prático dessa política é o projeto do 7º ano em que alunos pesquisaram animais silvestres e, a partir dessas informações, utilizaram a IA para criar imagens e cartas de um jogo de Super Trunfo.
— Os jovens precisaram pensar, inclusive, em quais seriam os comandos dados à IA para a produção das cartas. O resultado foi divertidíssimo — recorda Sobreira.
Sinais verde, amarelo e vermelho
Também localizado em Botafogo, o Cubo Global School aposta em uma abordagem visual e lúdica por meio do Protocolo Semáforo, lançado este ano. A proposta categoriza o uso da IA em três cores: verde, incentivado; amarelo, supervisionado; e vermelho, proibido.
— Nosso objetivo não é proibir ou restringir, mas ensinar. Queremos que os alunos saibam usar a IA de forma crítica, entendendo como ela funciona e quais são os riscos e as possibilidades. O Protocolo Semáforo dá essa clareza — explica o diretor José Antônio Júnior.
O semáforo da IA torna explícita a diferença entre usos permitidos, supervisionados e proibidos. Treinar uma inteligência artificial para criar mapas mentais ou organizar ideias com apoio do professor entra na zona verde; testar sistemas de IA para responder a perguntas exige supervisão e enquadra-se na zona amarela; e copiar textos ou entregar respostas geradas pela máquina sem autoria própria está na zona vermelha.
— O protocolo reforça o papel da escola de assegurar que a IA nunca substitua o pensamento, a autoria ou a mediação docente. A inteligência artificial não pode tirar o lugar do pensamento. Por isso, formamos alunos que conhecem, dominam e, principalmente, sabem quando é e quando não é o momento certo de usá-la — reforça Júnior.
A aplicação do Protocolo Semáforo se estende a projetos interdisciplinares e sociais, conectando os conteúdos curriculares à ciência de dados, à prototipagem de soluções e ao debate ético sobre tecnologia e sociedade. Professores multiplicadores e um Comitê de Ética em IA asseguram que o uso da tecnologia seja alinhado a valores pedagógicos, éticos e legais.
Sá Pereira. André Gusman, especialista em IA aplicada à educação, ministra oficina para educadores
Divulgação/Sá Pereira
Formação docente
No Colégio Sá Pereira, também em Botafogo, o enfoque está na formação docente como estratégia central para a integração da IA. Após o ciclo intensivo de oficinas conduzido por Andre Gusman, CEO do Grupo Raiz Educação e especialista em IA aplicada à educação, os professores passaram a utilizar em sala estratégias pedagógicas envolvendo inteligência artificial, desde trilhas personalizadas de aprendizagem até projetos interdisciplinares que a combinam com ética digital.
Helcio Alvim, diretor da escola, afirma que o compromisso do grupo é garantir que a inteligência artificial esteja a serviço de uma educação que respeite a diversidade, promova a criticidade e valorize a escuta pedagógica.
— Isso só é possível com formação, diálogo e intencionalidade —diz ele.
Durante as formações, realizadas ao longo de 2025, os docentes aprenderam a usar a tecnologia como ferramenta de apoio à avaliação e ao acompanhamento pedagógico, fortalecendo a personalização da aprendizagem sem substituir o olhar atento e a escuta pedagógica. Gusman reforça:
—O letramento em inteligência artificial foi essencial para ampliar o repertório dos professores e fortalecer a confiança no uso das novas ferramentas. A formação mostrou que a IA pode apoiar o trabalho em sala de aula, mas jamais substituir a escuta e o olhar atento do professor.
Cubo Global School. O Protocolo Semáforo categoriza o uso da IA em cores
Divulgação/Cubo Global School.
