Com guerra entre Israel, EUA e Irã, moradores de Gaza correm para estocar alimentos: 'de novo não'
A notícia de ataques de Israel contra o Irã provocou, nas primeiras horas do sábado, uma reação imediata entre moradores da Faixa de Gaza. Em mercados e pequenos comércios, famílias passaram a comprar farinha, açúcar e óleo de cozinha em grande quantidade, temendo que o novo capítulo do conflito no Oriente Médio leve novamente à escassez de alimentos no território.
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Em Deir el-Balah, no centro da Faixa de Gaza, o palestino Hani Abu Issa, de 51 anos, saiu de casa apenas para comprar ingredientes para o iftar, a refeição que encerra o jejum diário do Ramadã. Ao chegar ao mercado, encontrou multidões e prateleiras começando a esvaziar. Um transeunte lhe explicou que Israel havia atacado o Irã, desencadeando um novo confronto regional.
Segundo ele relatou à Al Jazeera, o clima mudou rapidamente. Pessoas passaram a carregar sacos de farinha e a comprar tudo o que conseguiam, o que elevou os preços e reduziu a disponibilidade de produtos básicos.
Lembranças da fome recente
Embora a nova guerra não tenha impacto militar direto em Gaza até agora, moradores dizem que qualquer escalada na região desperta o temor de repetir os períodos de fome vividos recentemente. Hani afirma que ainda se recorda de quando precisou pagar mais de 1.000 shekels por um saco de farinha durante a fase mais crítica da guerra.
O receio aumentou depois que o COGAT, órgão israelense responsável pela administração civil dos territórios palestinos, anunciou o fechamento das passagens que ligam Gaza e a Cisjordânia ocupada “até novo aviso”, citando razões de segurança relacionadas à guerra com o Irã.
A decisão gerou incerteza sobre o abastecimento. Embora fontes locais tenham associado a medida também ao feriado judaico de Purim, moradores dizem não saber quanto tempo as restrições podem durar.
Corrida aos mercados
Em mercados de diferentes áreas do enclave, comerciantes relatam que o movimento se intensificou ao longo do fim de semana. Em Nuseirat, o vendedor Omar Al-Ghazali afirmou à Al Jazeera que a experiência recente de fome deixou marcas profundas.
Segundo ele, muitas pessoas compram por medo de que os alimentos desapareçam novamente ou que comerciantes passem a reter produtos. Mesmo sem combates diretos em Gaza neste momento, a memória do colapso alimentar pesa mais do que qualquer análise racional da situação, disse.
Nem todos conseguem estocar
Para muitas famílias, porém, a corrida aos mercados é impossível. Na Cidade de Gaza, Asmaa Abu Al-Khair, mãe de oito filhos, caminhava entre barracas sem conseguir comprar quase nada. Ela diz não ter dinheiro nem espaço para guardar mantimentos.
Segundo ela, muitas famílias deslocadas que vivem em tendas enfrentam a mesma realidade. Dependentes de renda irregular e ajuda humanitária, elas mal conseguem garantir as refeições diárias durante o Ramadã.
Temor de agravamento da crise
A decisão israelense também gerou forte reação entre palestinos nas redes sociais, onde muitos questionam se Gaza pode entrar em uma nova fase de escassez severa.
Ali al-Hayek, da Associação de Empresários Palestinos em Gaza, alertou que o fechamento das passagens pode interromper a distribuição de ajuda humanitária, afetar cozinhas comunitárias e dificultar viagens médicas urgentes para o exterior. Segundo ele, a economia local já encolheu mais de 85% desde o início da guerra, com a maioria da população abaixo da linha da pobreza e grande parte das atividades industriais paralisadas.
Al-Hayek defendeu pressão internacional para reabrir as passagens e garantir o fluxo de pessoas e mercadorias, ao mesmo tempo em que pediu que comerciantes evitem elevar preços em meio à crise, lembrando que o território vive o período do Ramadã e enfrenta uma das piores situações humanitárias de sua história recente.
