Com capacidade de reduzir até 99% nas emissões de carbono, biometano registra 'boom' no Brasil

 

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A indústria de biometano no Brasil pode mais que dobrar de tamanho até o fim da década, continuando a expansão iniciada nos últimos anos. Com o impulso das metas de descarbonização e da Lei do Combustível do Futuro, de 2024, que instituiu um programa de estímulo ao setor, o número de plantas em operação saltou de um, em 2020, para 19, em 2026, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O crescimento deve ganhar escala com outras 45 instalações em construção que, se autorizadas a entrar em funcionamento, elevarão a capacidade diária de produção nacional do atual 1,2 milhão de metros cúbicos para 3 milhões de metros cúbicos.

O biometano é um biocombustível estratégico para a transição energética, já que possibilita redução de até 99% nas emissões de carbono na comparação com combustíveis fósseis. É intercambiável com o gás natural, dada a composição química quase idêntica, e apresenta a mesma eficiência energética. Pode-se, inclusive, injetar ambos os gases na mesma rede de dutos, o que permite o aproveitamento da infraestrutura existente.

A expectativa é que a demanda pelo biocombustível avance. No último 1º de abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu uma meta de redução de 0,5% nas emissões de gases de efeito estufa para o mercado de gás natural, que deverá ser cumprida por produtores e importadores por meio do consumo de biometano, a partir deste ano. Pela Lei do Combustível do Futuro, a meta começaria em 1%, mas o valor inferior foi aprovado, como excepcionalidade, com base em balanços recentes de oferta e demanda. A produção de biometano em fevereiro de 2026 foi de 10,6 milhões de metros cúbicos — uma média de cerca de 380 mil m³ por dia —, de acordo com a ANP, o que indica que a capacidade instalada ainda não é plenamente utilizada. — A resolução do CNPE deve dar mais impulso à expansão, com investimentos em novas unidades — avalia o diretor-executivo da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), Tiago Santovito, acrescentando que a produção de biometano no país já atraiu aportes de cerca de R$ 3 bilhões.

Outra vantagem do biometano é o preço, definido no mercado doméstico e, por isso, menos exposto às variações do câmbio. Segundo Santovito, a crise geopolítica no Oriente Médio e a volatilidade do petróleo, que impacta o valor dos derivados no mercado, devem aumentar o interesse no biocombustível como fonte alternativa de energia.

O biometano é considerado um combustível nobre devido ao alto grau de pureza de metano, seu principal componente. A produção começa na decomposição de matéria orgânica, como lixo urbano, resíduos da agricultura e dejetos de animais. A ação de bactérias sobre esses substratos, em ambiente controlado e sem presença de oxigênio, gera o biogás, que, depois de purificado, dá origem ao biometano.

Usinas em aterros sanitários

Na Gás Verde, a estratégia adotada foi instalar usinas dentro de aterros sanitários para produzir biometano a partir de resíduos sólidos urbanos. A empresa já tem duas plantas, uma em Seropédica (RJ) e outra em São Paulo, e prevê chegar a 11 até 2029, por meio da conversão de nove térmicas movidas a biogás em unidades produtoras do biocombustível. Com isso, a capacidade de produção de biometano passará de 160 mil metros cúbicos para 650 mil metros cúbicos diários.

Produção de biometano em aterro sanitário de Seropédica (RJ)

Domingos Peixoto

A próxima planta a ser inaugurada fica em Pernambuco. Outros estados que estão no plano de expansão são Bahia, Maranhão e Minas Gerais. Ao longo dos próximos três anos, a Gás Verde planeja investir R$ 900 milhões nos projetos.

— O objetivo é fazer com que o biometano chegue a várias regiões industriais importantes — diz a diretora de Comunicação e ESG da Gás Verde, Daniela Teixeira.

Hoje, a companhia atende multinacionais como Ambev, Vesuvius e Henkel, que utilizam o biocombustível — com concentração de metano de 95,4% — para abastecer tanto fornos e caldeiras quanto veículos leves e pesados. A entrega aos clientes é feita por meio de carretas também movidas a biometano.

