247 – A Coligação “Brasil Pronto pra Mais”, formada pela Federação Brasil da Esperança, PSB, PDT e Federação PSOL/Rede, acionou a Organização das Nações Unidas (ONU) e autoridades brasileiras para apurar possíveis irregularidades na atuação da Meta durante as eleições de 2026.
A coligação encaminhou um relatório técnico ao relator especial da ONU sobre liberdade de opinião e expressão, Leopoldo Maldonado Gutiérrez, e apresentou uma Notícia de Fato ao procurador-geral eleitoral, Paulo Gustavo Gonet Branco, e à Polícia Federal (PF).
O documento reúne episódios que, segundo a coligação, indicam tratamento desigual das candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas plataformas digitais da empresa. A representação às autoridades brasileiras solicita a investigação de possíveis vantagens econômicas obtidas pela campanha de Flávio por meio da distribuição de conteúdos e da produção de material político, sem o devido registro na prestação de contas.
Diferenças no alcance das publicações
Um dos pontos apresentados pela coligação é a diferença no desempenho dos vídeos curtos publicados pelos candidatos entre 1º de setembro e 14 de outubro. De acordo com o levantamento técnico citado no documento, o perfil de Flávio Bolsonaro, com 14,2 milhões de seguidores, registrou média de 6,68 milhões de visualizações por vídeo. O perfil de Lula, com 17,4 milhões de seguidores, teve média de 4,81 milhões.
A diferença corresponde a um alcance médio 39% superior para as publicações de Flávio. O levantamento estima um excedente de 348,5 milhões de visualizações, cujo valor bruto hipotético chegaria a cerca de R$ 7,44 milhões, considerando o preço do impulsionamento pago pela campanha de Lula.
A coligação sustenta que os números precisam ser apurados para verificar se os serviços prestados pela plataforma representaram vantagens econômicas para a candidatura de Flávio Bolsonaro sem a correspondente declaração eleitoral.
Recomendações de perfis e atuação da Meta AI
O relatório também reúne episódios relacionados aos mecanismos de busca e recomendação das plataformas. No início de outubro, segundo o documento, o perfil de Flávio aparecia entre as recomendações nas buscas do Instagram, enquanto o de Lula não era exibido em determinadas pesquisas, mesmo quando o nome do presidente era digitado corretamente.
No WhatsApp, a busca pelo canal “Exército do Lula” passou a sugerir o canal “Tropa do Flávio”. O documento também menciona mensagens internas da Meta divulgadas pela Folha de S.Paulo que, segundo a coligação, reconhecem parte dos episódios relatados.
Outro ponto envolve a Meta AI. Em 14 de outubro, conforme o relatório, a ferramenta gerou uma peça de propaganda com as inscrições “FLÁVIO 22” e “VOTE 22!”, mas recusou solicitações equivalentes com o nome de Lula. De acordo com a coligação, o comportamento persistiu mesmo após a empresa informar que havia corrigido o problema.
Campanha de Flávio declarou R$ 78,6 milhões em receitas
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizados em 13 de outubro e citados na Notícia de Fato, indicam que a campanha de Flávio Bolsonaro declarou R$ 78,6 milhões em receitas e registrou R$ 7,45 milhões em pagamentos à Facebook Serviços Online do Brasil por impulsionamento de conteúdo.
Segundo a representação, a prestação de contas não registra valor estimável recebido da plataforma. A coligação argumenta que os episódios se tornaram públicos após uma decisão do TSE em 15 de outubro e uma reportagem publicada no dia 16. Por isso, afirma que uma eventual omissão na prestação de contas final não poderá ser atribuída ao desconhecimento dos fatos.
A Notícia de Fato também aponta restrições enfrentadas pela campanha de Lula no mesmo período. Entre elas estão a desabilitação da conta de anúncios, a interrupção da contagem de visualizações e o impedimento de impulsionar publicações por quase 24 horas.
A Procuradoria-Geral Eleitoral já havia registrado, em representação em tramitação no TSE, “quatro episódios, todos prejudiciais a um mesmo polo da disputa”, segundo o documento divulgado pela coligação.
O que a coligação pede às autoridades
No comunicado encaminhado ao relator especial da ONU, a coligação solicita o acompanhamento dos fatos relatados e da execução das determinações do TSE relacionadas ao caso.
Na esfera nacional, a Notícia de Fato pede a abertura de procedimento de apuração, com a oitiva de Flávio Bolsonaro, do tesoureiro de sua campanha, Marcelo Lopes de Azevedo, e dos representantes da Meta Conrado Leister e Laura Chiavone.
A representação também solicita que a empresa preserve e forneça registros de chamados, mensagens internas, dados de alcance e históricos dos filtros e das configurações dos sistemas de recomendação e da Meta AI.
Entre as demais medidas requeridas estão o compartilhamento dos documentos entregues pela Meta sob sigilo no âmbito da Representação nº 0602746-69.2026.6.00.0000, em tramitação no TSE, e o acompanhamento das prestações de contas parcial e final da campanha.
A coligação pede ainda que, caso sejam identificados elementos que justifiquem a medida, seja requisitada a instauração de inquérito para apurar possível infração ao artigo 350 do Código Eleitoral, que trata de falsidade ideológica eleitoral. O documento também solicita cooperação jurídica internacional com os Estados Unidos para obter registros da Meta Platforms, Inc.
Brasil 247