Com expiração do Novo Start, Otan pede 'moderação' e Rússia lamenta fim do tratado que pode acelerar corrida armamentista
O Novo Start, que estabelecia limites ao número de ogivas e criava mecanismos mútuos de monitoramento e confiança, expirou nesta quinta-feira sem que as duas maiores potências nucleares, Estados Unidos e Rússia, firmassem um texto para suceder-lhe. O Kremlin afirmou que lamenta o fim do tratado, que pode acelerar uma nova corrida armamentista global, e que vê "isso de forma negativa".
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Também nesta quinta, a Otan, a aliança militar liderada por Washington, pediu "responsabilidade e moderação".
— A moderação e a responsabilidade no domínio nuclear são cruciais para a segurança global — afirmou uma autoridade da Otan, sob condição de anonimato, acrescentando que Rússia e China vêm ampliando suas capacidades nucleares. — A aliança continuará a adotar as medidas necessárias para garantir sua própria defesa. A retórica nuclear irresponsável da Rússia e sua sinalização nuclear coercitiva demonstram uma postura de intimidação estratégica.
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Washington disse que qualquer novo acordo nuclear precisaria incluir a China, mas os esforços internacionais para incentivar Pequim a participar de novas negociações fracassaram até agora. Após a expiração do Novo Start, a China, por sua vez, declarou que não participará de negociações nucleares "neste momento". Ativistas alertam que o fim do tratado pode incentivar Pequim a ampliar seu próprio arsenal.
— A China sempre sustentou que o avanço do controle de armas e do desarmamento deve respeitar os princípios da manutenção da estabilidade estratégica global — afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, em entrevista coletiva. — As capacidades nucleares da China são de uma escala totalmente diferente das dos EUA e da Rússia e, por isso, não participaremos de negociações de desarmamento nuclear neste estágio.
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Alarmado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu que os dois países "se ponham de acordo" porque o fim do tratado é "um momento grave para a paz e a segurança internacional".
O tratado
As primeiras negociações entre soviéticos e americanos ocorreram em 1969, o Salt I, que produziu acordos sobre mísseis balísticos e sobre a construção de silos para mísseis balísticos intercontinentais. Foi o passo crucial para outros tratados bilaterais, como os Start I e II, o Sort e, em 2011, o Novo Start.
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Em seu primeiro mandato (2017-2021), o presidente americano, Donald Trump, adiou até o limite a extensão do Novo Start — inicialmente previsto para expirar em fevereiro de 2021 — e exigia a redação de um novo acordo, que incluísse a China. Pequim rejeitou aderir, e o democrata Joe Biden, vencedor da eleição de 2020, acertou a continuidade perto do fim do prazo, como queria a Rússia. Embora tenha expressado algum receio com o fim do atual tratado, Trump disse recentemente que não desistiu de incluir a China em um futuro texto.
Agora, o tratado, porém, expirou depois que Trump não deu seguimento à proposta de seu homólogo russo, Vladimir Putin, de estender por um ano os limites de ogivas previstos no acordo. Rússia e Estados Unidos controlam juntos mais de 80% das ogivas nucleares do mundo, mas os acordos de controle de armas vêm se enfraquecendo progressivamente.
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O arsenal nuclear da China cresce rapidamente e é estimado em cerca de 550 lançadores nucleares estratégicos, número ainda bem abaixo do limite de 800 imposto a cada um, Rússia e EUA, pelo Novo Start. Assinado inicialmente em 2010, o tratado limitava cada lado a 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas — uma redução de quase 30% em relação ao teto anterior, estabelecido em 2002.
Apesar do número de ogivas se manter relativamente estável, os países com armas nucleares (hoje são nove) gastaram centenas de bilhões de dólares nos últimos anos para modernizar ogivas, sistemas de lançamento e ferramentas para uma hipotética guerra global. Na Ucrânia, a Rússia já usa armamentos com capacidade nuclear — como o míssil balístico Oreshnik — contra militares e civis. No ano passado, China e Coreia do Norte revelaram ao mundo novos mísseis intercontinentais, apresentados como impossíveis de interceptar. Os EUA, por sua vez, querem implementar um novo escudo antimísseis, o Domo de Ouro, cujo custo pode chegar à casa dos trilhões de dólares.
