Com glamour, looks impecáveis e humor afiado, 'O diabo veste Prada 2' une nostalgia e atualização 20 anos após original
Muita coisa mudou nos 20 anos desde que o popular longa “O diabo veste Prada”, que agora ganha uma continuação, chegou aos cinemas pela primeira vez.
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Você se lembra de como era o mundo em junho de 2006? O quarteto mágico formado por Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká comandava a seleção brasileira em busca do hexa na Copa da Alemanha. O Brasil chorava a partida do humorista Bussunda, do “Casseta & Planeta”. Fernanda Montenegro arrasava como a vilã Bia Falcão na novela “Belíssima”, de Silvio de Abreu. O iPhone ainda não havia sido lançado e o PlayStation estava em sua segunda edição. No mundo das séries, “24 horas” e “The Office” brilhavam no Emmy, enquanto que, no cinema, “Crash: No limite” desbancava “O segredo de Brokeback Mountain” no Oscar. Twitter, Instagram e TikTok ainda não existiam. O Facebook dava seus primeiros passos, mas ainda era preterido por outra rede no Brasil: o Orkut.
“O diabo veste Prada 2”, estrelado por Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, acompanha Andy Sachs (Hathaway), uma jornalista premiada que passa por um momento de dificuldade na carreira e aceita a oportunidade de voltar a trabalhar na revista Runway, ainda sob comando da temida Miranda Priestly (Streep). Na publicação, Andy se depara com uma nova realidade, com a chefe precisando se adaptar aos novos tempos de crise da mídia impressa, crescimento das redes sociais e ambientes profissionais com menos tolerância para comportamentos tóxicos.
— As duas décadas que separam o original da nova produção soam como séculos, se considerarmos as inúmeras mudanças socioeconômicas que impactaram a indústria da moda — diz Paula Acioli, pesquisadora e analista de moda. — No filme de 2006, personagens e figurinos recheados de códigos de luxo exclusivos e excludentes traduziam com perfeição o espírito do tempo e a lógica que dominava a indústria no início dos anos 2000, de ditar regras e anular o debate, de impor padrões e afastar a diversidade, de incentivar o consumo desenfreado e sabotar a sustentabilidade. Interessante e oportuno o lançamento de “O diabo veste Prada 2” em tempos nos quais regras são questionáveis, o debate é inevitável e a sustentabilidade, mandatória.
Anne Hathaway, Meryl Streep e Stanley Tucci em "O diabo veste Prada 2"
Divulgação
Baseado em best-seller homônimo de Lauren Weisberger, o longa original recebeu duas indicações ao Oscar (melhor figurino e melhor atriz, para Streep) e faturou US$ 326 milhões nos cinemas mundiais, um número impressionante para uma comédia orçada em apenas US$ 35 milhões — valor significativamente menor do que os aproximadamente US$ 150 milhões que teriam sido gastos com a continuação.
“Há 20 anos, o filme foi caracterizado como ‘filme para meninas’. Foi antes de ‘Barbie’ e ‘Mamma Mia!’, antes de os estúdios perceberem que o público também queria assistir a filmes com mulheres à frente da história. Tivemos que brigar pelo nosso orçamento. Mas agora, querido, eles gastaram dinheiro”, declarou Meryl Streep em entrevista recente ao Late Show com Stephen Colbert.
A transição de pequena joia para blockbuster internacional também se viu na divulgação do novo filme, que ganhou uma turnê global com o elenco principal que passou por Cidade do México, Tóquio, Seul, Xangai, Nova York e Londres. O Rio de Janeiro não chegou a receber a equipe do filme, mas foi palco de luxuosa première de gala na semana passada, com direito a um tapete vermelho de aproximadamente 300 metros cruzando a praça da Cinelândia, do Theatro Municipal ao Cine Odeon, onde a obra foi exibida para convidados. Fã do longa original, a apresentadora Sabrina Sato foi uma das personalidades que cruzaram o tapete vermelho carioca.
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— Eu sou completamente apaixonada por moda, então estes filmes têm tudo a ver comigo. Sou fã da primeira e da segunda versão. Amo a Meryl Streep, a Anne Hathaway, a Emily Blunt, toda a turma — afirma Sabrina, que confessa: — Tem dias que eu acordo meio Miranda, tem dias que acordo meio Emily e tem dias que sou as duas no mesmo dia.
Anna Wintour
Como é de conhecimento geral, Lauren Weisberger inspirou-se em suas experiências como assistente de Anna Wintour na Vogue para escrever o livro “O diabo veste Prada”, lançado em 2003. O bom-humor do texto da autora, aliado ao imenso carisma de Meryl Streep na adaptação cinematográfica, acabou transformando um registro que poderia ser puramente crítico em uma, digamos, vilã amada. A partir do sucesso do longa original, a própria Anna Wintour passou a aceitar melhor a fama de durona e chegou a participar da campanha de divulgação da continuação.
Anna Wintour na premiere de 'O diabo veste Prada 2', em Nova York
Lanna Apisukh/The New York Times
Apresentadora do Telecine, Renata Boldrini destaca que o primeiro filme capturou com ironia e precisão os bastidores da moda e equilibrou perfeitamente entretenimento e discurso, com cenas e frases que viraram parte do imaginário pop.
— Sei várias frases de cor até hoje — conta a jornalista. — Meryl Streep conseguiu criar uma das mais fascinantes e icônicas vilãs da história do cinema. E a jornada da personagem da Anne Hathaway se conectou com muita gente.
Boldrini, que esteve presente na première carioca do novo longa, ressalta que a continuação acertou em cheio ao manter a essência que conquistou o público: “o glamour, os looks impecáveis e o humor afiado.”
— No filme, o universo da moda evolui, deixando claro que o poder migrou do impresso pro digital. E é justamente essa passagem de tempo, 20 anos depois, que dá frescor ao roteiro sem perder a identidade. Para os fãs, é aquele reencontro que entrega nostalgia e atualização na medida certa.
