Com Gabinete de Curiosidades e documentos históricos, Universidade de Coimbra relembra laços entre Brasil e Portugal

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Fonte da notícia: Valor Valor

O primeiro estudante brasileiro a cursar a Universidade de Coimbra, em Portugal, se matriculou em 1577 no curso de leis, como se chamava a faculdade de direito na época. Foram precisos quase quatro séculos para que, em 1917, a primeira mulher brasileira chegasse à mesma universidade.

Ela era América do Sul Fontes Monteiro, nascida no Maranhão e inscrita em letras germânicas. No entanto, não concluiu o curso.

Esses dados fazem parte do livro de matrículas da universidade que fica num arquivo onde há 12 quilômetros de documentos. O arquivo pode ser consultado por pesquisadores, mas não é aberto para os quase 400 mil turistas que visitam a universidade todos os anos e que se espalham pelo bairro onde inúmeros ônibus estacionam todas as manhãs desembarcando gente de diversas nacionalidades.

Dividida em vários prédios, um deles o antigo Colégio dos Jesuítas e o antigo palácio real onde vivia o rei Dom Dinis, criador da universidade, o campus se localiza num quadrilátero no alto de uma colina que dá vista panorâmica para a cidade. Em contraste com os prédios antigos, há outros do início do século XX de linhas austeras, muitas vezes identificados como um estilo de “arquitetura fascista”, que caiu no gosto de regimes totalitários de extrema direita.

Foi o caso de Salazar, em Portugal; da Espanha de Franco; da Itália de Mussolini; da Alemanha de Hitler, e até da comunista União Soviética de Stalin. Os críticos dessa nomenclatura argumentam que se trata de uma arquitetura típica de um determinado período histórico que tem outros exemplos em vários lugares do mundo e não deve ser naturalmente associada ao totalitarismo.

O certo é que a Universidade de Coimbra, fundada em 1290, um das mais antigas da Europa, atravessa várias épocas, seja do ponto de vista arquitetônico ou político, e visitá-la nos leva a um mergulho na história. Durante vários séculos foi um centro de pensamento de grande importância na formação da elite intelectual de língua portuguesa e com reflexos na história política do Brasil, especialmente durante o período colonial e o império.

O brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1839), por exemplo, conselheiro de Dom Pedro I e conhecido como o Patriarca da Independência, estudou lá e tem uma ala com seu nome. É uma galeria de minerais, visto que ele era também naturalista, além de político e poeta.

Outros documentos do arquivo mostram desde o lado festivo com vinhos e champanhe de uma viagem a Portugal da Princesa Isabel de Orleans e Bragança, que assinou a Lei Áurea, até cartas de portugueses que vieram para o Brasil no final do século XIX e início do XX, quando uma leva de cerca de 100 mil imigrantes econômicos veio para cá para fugir da pobreza.

Ao mostrar essas cartas, uma das arquivistas explica que os homens costumavam vir primeiro, sozinhos, e que depois era necessária uma “carta de chamada” escrita por eles, que tinha valor oficial, para que o restante da família pudesse tirar passaporte e deixar o país. Tudo isso integra o acervo do Governo Civil de Coimbra que está guardado na universidade.

Eram cartas de próprio punho, geralmente longas, rebuscadas e com diversos erros de ortografia. Numa dessas cartas, o missivista avisava a mulher que as condições “do vapor eram péssimas”, que era preciso trazer “latas de carne para comer no trajeto”, mas que “não era o caso de ter medo, porque o Brasil tinha de tudo: frutas e galinhas”.

Há diferentes preços de ingressos para a visita à universidade, que variam de € 12,50 a € 16,50, conforme as combinações do que se pode visitar. O mais completo é o mais caro, que dá direito ao Palácio Real, à capela, à Biblioteca Joanina e ao laboratório.

Mas mesmo o mais simples inclui o Gabinete de Curiosidades, aberto recentemente. Trata-se de uma sala com estantes de vidro que exibe objetos os mais variados que contemplam diferentes áreas do conhecimento (botânica, química, física, antropologia) e que foram recolhidos em diversas partes do mundo pelas quais os portugueses andaram.

“O gabinete não tem uma preocupação museológica. Eles decidiram reunir aqui objetos que estavam na universidade, em várias faculdades e até em coleções privadas”, diz Julien Alligier, um dos guias.

Daí que há animais empalhados; fetos deformados em formol, que eram considerados monstros; lagartos e cobras vindas do Brasil e das ex-colônias portuguesas na África. Há também objetos da vida cotidiana como sapatos chineses usados em Macau, que mostram como as mulheres torturavam seu pés, máscaras tribais, estátuas, o esqueleto de uma morsa pendurado no teto, enfim, tudo junto e misturado.

Desde 2013 o conjunto da universidade é Patrimônio Mundial da Unesco. Mas, além da parte mais geral, dois edifícios imperdíveis são o Palácio Real e a Biblioteca Joanina, um exemplo do barroco português, que se divide em três pisos e lembra o Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio de Janeiro, só que numa dimensão muito maior.

Ali há 60 mil volumes, muitos raríssimos, que vão do século XVI ao XVIII guardados nas mais perfeitas condições de temperatura e, por isso, os visitantes são divididos em pequenos grupos para entrar. Já o Palácio Real construído no século X, que é usado por estudantes e tem salas de aula em funcionamento, possui um salão nobre onde vários presidentes brasileiros receberam o título de doutor honoris causa.

São eles: Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, que acaba de ser reeleito para o quarto mandato. A jornalista viajou a convite da Agência Regional de Promoção Turística Centro de Portugal

Publicação Original Valor valor.globo.com
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