— Todos os nossos clientes iniciaram o uso de biometano pelo processo industrial e depois ampliaram para a cadeia de suprimentos. O Brasil é muito dependente do modal rodoviário, e o biometano oferece o que empresas com compromissos de descarbonização precisam para ter uma frota sustentável, já que ele reduz emissões e pode substituir gás natural e diesel — afirma Teixeira.

A H2A Bioenergia colocou em operação, em março, sua primeira planta de biometano, localizada em Campos Novos (SC), fruto de um investimento de R$ 65 milhões. A segunda, em Rio Verde (GO), será inaugurada ainda neste ano. Até 2031, a empresa calcula investir mais R$ 2,9 bilhões para implantar outras 22 usinas no Centro-Sul do Brasil, das quais seis já estão autorizadas pela ANP.

Usina no chiqueiro

Após estudar o mercado e as tecnologias disponíveis — inclusive com visitas a países como a Alemanha, líder mundial na produção de biometano —, a empresa viu no reaproveitamento de resíduos do agronegócio uma oportunidade de criar receita e resolver uma dor de produtores rurais. Isso porque a geração de resíduos em propriedades agrícolas e de pecuária impõe gastos com o armazenamento e o tratamento desse material, além de, por vezes, limitar a expansão das atividades devido a restrições ambientais ao acúmulo de matéria orgânica no local.

Usina da H2A Bioenergia em Santa Catarina

Divulgação

Na planta de Campos Novos, instalada dentro de uma área de suinocultura, o biometano é produzido a partir de dejetos de porcos. O diretor-presidente da H2A Bioenergia, Adilson Teixeira Lima, explica que o negócio é viabilizado por um modelo de parceria com os produtores rurais: enquanto a companhia entra com o capital e a tecnologia para fazer a gestão dos resíduos e transformar o que era um passivo em ativos ambientais, a propriedade garante o terreno para implantação da usina e o insumo orgânico para a produção.

Por dia, a unidade produz 5 mil metros cúbicos de biometano com pureza de 99,86%. A ideia é crescer até a capacidade de 16 mil metros cúbicos diários. O biocombustível já é comercializado para uso em indústrias e abastecimento de veículos e, em breve, deve começar a ser injetado em dutos de gás natural para distribuição pela rede.

— O biometano sai da planta custando 50% do valor do diesel. Fechamos contratos de dez a 15 anos, com reajuste pelo IPCA, que o cliente consegue repassar ao consumidor — destaca Lima, reforçando a competitividade do preço do biocombustível frente ao concorrente fóssil.

A receita líquida gerada pela planta de biometano é repartida com os produtores rurais parceiros, que ficam com um percentual que varia entre 10% e 20%.

— É a terceira safra do agro — afirma Lima.

Os projetos das novas usinas da H2A Bioenergia abrangem parcerias com outros setores do agronegócio para reaproveitamento de resíduos, como os oriundos da produção sucroalcooleira e de frigoríficos.

O processo de produção do biometano permite ainda o aproveitamento comercial do digestato (resíduo da decomposição da matéria orgânica), utilizado como fertilizante, e do gás carbônico separado durante a purificação do biogás, que pode ser empregado como insumo industrial em soldagens e na gaseificação de bebidas, por exemplo. Há também a possibilidade de comercialização de Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs) para empresas que querem abater emissões de carbono sem consumir a molécula física do biocombustível.

A Biogás estima que o Brasil tem potencial teórico de produção de 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia. Para isso se concretizar, seria necessária uma captura robusta da biomassa disponível para geração de energia. No entanto, ainda há baixo reaproveitamento de resíduos. O avanço do fechamento dos lixões no país — o prazo estabelecido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos era agosto de 2024, mas não foi cumprido — poderá destravar esse potencial ao estimular a destinação adequada de resíduos urbanos, o que cria condições favoráveis para a indústria de biometano.

Para Santovito, o desenvolvimento do setor também necessita de mais linhas de crédito para construção de usinas e da manutenção de benefícios fiscais para os combustíveis renováveis, para que haja competitividade frente aos fósseis. Já o sócio da área de Ambiente e Clima do BMA Advogados, Marcio Pereira, observa que desburocratizar o processo de licenciamento ambiental para plantas de biometano, nos casos em que as questões já foram analisadas na concessão da licença para o aterro sanitário, é outro fator relevante para fomentar negócios.

*Especial para O GLOBO