Manual de uso
Na Gávea, a Escola Americana do Rio de Janeiro (EARJ) desenvolveu os AI Handbooks, manuais pedagógicos que orientam alunos, professores e famílias sobre o uso consciente da IA. Carlos Eduardo Pinho, diretor de tecnologia educacional, explica:
— Quando a inteligência artificial começou a aparecer de forma mais evidente no cotidiano dos alunos, ficou claro para nós que simplesmente permitir ou proibir o uso não resolveria o problema. A IA já estava presente fora da escola, nos celulares, nas plataformas digitais, nas pesquisas do dia a dia. Ignorar isso seria ingenuidade. Proibir, ineficaz. O que faltava era letramento.
Os manuais não surgiram como regras punitivas, mas como ferramenta pedagógica. Desde cedo, os alunos aprendem que a tecnologia é aliada do aprendizado, mas não substitui o esforço intelectual, e são estimulados a questionar resultados, verificar vieses algorítmicos e explicitar sua própria autoria.
— A ideia sempre foi dar clareza. Explicar o que é a IA, como ela funciona, onde ela pode ajudar e, principalmente, onde estão seus limites. Queríamos sair do discurso genérico e trazer a discussão para o campo da prática, da ética e da autoria — complementa Pinho.
Escola Americana. Manuais pedagógicos que orientam sobre o IA
Divulgação/Escola Americana
PUC em livro da Igreja sobre o tema
No cenário universitário, a PUC-Rio se destacou em um debate internacional sobre inteligência artificial ao participar no Vaticano do lançamento do livro “Artificial Intelligence and care of our common home”. A obra, solicitada pelo Papa Francisco, reúne especialistas de diversas universidades católicas para refletir sobre os impactos da IA em áreas como educação, comunicação, indústria e finanças. Dois professores da universidade assinam o terceiro capítulo do livro, que congrega contribuições de acadêmicos de diferentes países. Um dos autores do capítulo é Edgar Lyra, professor e coordenador da área de compliance da PUC-Rio.
— Se existe uma possibilidade real de atuação diante do avanço acelerado dessas tecnologias, ela passa necessariamente pela cooperação e pela interdisciplinaridade. A proposta é olhar para a tecnologia com atenção à sua complexidade e aos seus desafios, de forma sóbria. Queremos contribuir para que o desenvolvimento da inteligência artificial ocorra de maneira ética, responsável e alinhada aos valores cristãos — explica.
PUC. A professora Clarisse Souza com o Papa Leão XIV no lançamento
Divulgação/Vatican Media
Para a professora Clarisse Souza, também participante da obra, o trabalho internacional reforça o compromisso ético na formação dos alunos.
— Vemos nesse processo uma oportunidade de formar estudantes com um olhar mais independente, crítico e comprometido com a dignidade humana — afirma.
O livro defende que a inteligência artificial seja pensada não apenas do ponto de vista técnico, mas em diálogo com valores humanos e sociais. Essa orientação já tem sido aplicada também no ensino básico, estimulando reflexões desde o ensino fundamental.
Combinação com ciência de dados
Na rotina de João Pinheiro, aluno da 3ª série do ensino médio do Colégio Qi Tijuca, a inteligência artificial aparece na organização dos estudos, na preparação para provas e até na construção de apresentações. Ao revisar um trabalho, ele usa a tecnologia para entender a estrutura do texto, buscar artigos de referência e transformar informações em gráficos. Antes de uma avaliação, recorre à IA para montar materiais de estudo, cruzando questões antigas e possíveis abordagens dos exames — sempre conferindo cada dado. Para Pinheiro, a tecnologia também ajuda a tornar conteúdos abstratos mais compreensíveis.
— Utilizo a IA como apoio, mas sei que nada substitui o humano. Em sala de aula, o professor percebe, muitas vezes pelo olhar, se a turma está compreendendo o conteúdo e ajusta a forma de explicar — conta. — Em química, imagens geradas de moléculas ajudam muito a visualizar o conteúdo. Em física, isso facilitou bastante a compreensão de temas como óptica.
