Com fotos em campo, Flavia Daudt quer incentivar reflexão sobre o Cerrado preservado sem mostrar árvores caídas

Com fotos em campo, Flavia Daudt quer incentivar reflexão sobre o Cerrado preservado sem mostrar árvores caídas

 

Fonte: Bandeira



Um veado-campeiro aparece correndo pelo capim dourado de uma paisagem deslumbrante, rasgada pelas raízes de árvores de troncos retorcidos e secos. Esta não é uma cena qualquer de um documentário sobre a vida selvagem. Mas a primeira imagem que vem à mente tanto de Flavia Daudt quanto de Ana Paula Freitas Valle — que conta ter se desfeito em lágrimas ao vê-la pessoalmente — quando falam sobre o Cerrado. A relação delas com o bioma brasileiro, o segundo maior do país em extensão territorial, tornou-se tão profunda que agora buscam compartilhar com mais pessoas uma experiência semelhante à que viveram.

É o que se vê na exposição “Ser(tão): imersão no Cerrado”, que será inaugurada hoje no Museu do Jardim Botânico, no bairro homônimo da Zona Sul do Rio. Artista visual com foco em questões ambientais e fotógrafa de arte, Flavia apresenta, em três espaços da instituição e com curadoria de Ana Paula, colagens fotográficas impressas em seda e organza que oferecem um panorama das regiões visitadas.

Fotografia de Flavia Daudt na exposição 'Ser(tão): imersão no Cerrado'

Flavia Daudt/Divulgação

No evento de abertura, a partir de 10h, as duas participam de uma conversa com o público, contando com uma apresentação de atores que vão ler textos de Guimarães Rosa, Cora Coralina e outros escritores que abordam a natureza do Brasil. A mostra permanece em cartaz até 3 de novembro.

‘Colagem de memórias’

Flavia Daudt, que já conhecia o Cerrado em viagens de infância, teve a oportunidade de conhecer o bioma melhor quando estudava o mestrado em Artes Visuais e levou Ana Paula consigo, em 2021. As duas foram para a Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

— Ao chegar lá, nos deparamos com uma vegetação pequena, retorcida e seca. Mas foi justamente isso o que chamou a atenção: essa resiliência, a casca dura, resistente ao fogo, à falta d’água — afirma Flavia. — O que faço é uma colagem de experiências e memórias, muito do que despertou em mim naquele momento.

Fotografia de Flavia Daudt na exposição 'Ser(tão): imersão no Cerrado'

Flavia Daudt/Divulgação

Assim, nas colagens da artista surgem cenas que registram a exuberância da fauna e da flora do bioma, que, apesar de sua grandiosidade, ainda é ameaçado pela devastação ambiental — embora tenha registrado uma queda expressiva de 20,8% no desmatamento entre agosto de 2024 e julho de 2025, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Ao longo das andanças, foram encontrados cenários em que o rio e o solo estavam contaminados, áreas degradadas e paisagens marcadas pelo avanço do desmatamento. A artista, entretanto, decidiu não retratar tal destruição em seus trabalhos:

— Eu tenho fotos de tudo destruído, mas prefiro mostrar o que a gente tem de bonito. Acredito que, através desse olhar, a gente consegue preservar.

Fotografia de Flavia Daudt na exposição 'Ser(tão): imersão no Cerrado'

Flavia Daudt/Divulgação

Encantamento

Ana Paula Freitas Valle trabalhou para criar na exposição uma experiência imersiva — há, inclusive, a obra “Terra que guarda”, fotocolagem de 1,36m x 8m que se estende do teto ao térreo do museu e reúne várias árvores. A instalação é complementada por longas raízes bordadas pela artista convidada Mirele Volkart e uma arte sonora com o barulho das águas, assinada por Joe Stevens. A mostra conta ainda com trabalhos de Willy Reuter e Ricardo Siri. A ideia é transportar o visitante:

— São milhares de hectares onde somente avistamos a fauna e a flora do Cerrado convivendo e interagindo com a mínima presença do homem. É um lugar mágico, selvagem, que te traz uma paz, um encantamento tão magnífico que não tenho palavras para descrever — conta a curadora.

Ana Paula explica que o título da exposição, além de se referir às áreas distantes do litoral, remete a um conceito de “existir intensamente”, construído a partir da junção das palavras “ser” e “tão” — uma espécie de tradução das emoções despertadas pelo contato com o Cerrado. Flavia complementa:

— É uma conexão com o “ser tão grande”. Mas, ao mesmo tempo é um “ser interior” — afirma ela. — Eu trago para essa exposição um Cerrado de sonhos, algo intimista. Os passarinhos, que na natureza são desse tamaninho (aqui Flavia faz uma pinça com os dedos), são gigantes na minha fotocolagem. São do tamanho dos meus sonhos.