O governo do presidente Donald Trump pediu nesta terça-feira que outros países do G20 façam mais para proteger suas indústrias e seus mercados de trabalho das importações chinesas, argumentando que essas distorções estão “sugando” da economia global um crescimento de que ela tanto necessita.
A reunião de dois dias de autoridades financeiras, que revelou diferenças de tom entre os anfitriões americanos e alguns dos participantes europeus, ocorreu em meio a uma onda global de vendas no mercado de títulos, diante das preocupações com o aumento dos níveis de endividamento e as pressões inflacionárias.
Enquanto Washington aproveitou uma reunião paralela do G20, com líderes empresariais e ministros do Comércio, nesta terça-feira, para defender uma abordagem de pouca intervenção na regulamentação da inteligência artificial (IA), o foco da reunião dos ministros das Finanças foi a China.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que já havia alertado outros parceiros comerciais no ano passado de que tarifas americanas mais duras levariam a um aumento do fluxo de produtos chineses desviados para seus mercados.
“E, infelizmente, eu estava certo.
Isso aconteceu — e o restante do mundo provavelmente precisa analisar seriamente o que deveria fazer para proteger os empregos de seus cidadãos”, disse ele durante a reunião em Asheville, na Carolina do Norte.
“Estamos vendo muitas economias que não são de mercado com esses grandes desequilíbrios que estão sugando o crescimento do restante do mundo”, disse Bessent a jornalistas.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, participam de uma sessão plenária durante reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais dos países do G20 em Asheville, Carolina do Norte, Estados Unidos, em 31 de agosto de 2026
REUTERS/Sam Wolfe
A forte expansão das exportações chinesas tem pressionado economias ao redor do mundo, especialmente porque os EUA impuseram tarifas elevadas sobre produtos chineses e proibições totais a alguns produtos, como veículos chineses.
Diante de uma demanda doméstica persistentemente fraca, a China intensificou as exportações de veículos elétricos, semicondutores e outros produtos, e suas exportações totais cresceram 23,9% em julho na comparação anual, provocando apelos crescentes na Europa por restrições mais duras às importações chinesas.
“Sabemos que a moeda chinesa está extremamente desvalorizada, que a China apoia e subsidia de forma muito ativa suas exportações, e isso também é um problema para a Europa”, disse o ministro das Finanças da Polônia, Andrzej Domanski, à Reuters na noite de segunda-feira.
O superávit da China no comércio de bens com a União Europeia atingiu 360,6 bilhões de euros no ano passado, alta de 15% em relação a 2024, e aumentou ainda mais neste ano, à medida que empresas chinesas venderam mais para a UE e importaram menos.
O comissário europeu de Economia, Valdis Dombrovskis, concordou que a China é uma importante fonte de desequilíbrios econômicos, mas afirmou que tanto os Estados Unidos quanto a Europa também têm um papel a desempenhar para reduzir essas disparidades.
Em comentários mais diretos, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, observou que a guerra contra o Irã liderada pelos EUA e por Israel, juntamente com as disputas tarifárias em curso envolvendo Washington, também eram importantes fontes de incerteza que estavam prejudicando a economia global.
“A incerteza é um veneno para o crescimento econômico”, afirmou.
“Os conflitos tarifários promovidos pelos EUA, como a atual disputa com o Canadá, destroem a confiança.”
Ainda não está claro se os EUA conseguirão reunir as diferentes posições dentro do fórum para chegar a um acordo sobre um comunicado conjunto a respeito de como reduzir os desequilíbrios globais.
A China, membro do G20, tem demonstrado pouco interesse nos antigos apelos para que reduza os subsídios industriais e reequilibre sua economia, enquanto sua moeda, o yuan, continua significativamente desvalorizada segundo a maioria dos indicadores.
Pequim também tem explorado seu domínio no processamento de minerais críticos ao impor restrições às exportações de terras raras em abril de 2025, em resposta às tarifas do presidente Trump, medida que também afetou empresas não americanas.
A ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, afirmou em entrevista coletiva na noite de segunda-feira, após o primeiro dia de negociações, que havia dito a seus colegas do G20 que restrições arbitrárias às exportações de minerais críticos estavam prejudicando a economia global e deveriam ser retiradas.
Autoridades disseram que a seção sobre desequilíbrios globais no comunicado conjunto planejado estava se mostrando particularmente difícil, com a China se opondo a qualquer menção específica a “economias que não são de mercado” ou a uma linguagem mais firme sobre restrições ao fornecimento de minerais críticos.
Os países europeus também queriam incluir uma linguagem contundente de crítica à guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Eles ficaram consternados com o fato de seu colega russo estar presente no fórum pela primeira vez desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022.
Uma onda de vendas nos mercados globais de títulos se intensificou nesta terça-feira, com o rendimento dos títulos japoneses de 10 anos atingindo 3% pela primeira vez desde 1996 — a mais recente manifestação da preocupação dos investidores com a inflação impulsionada pela energia, um possível aperto monetário e a deterioração das condições fiscais.
Autoridades do Tesouro disseram que Bessent havia defendido uma política monetária sólida para ancorar as expectativas de inflação e evitar volatilidade cambial excessiva durante sua reunião no domingo com o presidente do Banco do Japão (BOJ), Kazuo Ueda.
“Tenho informações que o mercado não tem, e acredito que o governo japonês e o BOJ farão o que for necessário para levar a um iene mais forte”, disse Bessent à CNBC em entrevista.
As declarações, que reforçam os recentes apelos de Bessent para que o BOJ eleve os juros, foram vistas como uma tentativa de fortalecer os argumentos de Ueda em favor de uma alta na reunião de política monetária do banco, marcada para 17 e 18 de setembro.
