Com fim do Novo Start, Trump considera implantar mais armas nucleares e realizar testes subterrâneos

 

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Nos dias desde o fim da vigência do Novo Start, último tratado nuclear remanescente entre os Estados Unidos e a Rússia, declarações de autoridades do governo americano deixaram duas coisas claras: Washington está avaliando ativamente a implantação de mais armas nucleares e também é provável que realize algum tipo de teste nuclear.

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Ambos os passos reverteriam quase 40 anos de um controle nuclear mais rígido por parte dos EUA, que reduziu ou manteve estável o número de armas instaladas em silos, bombardeiros e submarinos. O presidente Donald Trump seria o primeiro líder desde Ronald Reagan a aumentar o arsenal, caso optar por fazê-lo de fato. A última vez que Washington realizou um teste nuclear foi em 1992, embora Trump tenha dito no ano passado que queria retomar as detonações "em igualdade de condições" com China e Rússia.

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Até agora, as declarações do governo Trump têm sido vagas. Foi dito que o governo está analisando uma variedade de cenários que poderiam reforçar o arsenal por meio do reaproveitamento de armas nucleares atualmente armazenadas, e que Trump instruiu seus assessores a retomar os testes. Mas ninguém especificou quantas armas podem ser implantadas ou que tipo de testes poderiam ser realizados. Os detalhes importam e podem determinar se as três grandes potências nucleares estão indo em direção a uma nova corrida armamentista, ou se Trump está tentando forçar as outras potências a uma negociação trilateral sobre um novo tratado.

— É tudo um tanto misterioso — disse Jill Hruby, especialista nuclear de longa data que, até o ano passado, dirigiu a Administração de Segurança Nuclear Nacional, uma parte do Departamento de Energia que projeta, testa e fabrica armas nucleares americanas. — É muito confuso o que eles estão fazendo.

Os indícios começaram na quinta-feira, poucas horas após a expiração do Novo START, que limitava o número de armas nucleares que EUA e Rússia poderiam mobilizar — cerca de 1.550 cada país. Trump recusou uma oferta do presidente da Rússia, Vladimir Putin, para uma extensão informal do tratado de 15 anos — que não teria caráter juridicamente vinculante — enquanto ambos os países consideravam a negociação de novos termos.

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No mesmo dia, o Departamento de Estado dos EUA enviou seu subsecretário de controle de armas e segurança internacional, Thomas G. DiNanno, a Genebra para discursar na Conferência sobre Desarmamento. O tratado, queixou-se ele em um discurso, "impôs restrições unilaterais aos Estados Unidos que eram inaceitáveis". E ele observou que, no primeiro mandato de Trump, o presidente havia se retirado de dois tratados anteriores com a Rússia — o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e o Tratado de Céus Abertos — devido a violações russas.

Ele repetiu um argumento familiar, que muitos democratas no mundo da segurança nacional também expressaram: o de que o tratado Novo START falhou ao não cobrir classes inteiras de novas armas nucleares que a Rússia e a China estão desenvolvendo, e que qualquer novo tratado teria que impor limites a Pequim, que possui a força nuclear de crescimento mais rápido no globo.

Em seguida, ele observou que os EUA estavam agora livres para "fortalecer a dissuasão em nome do povo americano". Os Estados Unidos irão concluir os "programas de modernização nuclear em curso", disse ele — uma referência a centenas de bilhões de dólares gastos em novos silos, novos submarinos e novos bombardeiros — e observou que Washington "retém capacidade nuclear não implantada que pode ser usada para enfrentar o ambiente de segurança emergente, se assim for ordenado pelo presidente".

Combinação de imagens mostra submarino nuclear estratégico russo (acima) do Projeto 955A (Borey-A), Knyaz Pozharsky, e o submarino de mísseis guiados da classe Ohio, USS Michigan

Alexander Kazakov e Jermaine Ralliford/AFP

Uma opção, observou ele, é "expandir as forças atuais" e "desenvolver e implantar novas forças nucleares de alcance regional" — armas nucleares de curto alcance que a Rússia implantou em abundância. (O Novo START cobria apenas armas "estratégicas" que podem ser lançadas para o outro lado do mundo).

Um surto iminente concentra-se nos submarinos da classe Ohio do país. Cada uma das 14 embarcações subaquáticas possui 24 tubos que podem lançar mísseis com ogivas nucleares. Para cumprir os limites do Novo START, a Marinha desativou quatro tubos em cada submarino. Agora, livre dessas restrições, os planos avançam para reabri-los — permitindo o carregamento de mais quatro mísseis em cada submarino. Ao todo, esse movimento sozinho adicionaria centenas de ogivas a mais que podem ameaçar os adversários da nação.

