Com a guerra entre Rússia e Ucrânia no quinto ano, Bielorrússia se vê diante de escolhas cada vez mais difíceis

Com a guerra entre Rússia e Ucrânia no quinto ano, Bielorrússia se vê diante de escolhas cada vez mais difíceis

Fonte: Bandeira



“Deveríamos ir lutar na Ucrânia segundo a vontade de outra pessoa? Queremos ser bucha de canhão lá? Não, não queremos isso”, disse, no começo do mês, o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, ao ser perguntado na cidade de Grodno se planejava entrar formalmente na guerra na vizinha Ucrânia. Embora ostente uma posição de “neutralidade”, com direito a diálogo com os EUA e pedidos de desculpas a Kiev, o país foi usado como um dos pontos de partida para a invasão de fevereiro de 2022, abriga armas nucleares (russas) e hoje sofre pressão para se juntar à Operação MIlitar Especial de Vladimir Putin.

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Desde meados de maio, integrantes do governo ucraniano — incluindo o presidente Volodymyr Zelensky — mencionam “atividades não usuais” na divisa entre os dois países, como a construção de novas estradas, a instalação de unidades de artilharia e o sobrevoo recorrente de drones de reconhecimento.

— Ontem à noite, 16 deles sobrevoaram a região em pares — disse Natalia, moradora de uma cidade perto da fronteira, ao jornal britânico Guardian. — Às vezes, eles voam tão baixo sobre a vila, a 20 metros de altura, que parece que eu poderia pegá-los com as mãos.

Os russos expandiram uma instalação na região de Oryol (próxima às fronteiras de Ucrânia e Bielorrússia) apontada como uma das maiores bases de drones do mundo. As aeronaves lançadas dali poderiam, de acordo com especialistas, usar um novo corredor aéreo atravessando o território bielorrusso. Imagens de satélite revelaram que o local abriga drones da família Geran, incluindo o Geran-5, com motor a jato.

— Estamos registrando tudo cuidadosamente, monitorando tudo e, se necessário, reagiremos — disse Zelensky, em pronunciamento no dia 2 de maio.— A Ucrânia está pronta para defender seu povo, sua soberania, e todos devem entender isso.

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Semanas depois, o comandante das unidades de drones ucraniano, Robert Brovdi, disse em suas redes sociais que “os primeiros 500 alvos já foram identificados”, se referindo a instalações industriais bielorrusas envolvidas na produção de armas, munição ou dedicadas a reparos militares e logística.

“Se estivermos falando dele [Lukashenko] envolvido em uma possível ação contra a Ucrânia, politicamente seria o seu fim”, acrescentou. “Um conselho gratuito e muito prático: não mexa com a Ucrânia.”

Dmytro Kuleba, ex-chanceler ucraniano, destacou, em entrevista recente, que o cenário hoje na Bielorrússia é diferente daquele de 2022, quando o país foi usado como ponto de partida para a entrada de tropas russas na Ucrânia.

— Não estou dizendo que uma ofensiva começará amanhã — ressaltou. — Estou dizendo que vejo algo diferente. Uma série de eventos se desenrolando que dão motivos para acreditar que Lukashenko está se preparando para a guerra.

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Divulgação/Ministério da Defesa da Rússia

Um sinal mencionado por Kuleba é o posicionamento, desde 2023, de armas nucleares em território bielorrusso, e os recentes exercícios militares conjuntos entre os dois países, em maio, que incluíram os arsenais estratégicos. A Rússia ameaçou em diversas ocasiões usar ogivas atômicas, e já emprega armamentos com capacidade nuclear — como o míssil balístico Oreshnik – em seus bombardeios, mas com munições tradicionais.

— Não estamos ameaçando ninguém. Mas temos essas armas e estamos prontos de todas as maneiras possíveis para defender nossa pátria comum, de Brest a Vladivostok — afirmou Lukashenko durante as manobras, em maio, enfatizando que elas eram apenas de natureza defensiva.

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Como destacou o jornal britânico Guardian, as forças ucranianas não querem ser pegas de surpresa, e estão fortalecendo posições defensivas ao longo da fronteira com a Bielorrússia. Florestas na região de Chernihiv, que caiu brevemente para as forças russas em 2022, ganharam cercas de arame farpado e barreiras antitanque. Equipamentos antidrones foram instalados, assim como sistemas de defesa contra mísseis foguetes.

— Vimos muitas declarações de Lukashenko. Vemos treinamentos conjuntos, incluindo forças nucleares. Temos que estar preparados para qualquer cenário. Por isso, estamos construindo nossas fortificações todos os dias — afirmou Nissan, um dos homens que trabalhavam na construção das barreiras, ao Guardian. — Com o terreno e o que fizemos, na minha opinião, seria quase impossível para tanques, veículos e infantaria passarem por aqui. Tudo seria destruído.

No momento em que suas tropas se encontram em dificuldades no campo de batalha, e em que nem as cidades russas estão mais a salvo dos drones ucranianos, a integração plena da Bielorrússia aos esforços de guerra seria um ganho crucial para Putin, seu principal aliado e de quem depende financeiramente. Mas a questão é que Lukashenko não quer se juntar às aventuras militares russas, e insiste em manter a pretensa imagem de neutralidade ostentada desde 2022 (mas que não lhe poupou de sanções ou punições em vários campos, como o esportivo).

“Lukashenko fará todo o possível para não atacar e nem mesmo para demonstrar qualquer intenção de atacar. Lukashenko é um bandido e um ditador, mas não é idiota. Ele entende perfeitamente os riscos para sua própria economia e poder caso se envolva de fato em uma guerra”, escreveu o analista político Taras Zahorodny, em artigo para o portal RBC-Ucrânia.

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Em uma mudança de tom em relação às ácidas declarações de anos passados, quando chamou Zelensky de “nazista” e “escória”, afirmou, em maio, que estava disposto a se reunir com o ucraniano “em qualquer lugar” para resolver as diferenças. Dias depois, garantiu que não queria virar “bucha de canhão” na guerra, e até pediu desculpas pelas palavras anteriores.

— Se Volodymyr Oleksandrovych [Zelensky] se sentiu ofendido, peço-lhe desculpas por estas palavras — disse. — Talvez não devesse ter dito isso, tendo em conta que, afinal, ele está em guerra. Talvez não devesse ter falado de forma tão direta sobre o assunto. Mas, por outro lado, ele tem de compreender que, como costumamos dizer: “quem semeia, sempre colhe”.

As palavras mais amenas a Kiev têm relação também com os recentes contatos entre Minsk e Washington. Embora o governo americano ainda classifique o país como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança e à política externa, os EUA retiraram sanções em troca da libertação de centenas de presos políticos, e uma visita de Lukashenko à Casa Branca não foi descartada. Em janeiro, a Bielorrússia anunciou que passaria a integrar o Conselho da Paz de Trump, mas no mês seguinte revelou não ter recebido os vistos necessários para a primeira reunião na capital americana.