Com aliado de Bolsonaro e petistas, Paes recebe apoio do MDB e rechaça nacionalização: 'Nosso país é o Rio'
O prefeito do Rio e futuro candidato a governador, Eduardo Paes (PSD), recebeu nesta quinta-feira o apoio do MDB para a eleição de outubro, com a indicação da advogada Jane Reis ao posto de vice. Ao lado dele, estavam aliados da família Bolsonaro e dirigentes do PT, mas Paes afirmou que não interessa a ele entrar no jogo nacional.
— O que fazemos aqui hoje é juntar um grupo de pessoas que não pensa tudo igual, que pensa diferente. Que tem escolhas nacionais distintas, às vezes escolhas locais distintas, mas que entende que política é a arte de juntar gente — disse na sede estadual do MDB. — Nosso país aqui é o Rio de Janeiro, e é disso que vamos tratar nos próximos meses.
No Rio, o MDB é presidido pelo ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, irmão de Jane e anfitrião do evento. Ele foi um aliado ferrenho de Jair Bolsonaro (PL) nos últimos anos, e Caxias virou alvo da Polícia Federal no caso da suposta falsificação no cartão de vacinas do ex-presidente.
Até pouco tempo atrás, Reis era o favorito do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para ser seu palanque no Rio. Havia, no entanto, um imbróglio jurídico: o cacique emedebista está inelegível por causa de uma condenação por crime ambiental que ele tenta reverter no Supremo Tribunal Federal (STF).
— O presidente Lula, aliás, foi comunicado por mim no último domingo dessa aliança com o prefeito Washington Reis, que ele respeita imensamente e por quem tem muito carinho. O presidente Lula apoiou integralmente essa aliança — apontou Paes.
Quando percebeu, na semana passada, que a situação na Corte era quase impossível, Reis recebeu o prefeito do Rio e aliados para um almoço em Xerém, distrito de Caxias onde mora. Ficou selada ali a aliança, vista como impactante por dois motivos: o fator regional, já que a capital e Caxias são os dois maiores colégios eleitorais do Rio, e o religioso, dada a relação entre os Reis e igrejas evangélicas.
— Eu nunca quis ser (só) governador, queria ser o governador que fizesse o maior governo da história. Com o Eduardo sendo governador e a Jane de vice, estou muito mais feliz — disse Washington Reis.
Escolhida para a vice, Jane é advogada e atua em projetos sociais na Baixada, além do vínculo mantido com igrejas. A família Reis tem ainda um deputado federal (Gutemberg), um estadual (Rosenverg) e o atual prefeito de Caxias, Netinho.
— Começo agradecendo a Deus, porque é uma grande missão. Deus está no comando. Eu, como evangélica, coloco Deus sempre em primeiro lugar — disse a indicada. — Esse nosso projeto é o maior e melhor projeto político do estado do Rio de Janeiro. Venho com toda a garra da Baixada Fluminense.
O anúncio de apoio a Paes contou com a presença de figuras nacionais do MDB, como o presidente Baleia Rossi e o ministro das Cidades, Jader Filho. Também compareceram dirigentes e representantes de partidos no estado, entre eles o PT, além do vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), que assumirá a cidade no dia 20 de março. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e o ex-presidente da República Michel Temer (MDB) mandaram vídeos.
Críticas ao governo do estado
O principal eixo do discurso de Eduardo Paes foi a crítica dura ao atual governo, comandado por Cláudio Castro (PL).
— As pessoas começaram, no Rio, a confundir política com associação para outros fins — alegou o prefeito. — Essas outras forças também vão estar unidas. Como falta (a eles) política, mas outros motivos o motivam, eles vão estar unidos para tentar manter o poder no estado do Rio de Janeiro.
Reis, inclusive, foi demitido do governo Castro, no qual atuava como secretário de Transportes, pelo então interino Rodrigo Bacellar (União), que era presidente da Assembleia Legislativa e estava na cadeira durante uma viagem do governador. Castro não reverteu a exoneração.
O dirigente do MDB se mantinha pré-candidato ao governo mesmo quando Bacellar — que depois foi preso e afastado do cargo — tinha sido definido como o representante eleitoral do grupo do governador.
Outro momento de fala incisiva de Paes no evento foi ao analisar a segurança pública.
— Ninguém vai ficar de bravata nas eleições, todo mundo lembra do bravateiro das eleições de 2018 (Wilson Witzel) que falava em “tiro na cabecinha”. Mas, aos delinquentes e marginais do estado: saibam que a cumplicidade que o estado tem hoje com vocês vai acabar a partir de janeiro de 2027.
Com a chegada do MDB, o pré-candidato a governador atrai o primeiro partido de centro de porte robusto. Até então, contava apenas com siglas mais à esquerda, como PT, PSB e PDT, e legendas menores. Ele vinha tentando o PP, partido que só governa menos prefeituras que o PL no estado, mas o fato de o União Brasil ter no Rio o comando da federação a ser formada pelos partidos dificulta as conversas.
Representante do PT na solenidade, o vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, "convocou" mais legendas para a aliança de Paes.:
— É importante que esse pais distensione. Nessa sala apertada cabe muito mais gente, o muro está baixo.
