Com Forças Armadas mobilizadas, Trump considera ataque limitado ao Irã para forçar acordo nuclear, diz jornal
Enquanto as Forças Armadas dos Estados Unidos estão a postos para realizar um possível ataque ao Irã, o presidente americano, Donald Trump, avalia uma ofensiva inicial limitada para pressionar o regime a atender às suas exigências para um acordo nuclear, revelou o Wall Street Journal (WSJ) nesta sexta-feira. Mas o republicano ainda não tomou uma decisão. Determinado a "fechar um acordo de um jeito ou de outro", Trump, segundo a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, "sabe o que pode ou não fazer".
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O ataque inicial — que se autorizado poderia ocorrer "nos próximos 10 dias", como alertou Trump na reunião inaugural do Conselho de Paz, na quinta-feira, em Washington — teria como alvo alguns locais militares ou governamentais. Essa ofensiva, de acordo com o WSJ, provavelmente não provocaria uma retaliação significativa, mas poderia levar o Irã a abandonar as negociações, pelo menos por um período.
Nesta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que Teerã deve apresentar aos EUA seu plano para um acordo nuclear nos próximos "dois ou três dias".
— O próximo passo é apresentar uma minuta de um possível acordo aos meus homólogos nos EUA. Acredito que nos próximos dois ou três dias ela estará pronta e, após a confirmação final dos meus superiores, será entregue a Steve Witkoff (enviado especial de Washington ao Oriente Médio) — afirmou o ministro ao programa Morning Joe, da rede de televisão americana MSNBC.
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Mas se o Irã ainda se recusar a cumprir a diretiva de Trump para encerrar seu enriquecimento nuclear, os EUA responderiam com uma ampla campanha para derrubar o regime de Teerã, segundo o WSJ. As discussões internas do governo Trump, de fato, têm se concentrado mais em campanhas de maior escala no Irã. Teerã, por sua vez, reiterou que "nenhum país" pode privá-lo do direito de enriquecimento nuclear.
A primeira opção de ataque indica que Trump pode estar aberto a usar a força militar não apenas como forma de pressionar o Irã, mas também para pavimentar o caminho para um acordo favorável aos EUA. Ainda de acordo com o WSJ, o presidente americano poderia escalar a tensão, começando com ataques menores antes de campanhas maiores até que o regime desmantele seu programa nuclear ou caia — como aconteceu com o governo do líder chavista Nicolás Maduro na Venezuela, após meses da pressão militar americana no Caribe.
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O porta-aviões USS Abraham Lincoln já está destacado no Oriente Médio com seu grupo de ataque. Além dele, o poderoso USS Gerald Ford, que estava no Caribe, agora está a caminho da região. Há ainda ao menos três navios de combate litorâneo, um contratorpedeiro com mísseis guiados no Mar Vermelho e dois contratorpedeiros com mísseis guiados no Golfo Pérsico, próximos ao estreito de Ormuz — rota vital de navegação responsável por cerca de 20% do suprimento global de petróleo, que pode ser alvo de bloqueio caso a República Islâmica seja atacada.
USS Gerald R. Ford é o porta-aviões mais letal dos EUA e o maior do mundo
Divulgação
Mas Trump, até o momento, também não decidiu se vai ordenar um ataque em grande escala, embora esteja considerando opções que vão desde uma ofensiva para forçar uma mudança de regime até uma onda de bombardeios em menor escala contra instalações governamentais e militares. Analistas americanos ouvidos pelo WSJ alertam que tais ataques poderiam encorajar uma retaliação iraniana, possivelmente arrastando os EUA para uma guerra no Oriente Médio e colocando em risco aliados regionais. Israel, por exemplo, deixou suas defesas em alerta diante da perspectiva de um conflito iminente, e o premier Benjamin Netanyahu afirmou que se os iranianos lançarem um ataque contra o seu país, receberão uma "resposta que nem imaginam".
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Desde o início das recentes ameaças de Trump, autoridades iranianas dizem que podem responder com força máxima a qualquer ataque americano. Em uma série de declarações nas redes sociais na última terça-feira — quando aconteceu a segunda rodada de negociações indiretas entre os países, em Genebra, sobre o acordo nuclear —, o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que suas forças poderiam afundar um porta-aviões americano e atingir as Forças Armadas dos EUA "com tanta força que elas não conseguiriam se reerguer".
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, discursa em encontro com apoiadores em Teerã
KHAMENEI.IR / AFP
O Irã, porém, já está desconfiado dos prazos de Trump. No ano passado, a Casa Branca disse que daria duas semanas para fechar um acordo nuclear semelhante. Mas, poucos dias depois, bombardeiros americanos atacaram três instalações nucleares iranianas, atrasando o programa nuclear do país, durante uma guerra de 12 dias que também envolveu Israel.
Impasse sobre o enriquecimento de urânio
No centro do impasse está a questão do enriquecimento de urânio, processo que pode ser usado para abastecer reatores nucleares ou produzir bombas. Tel Aviv e Washington querem cessar toda atividade e desmontar as usinas iranianas, enquanto a República Islâmica insiste em manter alguma capacidade de produção de combustível para supostos fins pacíficos.
Segundo o chanceler iraniano, os EUA não pediram ao Irã que abandonasse o enriquecimento de urânio durante as negociações realizadas na última terça-feira em Genebra, com a mediação de Omã.
— Não propusemos nenhuma suspensão, e os Estados Unidos não pediram o enriquecimento zero — afirmou Araghchi à MSNBC.
Trump, no entanto, tem defendido reiteradamente a proibição total do enriquecimento de urânio no Irã, uma exigência que Teerã considera uma linha vermelha em suas negociações sobre seu programa nuclear.
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A nova avaliação de Trump sobre a possibilidade de um ataque inicial de menor escala ao Irã remete a um debate ocorrido durante seu primeiro mandato em 2018, quando, em meio a uma escalada de retórica nuclear entre Washington e Pyongyang, seu governo considerou a opção de aplicar um chamado “nariz sangrento” à Coreia do Norte — um ataque preventivo limitado que demonstraria a determinação dos EUA em encerrar o programa nuclear do regime. A ideia acabou sendo descartada, e Trump optou por uma estratégia diplomática, reunindo-se três vezes com o líder norte-coreano, Kim Jong Un, embora os encontros não tenham resultado na desnuclearização de Pyongyang.
— Ao longo dos anos, ficou claro que chegar a um acordo significativo com o Irã não é fácil. Precisamos chegar a um acordo significativo, caso contrário, coisas ruins acontecerão — declarou Trump na reunião inaugural do Conselho de Paz, sua iniciativa para garantir a estabilidade em Gaza. — (...) Talvez tenhamos que dar um passo adiante, ou talvez não. Talvez cheguemos a um acordo. Vocês provavelmente descobrirão nos próximos 10 dias.