João Pinheiro, aluno da 3ª série Colégio Qi Tijuca, usa recursos digitais no apoio aos estudos
Divulgação/QI
A experiência de Pinheiro ajuda a ilustrar um movimento que aponta uma tendência clara: a integração entre inteligência artificial, ciência de dados e gestão escolar baseada em evidências. Nesse processo, dados e inteligência artificial cumprem funções diferentes, mas complementares. Os dados revelam o que acontece no dia a dia da escola — desempenho, frequência, engajamento, evolução por habilidades. A inteligência artificial atua sobre esse conjunto de informações, cruzando indicadores, automatizando análises e apoiando diagnósticos e previsões.
— A gestão escolar orientada por dados parte do uso intencional de informações que já fazem parte da rotina da escola para embasar decisões pedagógicas e estratégicas — explica Erick Griep, gerente executivo de inteligência pedagógica do Grupo Salta Educação, que reúne as redes pH, Pensi e Elite Rede de Ensino, esta última com unidades na Zona Norte. — A inteligência artificial potencializa essa leitura ao integrar dados dispersos e transformá-los em análises que orientam ações concretas.
Segundo Griep, indicadores como evolução do desempenho ao longo do tempo, frequência e engajamento permitem identificar riscos antes que eles se tornem problemas maiores, inclusive com o apoio de modelos preditivos baseados em machine learning — tecnologia que permite que sistemas aprendam com dados reais, como desempenho em atividades e avaliações, e identifiquem padrões que ajudam a orientar o trabalho pedagógico.
Esse movimento também se reflete no currículo. A partir de 2026, o Grupo Salta Educação implementa o DiaLab, um currículo inédito de inteligência artificial voltado para estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Na prática, os alunos passam a ter uma aula semanal de IA dentro da grade regular, com material digital, rubricas de projetos, integração ao currículo escolar e suporte pedagógico contínuo para os professores.
Em cada série, o curso será estruturado em três trilhas de dez aulas, sempre culminando em um projeto autoral desenvolvido pelos próprios estudantes. A proposta é ir além do uso instrumental da tecnologia, estimulando pensamento crítico, criatividade e compreensão ética sobre o funcionamento da inteligência artificial.
Soluções para problemas reais
No Colégio Matriz Educação, a tecnologia também passa a ser usada como ferramenta para transformar ideias em soluções com impacto real. A partir de 2026, a rede promove a primeira edição da Feira de Empreendedorismo com uso de Inteligência Artificial nas unidades de Madureira, Rocha Miranda e Tijuca.
A ideia é conectar tecnologia, propósito e protagonismo estudantil. Diferentemente das feiras escolares tradicionais, os alunos vão desenvolver projetos com apoio de ferramentas de IA, sempre com mediação dos professores, para criar soluções que façam sentido para suas famílias, escolas e comunidades.
— Antes, os projetos de empreendedorismo acabavam limitados por questões financeiras. São crianças e adolescentes que ainda não têm autonomia para tirar uma ideia do papel sozinhos. Por isso, era comum ver iniciativas simples, como venda de doces ou artesanato, com foco mais na experiência do que no impacto. Agora, os alunos poderão ir além. Imaginar, planejar e propor soluções mais conectadas com os desafios da vida real e com maior potencial de impacto na comunidade. Por exemplo, software de acompanhamento da qualidade de vida de idosos, uma rede digital de apoio a pequenos comerciantes locais e um aplicativo para conectar ONGs a voluntários de bairro, todos baseados na lógica da IA aplicada a problemas concretos — explica Hugo Carvalho, diretor-geral do Colégio Matriz Educação.
O professor Rômulo conduz atividade prática com alunos do Colégio Matriz, em aula voltada à experimentação e ao aprendizado colaborativo
Divulgação/Colégio Matriz Educação
Com a presença cada vez maior da inteligência artificial no cotidiano dos estudantes, escolas da Zona Norte intensificaram, em 2025, a formação de seus professores. A iniciativa surgiu após a constatação de que muitos alunos já utilizavam ferramentas de IA sem orientação pedagógica adequada.
