O Brasil já tem mais de 50 projetos de exploração de terras raras, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM).
Com a segunda maior reserva do mundo, de 11 milhões de toneladas métricas, o país vem atraindo investimentos externos — que representam quase a totalidade.
A liderança fica com a China, com 40% a 49% das reservas globais (o equivalente a 44 milhões de toneladas métricas).
Liliam Yoshikawa, sócia do escritório Machado Meyer Advogados, diz que o desafio brasileiro não está na atividade de mineração, mas no desenvolvimento das etapas subsequentes da cadeia produtiva — concentração em carbonatos, separação de óxidos e fabricação de ímãs de alto desempenho e baterias.
O poderio da China é fruto de 50 anos de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em políticas industriais, que a levou a dominar todos os estágios da cadeia, controlando 70% da produção global e 91% do refino.
“Em 2019, o mercado já havia percebido o risco geopolítico do domínio chinês e seus movimentos para dificultar o acesso à sua produção.
Com a eleição de Trump, a China fechou a torneira de vez.
Os outros países intensificaram a busca por alternativas, o que explica a corrida a projetos no Brasil”, diz Rafael Marchi, sócio-diretor da A&M Infra.
Criada no fim de 2025, a Associação de Minerais Críticos (AMC) já reúne mais de 30 empresas e vem atuando junto ao Congresso para alertar sobre os gargalos do setor.
Atualmente, tramitam dois projetos de lei para a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Aprovado na Câmara, o PL 2.780/2024 chegou ao Senado, onde também tramita o PL 4.443/2025.
“A expectativa é que os dois projetos retornem à pauta de discussão somente após as eleições.
A política traz benefícios de debêntures incentivadas, Fundo Garantidor da Atividade Mineral de R$ 2 bilhões e escalonamento de benefícios fiscais e tributários a depender da extensão do processo na cadeia”, resume Marisa Cesar, presidente do conselho da AMC.
As terras raras reúnem 17 elementos químicos, com destaque para os magnéticos, de maior demanda: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), considerados leves; e disprósio (Dy) e térbio (Te), elementos pesados.
Hoje apenas a mina da Serra Verde está em operação no Brasil, tendo iniciado atividades em 2024.
Em abril, a empresa foi adquirida pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões.
Localizado em Minaçu (GO), o projeto produz carbonato misto de terras raras (CMTR).
“Com a proposta de fusão com a USA Rare Earth, a Serra Verde terá acesso, ao longo do tempo, a novas capacidades em toda a cadeia.
O Brasil não foi descartado como uma localização possível para a construção de etapas adicionais de processamento (downstream) no futuro”, garante Ricardo Grossi, presidente e COO da Mineração Serra Verde no Brasil.
Na fase I, serão produzidas até 6.400 toneladas de óxidos totais de terras raras por ano, até o fim de 2027.
A fase II poderá dobrar a produção da mina antes do fim da década.
“Mais de US$ 1,1 bilhão foi investido e, recentemente, obtivemos financiamento de US$ 565 milhões junto à U.S.
International Development Finance Corporation”, diz Grossi.
A Viridis tem sede em Perth, na Austrália, onde é listada na bolsa ASX, mas a operação minerária está concentrada no Projeto Colossus, em Poços de Caldas (MG).
Klaus Petersen, country manager da Viridis no Brasil, diz que o plano é produzir carbonato misto de terras raras (MREC) a partir de 2028.
Após cinco anos, poderá ser feita a separação de óxidos.
Há ainda planos para uma planta demonstrativa para reciclagem de ímãs e produção de óxidos de terras raras no segundo semestre de 2027.
A licença prévia foi obtida em dezembro de 2025; a de instalação, solicitada em abril, é aguardada para outubro.
O projeto prevê investimentos de US$ 400 milhões, dos quais até 70% de dívida e o restante de equity.
“Estamos negociando com a Comunidade Europeia um preço mínimo e fechando um offtake [vendas futuras] com a francesa Solvay, holding da Rhodia.
Há 40 anos, o grupo foi produtor de óxidos de terras raras e está reestruturando a indústria que havia levado para a China”, explica Petersen, que previa emitir, em agosto, o estudo de viabilidade definitivo e fechar os contratos de offtake.
A Meteoric Resources, também listada na ASX, desenvolve o Projeto Caldeira, orçado em US$ 500 milhões, para produzir 14 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras — 4,5 mil toneladas de neodímio (Nd) e praseodímio (Pr), 140 toneladas de disprósio (Dy) e térbio (Te).
