Com horário de visitas estendido e festas temáticas, clínica de reabilitação busca reaproximar pacientes e suas famílias
A Clínica Jorge Jaber, em Vargem Pequena, tem apostado em educação e cultura como ferramentas auxiliares ao tratamento de transtornos emocionais, comportamentais e da dependência química. A proposta se materializa em duas frentes: encontros culturais semanais, dentro do projeto Hospital Tarde & Noite (HTN), e reforço escolar para adolescentes internados.
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Criado no ano passado, com o objetivo de fortalecer o vínculo entre pacientes e familiares, o Hospital Tarde & Noite ampliou o horário tradicional de visitas e passou a funcionar às sextas e aos sábados, das 16h às 20h.
— O paciente melhora quando está internado, mas, muitas vezes, a relação com a família não acompanha essa melhora. O HTN surge justamente para integrar a família ao tratamento — afirma o psiquiatra Jorge Jaber, diretor da clínica.
Os encontros culturais semanais foram pensados como uma forma de reaproximação. Realizados às sextas-feiras, chegam a reunir cerca de cem pessoas por edição, entre pacientes, familiares e equipe terapêutica. A cada semana, um país é escolhido como tema e serve de fio condutor para atividades que combinam meditação inspirada nos 12 passos dos grupos Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos, gastronomia típica, música, dança, filmes e apresentações culturais. Espanha, Catar, Marrocos, Peru, Rússia e Itália já passaram pela programação.
Desenhos realizados pelos pacientes da clínica durante os encontros culturais
Divulgação/Clínica Jorge Jaber
Para Jaber, a iniciativa amplia o cuidado para além da dimensão clínica.
— O tratamento não pode ser reduzido à interrupção do uso de substâncias ou ao controle de sintomas. Ele precisa reconstruir vínculos, oferecer experiências positivas e devolver ao paciente a possibilidade de estar com a família de forma saudável. Esses encontros criam memórias que ajudam no processo terapêutico — pontua.
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O impacto é especialmente perceptível entre adolescentes. Segundo o psiquiatra, muitos chegam à clínica após trajetórias marcadas por sofrimento psíquico intenso, tentativas de suicídio, abandono escolar e conflitos em casa.
— Há famílias que nunca tinham visto um filho adolescente rir, dançar ou se expressar dessa maneira. Isso tem um valor terapêutico enorme, tanto para o paciente quanto para o entorno — afirma o médico.
A concepção cultural do projeto é assinada pela internacionalista Valentina Soares, responsável por desenhar cada edição como uma experiência sensorial e educativa. Segundo ela, o formato também ajuda a reduzir o estigma associado à internação.
— A cultura funciona como ponte. Quando trabalhamos música, dança, comida e história de um país, criamos um ambiente de curiosidade e pertencimento que facilita o diálogo, a escuta e a convivência entre pacientes, familiares e equipe — explica.
Uma ex-paciente, de 16 anos, que esteve internada por dois meses no fim de 2025 e participou de oito encontros, relata que a experiência foi decisiva para se reaproximar do pai e da avó.
— Eu me arrumava, colocava uma roupa bonita e ficava esperando minha família chegar. Meu pai disse que eu trazia um semblante que ele nunca tinha visto — conta. — A cada noite, eu me sentia naquele país de verdade, pela música, pelo cheiro da comida, por tudo o que era compartilhado.
Reforço pedagógico
Além da agenda cultural, a clínica passou a oferecer, há cerca de quatro meses, reforço pedagógico para adolescentes internados. Atualmente, mais de dez jovens, a partir de 13 anos, participam das aulas, que acontecem duas vezes por semana e contemplam disciplinas como ciências, história e geografia. Os alunos também recebem materiais enviados por suas próprias escolas, o que permite acompanhar o conteúdo regular e evitar defasagens durante o período de internação.
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Segundo Jaber, esses jovens frequentemente abandonam a escola por causa do sofrimento psíquico. Muitas instituições de ensino entendem a necessidade da internação e colaboram enviando o material. O desafio, pondera, é adaptar o ensino à condição clínica de cada paciente. Segundo ele, o reforço precisa ser flexível e caminhar junto com o controle dos sintomas e a reorganização da rotina.
—Quando conseguimos devolver ânimo, convivência e sentido, o tratamento evolui mais rápido — afirma.
Uma das professoras do projeto é paciente da clínica. Licenciada em Português e Literatura e atualmente afastada do trabalho para tratamento, ela aceitou o convite para dar aulas como parte do processo terapêutico.
— Foi uma escolha muito boa, tanto para os alunos quanto para mim — diz ela, que prefere não se identificar. — Eu estava em uma depressão profunda, sem objetivos. Voltar a ensinar me devolveu planejamento, propósito e sensação de utilidade.
Segundo a professora, a experiência teve impacto direto em sua recuperação.
— Todo ser humano precisa se sentir produtivo. Eu trabalho desde os 18 anos com educação, e minha cognição melhorou muito depois que comecei a dar aulas aqui — afirma.
A professora avalia que, de forma geral, houve um estranhamento dos alunos em relação às aulas, algo que considera natural até pela idade deles. Entretanto, relata avanços significativos em alguns estudantes, como uma adolescente de 16 anos que inicialmente se mostrava resistente e retraída.
— Aos poucos, fui conquistando o interesse dela. Hoje ela conversa mais, participa. A doença mental é instável, há recaídas, mas cada avanço conta — reitera.
Para Jorge Jaber, a combinação entre educação, cultura e cuidado clínico ajuda a transformar a experiência da internação.
— Se um jovem chega querendo morrer e, em poucos dias, começa a sorrir, isso é uma vitória enorme. Às vezes, ainda nem deu tempo de o remédio fazer efeito, mas a convivência, o esporte, a aula e a cultura já estão produzindo mudanças — resume.
Assim, o HTN reforça a sua abordagem de tratamento humanizado, que articula cuidado médico, suporte psicológico, convivência social e estímulos educacionais.
— Quando o paciente se reconhece como sujeito de direitos, afetos e histórias, o tratamento ganha outra dimensão — conclui Jaber.
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