O ciclo de oficinas foi conduzido por Andre Gusman, CEO do Grupo Raiz Educação — que reúne escolas como o Matriz e o Qi — e especialista em inteligência artificial aplicada à educação. A formação teve foco em situações práticas, como personalização da aprendizagem, uso responsável da tecnologia e aplicação da IA em tarefas pedagógicas, incluindo a geração de relatórios que apoiam o acompanhamento dos alunos.
— A inteligência artificial pode apoiar o trabalho pedagógico, mas não substitui a escuta, o diálogo e o acompanhamento humano — afirma Gusman.
Na vivência dos estudantes, a diferença aparece justamente quando a tecnologia entra em sala de aula com mediação. João Pinheiro relata que os professores não apenas incentivam o uso das ferramentas, mas orientam como utilizá-las.
— Com os professores, aprendemos a verificar se as informações estão corretas e a entender os limites da tecnologia. Também discutimos o uso ético da IA, especialmente em aulas de educação socioemocional, o que faz muita diferença — conta.
Tema de avaliação escolar
O uso de plataformas digitais também amplia o acompanhamento do desempenho dos alunos ao longo do tempo. No Colégio Qi Bilíngue, com unidades na Tijuca e no Méier, a inteligência artificial passa a integrar, a partir de 2026, o processo de avaliação diagnóstica e reforço pedagógico, por meio da plataforma Qi360. A ferramenta identifica dificuldades de aprendizagem e direciona os alunos a novos desafios, como vídeos explicativos e atividades de reforço com conexões entre diferentes áreas do conhecimento.
Os relatórios gerados também alertam as equipes pedagógicas sobre quedas de desempenho ou padrões de faltas, permitindo intervenções mais rápidas e direcionadas.
— O acompanhamento é feito de forma próxima pelos professores, que orientam e validam cada etapa do percurso do aluno — explica Andre Marinho, diretor-geral do Colégio Qi Bilíngue.
Aluna do Colégio Elite utiliza plataforma tecnológica como apoio ao processo de aprendizagem
Divulgação/Grupo Salta Educação
Na universidade
A IA também influencia o currículo das universidades. A Universidade Veiga de Almeida (UVA) lança este semestre mais de 30 novos cursos de graduação, nas modalidades presencial, semipresencial e à distância, acompanhando mudanças nas demandas do mercado de trabalho.
Entre os destaques está o novo curso presencial de Ciências de Dados e Inteligência Artificial, que integra fundamentos de computação e matemática a conteúdos avançados, como machine learning e deep learning — área da IA inspirada no funcionamento do cérebro humano, aplicada ao reconhecimento de imagens, voz, textos e outros padrões complexos.
— O mercado tem demandado profissionais capazes de lidar com grandes volumes de dados e de compreender como a inteligência artificial impacta processos, negócios e decisões. Nosso objetivo é oferecer uma formação alinhada a essas transformações, sem abrir mão de uma base acadêmica consistente — afirma Davino Pontual, diretor-executivo da UVA.
Além da nova graduação, a universidade amplia a oferta de cursos semipresenciais e à distância e investe na expansão das unidades da Zona Norte, que passam a disponibilizar também graduações híbridas. As unidades de Cachambi, Del Castilho, Madureira, Méier, Vila da Penha e Vila Valqueire integram esse movimento, com destaque para Madureira, que passa a contar com infraestrutura de laboratórios voltados às áreas de saúde e engenharias.
Campus Tijuca da UVA: oferta de graduações ampliada, incluindo áreas de ciência de dados e inteligência artificial
Divulgação/UVA
* Esta reportagem reúne conteúdo publicado nos especiais Educação do GLOBO-Zona Sul e do GLOBO-Zona Norte em 31/01.
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