É possível, é claro, que tais implantações tenham o objetivo apenas de pressionar outras potências nucleares às negociações, uma forma familiar de "pôquer nuclear" durante a Guerra Fria. Mas também é possível que a Rússia e a China decidam que preferem expandir suas forças.

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A China, até agora, demonstrou pouco interesse no controle de armas, pelo menos até que suas forças se aproximem do tamanho das de Washington e Moscou. Como Franklin Miller e Eric Edelman, dois estrategistas nucleares que serviram em governos republicanos anteriores, observaram na Foreign Affairs no ano passado, a China "considera qualquer disposição de se engajar no controle de armas como um sinal de fraqueza, e vê o processo de transparência e verificação que presumivelmente sustentaria tal acordo como intrusivo e semelhante à espionagem".

Em seu discurso em Genebra, DiNanno também deu a primeira explicação detalhada por parte de uma autoridade do governo Trump sobre o que o presidente quis dizer no ano passado quando ordenou o reinício dos testes de armas nucleares. Trump fez sua declaração cuidadosamente redigida "em base de igualdade" pouco antes de sua reunião de outubro com o presidente da China, Xi Jinping. Em uma entrevista no mês passado ao The New York Times, Trump disse que havia conversado longamente com Xi sobre questões nucleares. Mas ele não deu detalhes.

Inicialmente, alguns especialistas nucleares americanos fora do governo interpretaram os comentários de Trump como significando que os EUA planejavam o tipo de testes nucleares subterrâneos potentes que eram símbolo frequente da competição "olho por olho" da Guerra Fria, meio século atrás. Os testes eram detonados no subsolo, enviando ondas de choque que irradiavam pela crosta terrestre e, de lá, ricocheteavam pelo globo. As explosões eram fáceis de detectar.

O presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com o líder chinês, Xi Jinping, durante encontro na Base Aérea de Gimhae, na Coreia do Sul

Andrew Caballero-Reynolds/AFP

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E enquanto EUA, Rússia e China suspenderam esses tipos de testes — respeitando o Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares, embora o Senado dos EUA nunca o tenha ratificado — a Coreia do Norte o ignorou. Entre 2006 e 2017, o país realizou seis testes subterrâneos, destruindo as esperanças de uma moratória global.

A proibição de testes, que entrou em vigor em 1996, proíbe testes que produzam qualquer força explosiva, por menor que seja. É chamado de tratado de "rendimento zero". Mas alguns especialistas há muito tempo têm uma visão diferente dos comentários de Trump, interpretando-os como um apelo por testes relativamente pequenos que não liberariam ondas de choque detectáveis. A ausência de explosões que abalam a terra torna esses testes quase impossíveis de detectar.

Em sua fala em Genebra, DiNanno deixou claro que o governo Trump acreditava que a Rússia e a China já haviam realizado tais testes, e sugeriu que o apelo do presidente para testes "em base de igualdade" poderia permitir que os EUA fizessem o mesmo. O representante disse que o governo sabia que Pequim havia realizado "testes explosivos nucleares" e tentou ocultá-los. Ele apontou especificamente para um em 22 de junho de 2020, no final do primeiro mandato de Trump.

A principal rede global que monitora a adesão à proibição de testes disse em um comunicado recente que não detectou nenhuma explosão de teste naquela data. E autoridades dos EUA dizem que, nos últimos cinco anos, especialistas de inteligência dos EUA debateram se o governo chinês realmente realizou ou não o teste. Mas DiNanno não expressou dúvidas.

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— Os comentários de DiNanno me surpreenderam — disse Terry C. Wallace, ex-diretor do Laboratório Nacional de Los Alamos, que estudou por muito tempo o programa de experimentação nuclear da China. — Eles não continham ressalvas [baseadas nas incertezas da área].

Em sua fala, o representante americano ainda disse que Pequim usou o "desacoplamento" para esconder seus testes, referindo-se a uma técnica que projetistas de bombas usam para separar as ondas de choque de uma detonação nuclear, de modo que não causem impacto na crosta terrestre. Os meios incluem o confinamento de uma pequena explosão em um recipiente atrás de paredes de aço ultrarresistentes.

Os Estados Unidos conhecem bem o processo: de 1958 a 1961, muito antes da proibição global de testes, os projetistas de armas nucleares americanos realizaram mais de 40 testes desse tipo, embora houvesse uma moratória de testes entre os EUA e a União Soviética.

Em Genebra, DiNanno não detalhou as implicações de suas alegações. Mas repetiu o termo "em base de igualdade", sugerindo que os EUA também estavam caminhando nessa direção. Houve alguma ambiguidade, no entanto. Ele disse que os Estados Unidos estavam ansiosos para "restaurar o comportamento responsável no que diz respeito aos testes nucleares", mas não deu nenhuma indicação do que queria dizer com "responsável".