Com crucial setor do petróleo sob ataque, países do Golfo chamam Irã de 'traidor', mas apelam por desescalada
À medida que o Irã intensifica sua retaliação contra a campanha militar de EUA e Israel com amplos ataques a infraestruturas essenciais do setor de petróleo do Golfo Pérsico, a condenação de líderes regionais cresce em escala e intensidade, em um momento em que a guerra no Oriente Médio afeta globalmente o preço dos combustíveis sem sinal de conclusão no curto-prazo. Uma série de países apelou por uma contenção por parte de Teerã, enquanto o primeiro-ministro do Catar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani acusou o país dos aiatolás de "traição" contra os seus vizinhos em meio aos repetidos ataques — que provocaram a maior variação no preço do petróleo no mercado internacional em anos, forçando líderes das principais economias do mundo a se reunirem em busca de soluções.
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Alvo de bombardeios israelenses contra depósitos de combustíveis no fim de semana, que fizeram o dia virar noite em áreas próximas a Teerã, o Irã disparou ataques aéreos contra os setores produtivos de Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira, além de outros ataques contra Israel e posições americanas na região. Os bombardeios direcionados, somados ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz, via navegável por onde passa 20% da produção mundial de petróleo, provocou uma alta histórica no preço do barril — com uma variação de US$ 101,50 dólares no mercado americano (na referência da West Texas Intermediate), aproximando-se de US$ 120 em mercados asiáticos.
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A Arábia Saudita denunciou quatro ataques separados envolvendo drones iranianos contra o campo de petróleo de Shaybah, explorado pela Aramco, maior empresa petrolífera do mundo. Cinco drones foram interceptados em uma janela de 12 horas, segundo o Ministério da Defesa saudita, que também relatou a intercepção de três mísseis balísticos que teriam como destino a base aérea Príncipe Sultan. Em um sinal dos crescentes riscos, funcionários americanos da missão diplomática dos EUA no país receberam uma ordem de saída obrigatória, segundo fontes ouvidas pelo New York Times — em uma decisão inédita, uma vez que os alertas anteriores eram recomendações de saída voluntária.
No Bahrein, projéteis iranianos atingiram diretamente a maior refinaria da empresa estatal BAPCO, a Al Ma'ameer, localizada na região de Sitra. Os projéteis provocaram um incêndio e danos materiais que o pequeno país do Golfo não revelou em detalhes. A companhia energética estatal precisou declarar que não cumpriria as obrigações contratuais, alegando motivo de força maior. O Ministério da Saúde disse que os ataques do Irã na região deixaram 32 civis feridos na noite de domingo.
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a morte de dois militares após um helicóptero envolvido nas operações de defesa aérea do país apresentar um mal funcionamento e cair, e afirmou que destroços de projéteis interceptados provocaram um incêndio na costa leste do país. O alvo seria uma instalação ligada às exportações de petróleo do país em Fujairah. O Catar, por sua vez, afirmou ter interceptado 17 mísseis balísticos e seis drones iranianos, sem descrever a quais alvos seriam destinados.
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A retórica iraniana ao longo de dez dias de guerra é que não ataca alvos dos países do Golfo de forma direta, e que os bombardeios na região miram apenas alvos israelenses e americanos nesses países — algo que não se comprova em campo, com dezenas de alvos civis atingidos desde o começo da guerra. Entre os vários comunicados emitidos a cada novo dia de conflito, os países afetados na região chegaram a anunciar que se reservavam ao direito de responder às agressões iranianas, em uma linguagem que foi interpretada em alguns momentos como um ultimato para uma tomada de parte no confronto. As sinalizações desta segunda-feira, porém, indicam que uma saída diplomática ainda é a preferência das ricas nações vizinhas.
Em uma entrevista à rede Sky News, o primeiro-ministro do Catar afirmou que os ataques desmedidos no Irã configuravam uma "traição" aos países vizinhos, em um linguagem forte de condenação de um país que tradicionalmente tenta manter neutralidade e portas-abertas ao diálogo. O governo do Catar condenou os ataques de Teerã à Arábia Saudita, que deixaram dois mortos em uma área civil, e disse que as ações do país configuram uma violação da lei internacional e "uma escalada perigosa que ameaça a segurança e a estabilidade da região". A Arábia Saudita disse que a nação persa seria a "maior derrotada em caso de uma escalada mais ampla".
Apesar da retórica, Riad não explicitou ameaças futuras ao Irã, restringindo-se a dizer que se reservava ao "total direito de tomar todas as medidas necessárias a defender sua segurança". Abu Dhabi anunciou que não participará de nenhum ataque a partir de seu território. Em uma resposta direta sobre a condenação aos ataques iranianos, al-Thani afirmou em sua entrevista que uma escalada militar apenas aprofundaria a crise, rejeitando envolvimento bélico.
— Nós continuamos em busca de uma desescalada — disse o premier catari. — Eles são os nossos vizinhos. É nosso destino.
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Pressão do petróleo
Embora as consequências mais visíveis do conflito e dos ataques às instalações petrolíferas sejam no front — o Irã afirma que 1,3 mil pessoas morreram no país em 10 dias de conflito, enquanto contagens apontam 30 mortos em meio à retaliação no Oriente Médio, incluindo 8 militares americanos —, o mundo inteiro sente a repercussão econômica do conflito, com a subida de preço do mercado de hidrocarbonetos.
Os ministros das finanças do G7 se reuniram nesta segunda-feira para discutir a liberação de reservas de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE), criada em 1974 após o choque do petróleo que mantém reservas equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas de seus países-membro, mas decidiram esperar mais um pouco.
Os principais líderes europeus, como o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, expressaram preocupação com o aumento do preço dos combustíveis e disseram monitorar de perto a situação. Outros países pelo mundo, como a Croácia, anunciaram desde já medidas para segurar a oscilação dos preços. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, chegou a sugerir que as sanções ao petróleo russo fossem suspensas para "criar oferta". Emmanuel Macron, presidente da França, prometeu uma missão "apenas defensiva" no Golfo, para permitir a circulação de navios-petroleios.
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Em um posicionamento publicado pelo Financial Times, a consultoria de energia americana Rapidan Energy Group afirmou que a guerra em curso já provocou "a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história", superando o impacto da crise de Suez (1956-1957), quando 10% da oferta global foi interrompida. A interrupção dos fluxos de produção e isolamento do mercado global daqueles países produtores com grande capacidade ociosa foram apontados como motivos para a análise.
Para além dos ataques aéreos, Irã e EUA trocam acusações no campo retórico. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, afirmou que os EUA atacaram o país em busca de tomar ilegalmente as riquezas petrolíferas. Teerã também advertiu sobre ataques contra o seu hub de exportação de petróleo, na ilha de Kharg — um centro logístico até agora poupado por americanos e israelenses.
Em uma declaração no Departamento de Estado, o secretário americano Marco Rubio afirmou que Teerã estaria tentando deixar o mundo "refém".
— Creio que todos estamos vendo agora mesmo a ameaça que este regime teocrático representa para a região e para o mundo — disse Rubio. — Estão tratando de manter o mundo como refém. (Com AFP e NYT)