Localizado em Caldas (MG), com planta-piloto em Poços de Caldas (MG), o empreendimento detém 1,6 bilhão de toneladas de recursos minerais, dos quais 260 milhões são de reservas de teor de 0,4%.
A meta também é financiar o projeto 70% com dívida e 30% com equity.
“Estamos conversando com o BNDES, bancos privados brasileiros, europeus e americanos.
Já temos cartas de crédito de US$ 250 milhões do Exim Bank americano e de US$ 50 milhões do Export Finance Australia”, destaca Marcelo Carvalho, diretor-executivo da Meteoric na Austrália e country manager no Brasil.
A empresa já está investindo
US$ 100 milhões em pesquisa, estudos de metalurgia, planta-piloto e licenciamento ambiental.
A licença prévia foi obtida em dezembro de 2025 e a de instalação foi solicitada em março, com expectativa de aprovação até novembro.
"O Brasil não foi descartado como uma localização possível para a construção de etapas adicionais de processamento (downstream) no futuro”, diz Ricardo Grossi, presidente e COO da Mineração Serra Verde no Brasil
Dvulgação
“A operação será iniciada em 2028 abrangendo até segunda etapa para separação de óxidos.
Temos dois contratos de offtake com as canadenses Neo Performance Materials, que tem planta na Estônia, e Ucore Rare Metals, com planta nos Estados Unidos, e estamos fechando contratos com empresas europeias.
Já temos contratos para 40% do que vamos produzir”, sinaliza Carvalho.
José Palma, vice-presidente-executivo da Aclara, diz que o Projeto Carina é o maior investimento global da empresa listada na bolsa de Toronto.
Estão previstos US$ 780,9 milhões, 95% destinados à construção de uma planta de processamento no município de Nova Roma (GO) para produzir carbonato misto de terras raras.
A operação está prevista para 2028, com capacidade média de 4.500 toneladas de óxidos de terras raras por ano, sendo 1.191 toneladas de neodímio-praseodímio (NdPr), 156 toneladas de disprósio (Dy) e 27 toneladas de térbio (Tb).
A licença prévia foi solicitada em outubro de 2025.
A também australiana ST Georges Mining é listada nas bolsas ASX e de Frankfurt e, em junho, levantou 60 milhões de dólares australianos (R$ 215 milhões), para acelerar o Projeto Araxá.
Localizado na região do Alto Paranaíba, no município de Araxá (MG), o projeto se destaca por seu perfil duplo, combinando nióbio e terras raras (reservas potenciais de 95 milhões de toneladas destas).
Atualmente encontra-se na fase de estudos ambientais para solicitar as licenças.
Arte/Valor
“A operação pode iniciar no modelo brownfield (aproveitando instalações industriais já existentes) em 2028 ou greenfield (operação totalmente nova) em 2030.
A meta é entregarmos ferroligas de nióbio e terras raras até carbonatos ou oxalatos mistos”, diz Thiago Amaral, diretor-executivo no Brasil da ST Georges.
A americana Rare Earths Americas (REA) levantou US$ 64 milhões na bolsa de Nova York, em maio, para iniciar cinco projetos no Brasil.
Os mais maduros são o Projeto Alpha, em Iguaí (BA), com reservas estimadas em 212 milhões de toneladas de terras raras, e o Constellation, em Poços de Caldas (MG), de 266 milhões de toneladas.
Em estágio inicial estão os projetos Homer, em Paraúna (GO); Pernambuco, em Moreno (PE); e Espinosa, no Vale do Jequitinhonha (MG).
“No final de 2027, teremos todos os estudos do Projeto Alpha, que deve entrar em operação a partir de 2030.
Para o Constellation, vamos iniciar a sondagem de conversão de recursos, que deve aumentar a tonelagem”, diz Francisco Tomazoni Neto, country manager no Brasil da Rare Earths Americas.
Subsidiária brasileira da Brazilian Rare Earths Limited (BRE), de capital australiano, a Borborema Recursos Estratégicos desenvolve o Projeto Monte Alto nos municípios de Jiquiriçá, Ubaíra e Jequié, na Bahia, uma província multimineral com elementos contidos em rochas, com teor de 15% de óxidos de terras raras.
O valor do investimento deve ser divulgado em agosto.
