Com expurgos nas Forças Armadas da China, Xi Jinping busca por lealdade absoluta

 

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Quando Xi Jinping celebrou a chegada do ano novo em Pequim, ele convocou a China a se lembrar do legado de Yan’an — o bastião rural onde Mao Tsé-Tung transformou guerrilheiros revolucionários em uma força disciplinada sob seu comando, que viria a conquistar o país. Pode ter sido um indício do que estava por vir.

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Yan’an também foi onde Mao lançou a primeira grande "retificação" do partido, uma campanha de terror político que eliminou rivais e cimentou sua autoridade absoluta sobre a legenda. Três semanas após o discurso de Xi, a China efetivamente expurgou o principal comandante do Exército, o general Zhang Youxia, que outrora fora visto como um confidente de Xi.

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Assim como Mao, Xi busca uma espécie de renovação espiritual do partido e dos militares que comanda, o que ele chama de constante "autorrevolução". E, tal como Mao, isso tomou a forma de um expurgo constante de inimigos, aliados e, agora, também daqueles em seu círculo íntimo. É um novo nível de recrudescimento para um homem que já concentrou o poder em si mesmo em um grau não visto desde Mao.

Nos últimos três anos, Xi destituiu essencialmente cinco dos seis generais do principal órgão militar da China, a Comissão Militar Central, que controla as Forças Armadas do país. Restam apenas dois membros: o próprio Xi e um vice-presidente que supervisionou os expurgos de Xi.

— É algo bastante surpreendente - disse Yue Gang, coronel reformado do Exército de Libertação Popular.

Ao longo de seus 13 anos no poder, Xi citou frequentemente Yan’an — a principal base revolucionária do Partido Comunista até 1948 — como inspiração para sua própria depuração de quadros, bem como uma forma de sinalizar sua suprema autoridade no partido, na tradição de Mao. Após Xi garantir um terceiro mandato como chefe do partido, rompendo com o precedente, ele visitou a cidade com seus principais assessores.

Cinco de seis membros da Comissão Militar Central a China foram expulsos ou estão sob investigação

Editoria de Arte / O Globo

Ele e Zhang também fizeram a peregrinação a Yan’an em 2024 para uma reunião, carregada de simbolismo, sobre o "trabalho político" nas Forças Armadas chinesas. Xi exortou os oficiais militares de alto escalão — que incluíam outros três generais seniores que ele mais tarde também expurgaria — a se lembrarem de sua missão revolucionária original.

Ao visitar as antigas residências de líderes revolucionários como Mao e Zhou Enlai naquela viagem, ele declarou a importância da "liderança absoluta do partido sobre o Exército".

— Para Xi Jinping, ele vê esse legado e esse tipo de campanha como um dos maiores tesouros do partido. Ele quer voltar à História e usar esses métodos — disse Joseph Torigian, historiador estudioso do Partido Comunista Chinês na American University, em Washington. — Ele acha que pode fazer isso da maneira certa.

Garantir o controle sobre o Exército de Libertação Popular tem sido o desafio fundamental de todos os líderes desde Mao, que imortalizou sua importância ao declarar que "o poder político nasce do cano de uma espingarda". Yue argumentou que o predecessor de Xi, Hu Jintao, teve dificuldades para gerir os militares e foi superado por dois vice-presidentes da comissão.

Turistas vestidos com uniformes do Exército Vermelho visitam uma estátua de Mao em Yan'an, na província de Shaanxi, China, em 18 de junho de 2021

Gilles Sabrié/The New York Times

— Já tivemos essa lição antes — disse Yue, argumentando que Zhang pode ter tentado e falhado em enfraquecer o controle de Xi sobre os militares. A queda "suave" de Zhang, segundo ele, mostra como é "impossível abalar a liderança de Xi Jinping". — A tentativa de minar o poder não teve sucesso. Em vez disso, resultou em um desfecho desastroso.

Desde que Xi chegou ao poder em 2012, ele supervisionou uma intensa campanha para limpar as Forças Armadas, onde a corrupção vinha aumentando desde as reformas de mercado na década de 1980 e conforme os gastos militares disparavam. Ele vê a lealdade absoluta como vital para um de seus principais objetivos: construir uma força do século 21, pronta para o combate e capaz de defender os interesses da China — como sua reivindicação sobre Taiwan.

E, à medida que Pequim compete mais diretamente com os Estados Unidos, garantir a lealdade militar em tempos de crise e possível conflito torna-se ainda mais crucial.

— O partido deve sempre comandar as armas, nunca o contrário — disse o especialista militar chinês Song Zhongping.

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Quando Xi fala sobre o espírito de Yan’an, ele omite detalhes do expurgo de milhares de membros do partido em Yan’an por meio de sessões psicologicamente brutais de autocrítica que levaram alguns ao suicídio. Xi utiliza alguns desses métodos de doutrinação política, incluindo a obrigatoriedade de sessões de estudo de sua doutrina personalizada, o "Pensamento de Xi Jinping", e o incentivo à denúncia de colegas ou superiores por violação dos editos de Xi, de acordo com Wen-Hsuan Tsai, estudioso de política de elite chinesa no Instituto de Ciência Política da Academia Sinica, em Taiwan.

— Isso transforma todo o partido em um julgamento de denúncias mútuas, de modo que ninguém é confiável: nem seus pais, nem seus superiores, ninguém — disse Tsai. — O regime dele precisa de inimigos e expurgos constantes para manter o medo.

A campanha de retificação de Xi, embora não seja tão sangrenta ou extrema quanto a de Mao, estende-se por todo o aparato do partido, visando tanto a corrupção quanto a percepção de deslealdade. No ano passado, 983 mil funcionários foram punidos por violar as regras do partido, o número mais alto já registrado, de acordo com dados divulgados pela Comissão Central de Inspeção Disciplinar, o órgão anticorrupção interno do partido.

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A remoção repentina de altos funcionários sem explicação tornou-se uma marca registrada do governo de Xi, inspirando incerteza e medo entre as autoridades chinesas. Analistas dizem que isso é um sinal de sua crescente paranoia ou uma tática para manter tanto inimigos quanto aliados em estado de dúvida.

Em vez de aposentar Zhang discretamente na próxima transição de liderança, em 2027, Xi optou por renegá-lo pública e ruidosamente.

— Este expurgo manifesta uma posição de força — disse Yun Sun, diretora do Programa China no Stimson Center, em Washington. — Xi pode mover o dedo e remover o líder mais poderoso das Forças Armadas chinesas.