“Em 2030 a operação contempla lavra e concentração mineral; a segunda fase prevê planta de separação de óxidos de terras raras no Polo Petroquímico de Camaçari.
A BRE já anunciou um offtake de dez anos com a francesa Carester, para concentrados de terras raras pesadas e cooperação técnica.
Em agosto, vamos entregar nossa planta-piloto no Senai Cimatec”, explica Renato Gonzaga, presidente-Brasil da Borborema Recursos Estratégicos.
O adensamento da cadeia produtiva é uma intenção do governo brasileiro, mas ainda não se sabe se irá adiante, por conta da dominância chinesa no midstream (refinarias, plantas de processos químicos etc.).
De qualquer forma, há uma iniciativa relevante de P&D no chamado downstream — produção final de manufaturados, como ímãs de alta performance — sendo conduzida com o apoio do Senai e de diversas empresas.
André Pimenta, coordenador do laboratório CTI Senai ITR, diz que a instituição gerencia o Laboratório de Produção de Ímãs de Terras Raras.
Entre as iniciativas destacam-se o Projeto Magbras, executado em vários Estados com instituições acadêmicas e empresas como Viridis, Meteoric, Vale, Stellantis e WEG.
O objetivo é implementar o ciclo completo de produção brasileira de ímãs permanentes de terras raras em escala de demonstrador industrial.
Rare earths - Race for projects in Brazi
Brazil already has more than 50 rare earth projects, according to the National Mining Agency (ANM).
With the world’s second-largest reserves, totaling 11 million metric tonnes, the country has been attracting foreign investment, which accounts for virtually all financing in the sector.
China remains the leader, holding 40% to 49% of global reserves, equivalent to 44 million metric tonnes.
Brazil has only one rare earth mine in production: Serra Verde, acquired by USA Rare Earth in April 2026 for $2.8 billion.
Located in Minaçu, Goiás, the company produces mixed rare earth carbonate (MREC).
“With the proposed merger with USA Rare Earth, Serra Verde will gain access over time to new capabilities across the entire value chain.
Brazil has not been ruled out as a possible location for the construction of additional downstream processing stages in the future,” says Ricardo Grossi, president and chief operating officer of Mineração Serra Verde in Brazil.
Australian miner Viridis’ Colossus Project, in Poços de Caldas, Minas Gerais, should begin producing MREC in 2028.
After five years, the company plans to start separating rare earth oxides from the MREC.
It also plans to build a demonstration plant for magnet recycling and production of rare earth oxides from them in the second half of 2027.
The project requires $400 million.
“We are negotiating a minimum price with the European Union and finalizing an offtake agreement with French company Solvay, the holding company of Rhodia,” says Klaus Petersen, Viridis’ country manager in Brazil.
The Caldeira Project, owned by Australia’s Meteoric Resources, is budgeted at $500 million and expected to produce 14,000 tonnes of rare earth oxides annually.
“We will begin operations in 2028, covering the value chain through the separation of rare earth oxides.
We already have contracts covering 40% of our planned production, including offtake agreements with Canada’s Neo Performance Materials, which operates a plant in Estonia, and Ucore Rare Metals, which has a plant in the United States, as well as ongoing negotiations with European companies,” says Marcelo Carvalho, executive director of Meteoric Resources in Australia and country manager in Brazil.
The Carina Project is Aclara’s largest investment worldwide.
Listed on the Toronto Stock Exchange, the company plans to invest $780.9 million, with 95% allocated to a processing plant in the municipality of Nova Roma, Goiás, to produce MREC with a purity level of 99%.
“Operations will begin in 2028 with an average production capacity of 4,500 tonnes of rare earth oxides per year,” says executive vice president José Palma.
Australia’s St George Mining raised A$60million in June to develop its Araxá Project, with potential reserves of 95 million tonnes.
U.S.-based Rare Earths Americas (REA) raised $64 million in its IPO on the NYSE in May to begin studies for five projects in Brazil: Alpha (Bahia), Constellation (Minas Gerais), Homer (Goiás), Pernambuco (Pernambuco), and Espinosa (Minas Gerais), with operations expected to begin in 2030.
Borborema Strategic Resources, a subsidiary of Brazilian Rare Earths Limited (BRE), is developing the Monte Alto Project in Bahia, which is slated to begin Operations in 2030, and a rare earth oxide separation plant in Camaçari.
